Excerpt from A Regente

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A sala do trono de Hinode Teikoku não fora construída para debates. Fora criada para os encerrar.
Rami estava no seu centro, sob a abóbada de pedra negra e talha dourada. Doze colunas erguiam-se como uma floresta petrificada, e entre elas pendiam os estandartes das províncias — seda nas cores de centenas de mundos, conquistados ou anexados ao longo dos séculos. Ao fundo, sobre o estrado elevado, sentava-se o seu pai. O Imperador Kenshin Tokanawa não envergava armadura de batalha naquela manhã. Vestira o branco de luto de um soberano que contabiliza os seus mortos.
Oitocentos e setenta e quatro.
Rami conhecia o número até à última unidade. Trouxera-o da ponte de comando do "Sol Nascente" até ali, como quem carrega uma pedra no bolso — para recordar o seu peso.
— Vitória — proferiu Lorde Sato, e a palavra na sua boca soou como uma acusação. O velho aristocrata deu um passo em frente, acariciando a barba cuidada. — Chamamos-lhe vitória, Vossa Majestade. Mas que o Conselho se lembre do preço. Sete naves. Quase novecentos homens. Trinta por cento da capacidade de combate de toda a frota, reduzida a cinzas numa única manhã. Se isto é uma vitória, temo a próxima.
Um murmúrio de aprovação percorreu os conselheiros. Rami não se virou. Aprendera que olhar para os que sussurram lhes confere uma importância que não possuem.
— O inimigo perdeu o dobro — observou ela calmamente.
— O inimigo pode dar-se ao luxo de tais perdas. — Esta voz era nova. O General Misotishi emergiu de trás de Sato, pesado nas suas vestes faustosas. Cada vinco delas custava o equivalente ao sustento mensal dos técnicos que restauraram os cascos carbonizados das suas naves. — O Shogun Koriyama comanda os setores fronteiriços há quinze anos. Constrói uma frota em três estaleiros enquanto nós formamos comissões. E por trás dele estão os daimyo — Nagata na fronteira, Yamashita no Anel, e dezenas de outros que ainda simulam neutralidade. Pergunto ao Conselho: será sensato provocar um homem destes, enviando uma criança para o enfrentar?
Ali estava a palavra. Criança. Rami deixara de estremecer ao ouvi-la algures por volta da terceira batalha.
— Foi sensato — interveio ela —, quando a criança salvou três sistemas que este Conselho já dera como perdidos.
— Silêncio.
A voz de Kenshin não soou alta. Nem era necessário. Caiu sobre a sala como a tampa de um caixão, e esta submeteu-se.
O Imperador ergueu-se. Desceu os degraus do estrado — lentamente, pois o poder que vinca o rosto não poupa os joelhos. Parou em frente ao Conselho, com a filha à sua esquerda.
— O General Misotishi pergunta se é sensato irritar Koriyama. — Kenshin deixou o nome pairar no ar. — Koriyama está irritado há quinze anos, General. Ficou irritado quando hasteou uma bandeira sobre setores que juraram lealdade a este trono. Ficou irritado quando se autoproclamou shogun, sem ter recebido o título aqui. Nós não o estamos a provocar. Nós chegámos tarde para o deter.
Misotishi baixou a cabeça, mas não o suficiente para ocultar o maxilar tenso.
— Há uma questão mais fundamental do que a prudência — prosseguiu Kenshin. — A questão da legitimidade. Koriyama trava uma guerra como shogun — com um exército, com uma frota, com vassalos. E quem lhe responde? O Imperador? — Ele abanou a cabeça. — O Imperador reina. O Imperador não pode ocupar o trono e, em simultâneo, comandar cada esquadra em centenas de sistemas. E enquanto o trono permanece em silêncio no campo de batalha, cada soldado, cada daimyo e cada mundo vacilante vê apenas uma coisa: um shogun com uma espada e um imperador com uma coroa que não desce até às espadas. Esta é a guerra que Koriyama está a vencer antes sequer de disparar um único torpedo. A guerra sobre quem detém o comando.
O Conselheiro Hirose mexeu-se. O homem mais velho na sala — que sobrevivera a três imperadores e era confidente de um quarto — ergueu a mão com a lenta cerimoniosidade de quem tem permissão para falar sem aguardar a sua vez.
— Vossa Majestade descreve uma doença tão antiga quanto o Império — proferiu ele. — E uma cura igualmente ancestral. Quando a Casa Arakawa se rebelou durante a Segunda Expansão, o Imperador Tenji não desceu do trono. Nomeou um regente sobre os exércitos — a voz da coroa entre os estandartes de guerra —, para que a lâmina do rebelde não fosse a única a ter um nome. O regente não governava províncias. Não cobrava impostos. Não se sentava nesta cadeira. Comandava a guerra em nome do soberano. Arakawa caiu em dos anos.
— Um precedente — murmurou Sato. — Os precedentes são armas de dois gumes. Um regente sobre os exércitos é apenas um shogun sob outro nome. Vamos entregar a uma só pessoa todo o poderio militar do Império?
— Não a uma só pessoa — disse Kenshin. — Ao sangue deste trono.
Desta vez, o silêncio foi diferente. Era o silêncio de homens que realizam cálculos complexos.
Rami compreendeu tudo mesmo antes de o pai olhar para ela.

Ele chamou-a após a sessão para a pequena sala de receções atrás da sala do trono — o local onde os imperadores deliberavam quando não desejavam que cem ouvidos captassem as suas hesitações. Aqui, as paredes estavam nuas. A única janela dava para os jardins, dispostos na geometria rigorosa que o seu pai apreciava: até a natureza, neste palácio, era forçada a manter a forma.
Kenjiro ficou à porta. O seu ombro esquerdo ainda estava ligado após a batalha; ele não se sentou, não se encostou, apenas congelou naquela imobilidade que sugeria não lhe escapar um único detalhe.
— Tu sabias? — perguntou Rami.
— Decidi-o na noite passada. — Kenshin aproximou-se da janela. — Hirose encontrou o precedente legal esta manhã. O resto foi teatro perante o Conselho.
— Eles precisam de acreditar que são cúmplices de uma decisão que já foi tomada.
E eu? Eu participei?
Ele virou-se. Por um instante, a máscara de soberano desvaneceu-se, substituída pelo rosto de um pai que vê, em simultâneo, o bebé que embalou e o comandante que acaba de sepultar novecentas almas.
— Serás tu a carregar este fardo, Rami. Não eu. Por isso, tens o direito de recusar antes de eu o anunciar perante cem testemunhas. — Ele cruzou as manos atrás das costas. — Regente sobre os exércitos. A minha voz onde a coroa não pode estar presente. Comandarás a frota, a defesa, a guerra contra Koriyama e quem quer que o sirva. Deterás a autoridade do trono dentro dessas fronteiras — e apenas dentro delas. Não governarás províncias. Não tocarás no tesouro. Não pisarás o estrado diante do trono enquanto eu respirar. — A sua voz baixou de tom. — E quando a guerra terminar, devolverás o poder que te confio. Na sua totalidade. Compreendes porque to digo agora e não mais tarde?
— Porque depois será tarde para recusar.
— Porque depois podes não querer devolvê-lo. — Ele olhava para ela sem censura, com a clareza cansada de um homem que conhece o sabor da grandeza. — Vi homens bons entrarem em conflitos como servos do dever e saírem enamorados da sua própria insubstituibilidade. Tens dezassete anos. Estou a dar-te um exército. Isso é veneno, Rami, mesmo quando administrado como remédio.
Ela sustentou o seu olhar.
— Porquê, então?
— Porque a alternativa é ver uma rapariga de dezassete anos salvar três sistemas estelares, apenas para o Conselho lhe confiscar a nave na manhã seguinte. — Algo gélido perpassou o seu rosto, por um instante, como uma corrente de ar sob uma porta fechada. — A ordem tem um preço, minha filha. Chegará o dia em que terás de escolher entre a compaixão e a estabilidade, e esse dia fará com que te odeies a ti própria. Mas o Império sobrevive porque alguém faz essa escolha. Hoje, eu escolho-te a ti. Não porque estejas pronta. Mas porque és a única a quem posso confiar as espadas sem temer a direção para a qual as irás virar.
Rami manteve-se em silêncio. Nas palavras dele pulsava amor, envolto em algo mais duro que o aço, e ela ainda não sabia como os distinguir.
— O selo que te dei em segredo — disse Kenshin. — Traze-lo contigo?
Das dobras da sua túnica, Rami retirou um objeto embrulhado em seda escura. Desenrolou-o. Na palma da sua mão repousava um selo de obsidiana negra com a gravura de um dragão a morder a própria cauda — o símbolo de Kenshin I, fundador da dinastia. Mostrara-o a muito poucos, um a um, à porta fechada. A pedra fria recordava o toque do General Hojo e daqueles veteranos que acreditaram numa rapariga de dezassete anos apenas porque, atrás dela, se erguia aquele dragão.
— Até agora, era um sussurro — prosseguiu Kenshin. — O sinal para um punhado de homens de que a mão por trás de ti é a minha. Amanhã, o segredo cai. O mesmo dragão erguer-se-á abertamente por trás de cada ordem tua. Usa-o com moderação. Usado no lugar errado, acusa-me a mim. Usado corretamente, transforma uma princesa na voz de uma história milenar.
A obsidiana pesava na sua palma — fria e maciça, como se se tivesse tornado mais densa desde a última vez.
— Amanhã, perante o Conselho, ajoelhar-te-ás como herdeira — proferiu Kenshin — e erguer-te-ás como regente. Esta noite, ainda és apenas a minha filha. Aproveita. Não terás muitas mais noites assim.

Kenjiro alcançou-a no corredor que conduzia ao convés dos vaivéns. Caminharam em silêncio durante algum tempo, passando por guardas que faziam reverências ligeiramente mais profundas do que ontem — a notícia já pulsava na rede do palácio, mais veloz do que qualquer decreto oficial.
— Vais precisar de um estado-maior — disse ele, por fim. — Pessoas em quem confies, não as nomeadas pelo Conselho.
— Eu sei. — Rami apertou o selo de obsidiana no bolso. — Akira. Takeshi, se ele aceder a servir sob o comando de uma rapariga. Tu.
— Eu já sirvo.
— Tu protegias a princesa. — Ela parou e voltou-se para ele. — Amanhã irás proteger a regente que envia homens para a morte segundo o seu próprio critério. É uma pessoa diferente, Kenjiro. Não me ofenderei se decidires que o teu juramento pertencia à anterior.
O samurai observou-a demoradamente. Depois, os seus lábios tremeram num sorriso quase impercetível.
— Uma espada que já se quebrou uma vez — disse ele em voz baixa — conhece a fronteira entre a lâmina e a carnificina. Protegerei quem se lembra dessa diferença. Tu ainda te lembras.
Para lá das vigias, avistava-se a estação orbital da capital — milhares de luzes, milhares de naves imóveis, a aguardar uma ordem que, até àquele momento, ninguém tinha o direito legítimo de dar. Amanhã, ela viria dela.
Algures por entre aquele enxame de luzes encontrava-se o "Amaterasu" — o esquadrão que ela formara nas entranhas de uma lua gelada, enquanto o mundo apenas lhe oferecia um esconderijo. Amanhã, a sua existência tornar-se-ia oficial. O seu nome fundir-se-ia nos registos imperiais, como um ribeiro que se perde num grande rio, e os seus homens ostentariam galões que ninguém ousaria contestar.
Rami não sentia qualquer arrependimento. Dá-se um nome àquilo que deve permanecer oculto. Amanhã, os esconderijos tornar-se-iam supérfluos.
Ela tirou o selo e, por um instante, fitou o dragão negro, enrolado num círculo infinito. Depois, guardou-o.
Koriyama fora ferido, mas não subjugado. Algures para lá da cortina fronteiriça, ele contava os seus mortos, construía novas fragatas e preparava a guerra que ainda estava por revelar a sua verdadeira magnitude. Entre este momento e o próximo embate, passariam meses — tempo que transformaria a princesa da sala do trono em algo que nem mesmo o seu pai ainda ousava nomear.
Mas isso estava por vir. Esta noite, Rami ainda tinha o direito de estar exausta. Ainda tinha o direito de ter medo.
Amanhã, teria apenas o direito de liderar.

-- 2 --

O ar na secção médica do "Sol Nascente" estava impregnado com o odor a carne carbonizada e desinfetante. Antes do confronto, reinava aqui um vazio estéril: algumas camas para exames de rotina, dispostas em filas rigorosas, e paredes brancas que refletiam a luz fria dos painéis. Agora, a capacidade tinha duplicado. Pelo meio, cruzavam-se drones médicos — esferas prateadas cujos sensores emitiam um som agudo e monotonamente penetrante. As unidades humanoides executavam as manipulações delicadas: suturavam tecidos, calibravam os campos de estase, injetavam soros. Os seus dedos metálicos não tremiam. Nunca.
Rami caminhava lentamente por entre os feridos. Tinha trocado o seu uniforme de comandante por uma túnica azul-escura — idêntica à usada pelos técnicos de saúde. O gesto fora premeditado. Ali, no meio das vítimas, ela recusava-se a ser a princesa-regente. Queria ser apenas um ser humano que os olhava nos olhos.
Kenjiro seguia-a a quatro passos de distância. O seu ombro esquerdo permanecia enfaixado, mas ele recusara-se a ocupar um lugar entre os pacientes. A sua mão repousava sobre o punho da katana por um hábito enraizado de forma tão profunda que não o abandonava nem durante o sono.
Rami parou junto a uma cama ao fundo. O rapaz ali deitado dificilmente teria chegado aos vinte anos. O seu braço esquerdo desaparecia sob o brilho azulado de um campo de estase; a energia modulava-se ritmicamente, à semelhança da respiração. O seu rosto parecia encovado, mas o olhar mantinha-se desperto.
— Como te sentes, tenente...? — Rami verificou os dados no terminal holográfico por cima da cama. — Tenente Takeo?
O jovem fez um effort para se erguer. Ela deteve-o cuidadosamente com a mão sobre o ombro são.
— Princesa Rami? — A voz dele soou rouca. — É mesmo Vossa Alteza?
— Sou eu. E não tentes levantar-te, ou os médicos vão acusar-me de interferir com o trabalho deles.
O rapaz sorriu debilmente, embora a alegria não lhe tivesse chegado aos olhos.
— Estou a pensar na batalha — partilhou ele. — Vi como as defesas da nave-almirante de Koriyama colapsaram. Nunca tinha visto nada assim. Foi como se a realidade se rasgasse.
Rami engoliu em seco. As memórias do embate ainda ardiam — os cascos destroçados, as explosões ofuscantes, as vozes no comunicador que subitamente mergulhavam no silêncio.
— Foi aterrador — admitiu ela. — Para todos nós.
— Mas vencemos, não foi?
Na voz dele, ela captou algo mais do que uma pergunta. Uma súplica por um sentido que justificasse a agonia no seu braço mutilado.
— Sobrevivemos — corrigiu Rami. — Para começar, isso é suficiente.
Permaneceu a seu lado durante mais alguns minutos. Ouviu o seu relato sobre o caos, sobre a falha dos sistemas no caça, sobre o instante em que percebeu que não regressaria à nave-mãe, e sobre a estranha calma que se seguiu à sua decisão de enfrentar a morte de frente para o inimigo. Rami observava como ele processava a experiência. Transformava o horror numa narrativa que conseguisse suportar.
Era o que todos faziam. Tentavam encerrar o monstro em palavras, para o despojar da sua força.
Passou para a cama ao lado. A comandante Hoshino, uma engenheira veterana das naves de escolta destruídas, jazia de lado. A metade esquerda do seu rosto e do pescoço estava coberta pelas marcas avermelhadas da terapia regenerativa. A nova pele parecia lisa e rosada — um contraste antinatural com as rugas do lado oposto.
— Como corre a recuperação, comandante? — perguntou Rami, sentando-se na cadeira de metal.
— É dolorosa, Vossa Alteza. — Hoshino deitou um sorriso, mas o rosto contorceu-se numa careta. — Os médicos prometem que daqui a dois meses não restará qualquer cicatriz. Mas eu não tenho pressa; as cicatrizes conferem caráter.
Rami sorriu; por um momento, a fadiga recuou. Depois, a sua expressão voltou a ensombrar-se.
— E o que aconteceu à sua equipa?
O rosto de Hoshino endureceu.
— Perdemos quatro pessoas. O subtenente Haruki Koda tinha dezanove anos. Tinha acabado de sair da academia. A última coisa que partilhou comigo antes do turno foi que a mãe lhe enviara uma receita de ramen caseiro. Prometeu cozinhá-lo quando regressássemos.
Rami ficou em silêncio. Não havia palavras capazes de preencher semelhante vazio. Limitou-se a pousar a mão sobre os dedos de Hoshino e a apertá-los com firmeza.
Continuou a ronda. Parava junto a cada um. As suas histórias sobrepunham-se na sua mente — fragmentos de uma guerra refratada através de dezenas de destinos diferentes. O piloto que executara três manobras de combate com o motor em chamas. A navegadora que fornecera coordenadas até ao fim, enquanto estilhaços lhe dilaceravam a coxa. O artilheiro que não disse nada, apenas a fitou com olhos submersos num abismo para o qual Rami não tinha nome.
Quando saiu do setor médico, Kenjiro esperava-a junto à porta. Mantinha-se imóvel, de braços cruzados, mas ela reparou que a ligadura do seu ombro já estava ensopada em sangue.
— Estás a sangrar — observou ela.
— É superficial.
— Kenjiro.
— Mudarei a ligadura quando a senhora terminar a inspeção nos hangares, Vossa Alteza.
Ela não contestou a decisão dele. Conhecia-o demasiado bem.
Os hangares habitavam uma realidade diferente. Em vez do silêncio abafado da enfermaria, imperava aqui um caos organizado. As imensas naves ecoavam com um estrondo industrial — máquinas de soldar cuspiam arcos elétricos que rasgavam as sombras como relâmpagos furiosos. Martelos pneumáticos batiam num ritmo sincopado. Cortadoras a laser de alta frequência emitiam um guincho penetrante que chegava a arrepiar os dentes. O cheiro a óleo de motor, metal fundido e ionização preenchia o espaço.
A fragata "Dragão" estava ancorada na plataforma principal. Rami parou diante dela e imobilizou-se.
Outrora, a nave personificara a perfeição aerodinâmica. Linhas limpas, blindagem espelhada, sistemas de armamento metodicamente dispostos — séculos de evolução da engenharia fundidos em aço e compósitos. Agora, a embarcação lembrava uma presa que o abismo mastigara e cuspira. No casco, escancarava-se um enorme buraco, queimado por um feixe de energia concentrada. As placas de metal tinham derretido e retorcido em formas bizarras. As torres de armamento a bombordo não passavam de uma massa disforme. Os projetores de escudos sobressaíam como membros fraturados.
Akira emergiu do interior da nave assim que a avistou. Tinha o rosto marcado pela fuligem, o cabelo colado à testa pelo suor e os olhos avermelhados. No seu olhar, contudo, ardia aquela chama que Rami tão bem conhecia. Ele não parara de trabalhar desde o final da batalha.
— Os danos superam as nossas expectativas — declarou ele, dispensando as cortesias. Rami valorizava isso nele — a sua incapacidade para adocicar a verdade. — A conduta de energia principal foi cortada em três setores críticos, e a estrutura molecular dos condutores está desestabilizada. Precisamos de novos barramentos de potência, nós de distribuição e fusíveis. O protocolo padrão exige seis semanas.
Rami avançou em direção à secção danificada.
Passou os dedos pela borda do metal derretido — ao toque, a superfície arrefecida assemelhava-se a vidro liso.
— Mostra-me o esquema — ordenou ela.
Akira ativou o projetor portátil. A rede holográfica dos canais de energia vibrava entre eles: linhas vermelhas para o armamento, azuis para os escudos, verdes para a propulsão e amarelas para os sistemas de suporte de vida. Em três zonas, as cores extinguiam-se, substituídas por marcadores intermitentes de falha crítica.
Rami estudava a projeção com a fria concentração de uma estratega a preparar uma rutura. O seu dedo traçava rotas alternativas através da arquitetura da nave. Akira aguardava de braços cruzados — conhecia bem aquela expressão.
— O que acontecerá se contornarmos a rede central? — perguntou ela ao fim de um minuto. — Em vez de reconstruirmos todo o sistema hierárquico, construímos uma série de células de energia independentes. Cada uma alimentará um grupo específico de módulos.
Akira franziu as sobrancelhas.
— As células modulares são instáveis. Se uma for atingida em combate, a reação em cadeia pode...
— Isolamo-las fisicamente através de barreiras magnéticas. Um sistema de desacoplamento de emergência. Ao mais ínfimo sinal de sobrecarga, a célula é ejetada para o espaço aberto.
— Vais perder dez por cento da eficiência total — avisou Akira, mas na sua voz já transparecia interesse.
— Mas ganharei em tempo. Neste momento, os prazos são mais valiosos do que a perfeição.
Enquanto debatiam os parâmetros técnicos, vários mecânicos reuniram-se em redor. A maioria escutava em silêncio, de braços cruzados sobre o peito, marcados pelo labor. Rami reparou num dos mais velhos — de rosto sulcado e pele salpicada por marcas de soldadura. Ele observava-a com um misto de respeito e ceticismo.
— Tem alguma objeção, mecânico-chefe? — perguntou ela, reconhecendo a patente pelas insígnias desgastadas na sua manga.
— Taniguchi, Vossa Alteza. — Ele hesitou. — Não tem a ver com a técnica. Isso é viável. Mas as pessoas... as pessoas estão no limite. Perdemos camaradas. Muitos acham que é inútil. Que não temos hipótese contra Koriyama.
No seu tom não se detetava nenhum desafio, apenas uma dor exposta. Taniguchi não estava a deitar culpas, apenas transmitia o fardo comum que vergava as costas da tripulação.
Ela percorreu os presentes com o olhar. Dezenas de pares de olhos estavam cravados nela. Engenheiros de macacões manchados, técnicos com olheiras escuras de insónia, mecânicos de palmas enfaixadas. As pessoas que sustentavam o metal daquele exército.
— Podem dizer-me por que razão estão aqui? — perguntou ela em voz baixa. — Duvido que seja pelo salário.
Fez-se silêncio. Algures ao longe, uma máquina de soldar sibilou e apagou-se.
— Eu sou de Kepler-442b — manifestou-se uma jovem, da idade de Akira. A sua voz soava uniforme, mas os nós dos seus dedos estavam brancos.
— Eu sou de Novo Tóquio — acrescentou outro. — Vi o que fizeram aos civis.
Rami assentiu devagar.
— Conheço as vossas histórias. É por isso que aqui estamos. Não por causa de doutrinas abstratas, mas pelas pessoas que perdemos. E por aquelas que ainda podemos salvar.
Ela virou-se diretamente para Taniguchi.
— Ontem, vencemos. A um custo que tem o travo amargo da derrota, mas vencemos. E a guerra não acabou. Koriyama conta com o nosso medo, com a paralisia do desespero. Cada nave que devolvemos ao ativo, cada sistema que volta a funcionar — isso prova que não nos rendemos. Que os sacrifícios deles não foram em vão.
Faltava nas suas palavras qualquer dramatismo ou teatralidade desnecessária. O seu discurso era um instrumento comedido, colocado no lugar exato.
Taniguchi fitou-a longamente. Por fim, os seus braços afrouxaram e ele assentiu.
— Uma semana para o "Dragão", disse?
— Três dias.
Pausa. Um dos técnicos atrás dele expirou ruidosamente.
— Fá-lo-emos — sentenciou Taniguchi.
O trabalho começou de imediato. Rami permaneceu nos hangares por mais duas horas; a sua presença era necessária. Observou como a hesitação se transformava em concentração, como as equipas se auto-organizavam, como as mãos que momentos antes pendiam sem vontade agora agarravam as ferramentas com um propósito claro.
Era a única coisa que lhes podia dar. Sentido. Algo pelo qual valesse a pena continuar.
Mais tarde, reuniu os líderes de equipa na secção central. O projetor holográfico delineava um plano implacável de recuperação — cronogramas, recursos, prioridades. Os números não deixavam margem para ilusões, e todos na sala tinham consciência disso.
— Serei franca — disse ela, por fim. — O que vos exijo está no limite do possível. Turnos de doze horas. Improvisações constantes. Resolução de problemas que não constam nos manuais. Mas acredito que conseguirão. Porque já o fizeram. Ontem alcançaram o impossível: sobreviveram.
Os aplausos eclodiram espontaneamente, mas ela cortou-os com um gesto.
— E, por último: cada um de vós tem entes queridos. Amigos. Pessoas que anseiam por vós. Assumo o cuidado pessoal deles. Medicamentos, provisões, segurança — tudo será assegurado. Vocês cuidam das naves. Eu cuido de vocês.
Quando as pessoas dispersaram, Rami ficou sozinha na plataforma. A adrenalina da batalha evaporara-se, e a exaustão que tomara o seu lugar não era física. Sentia-se mais esmagadora do que a gravidade, infiltrada profundamente nos seus ossos. Mas sob ela pulsava algo novo. Uma sensação, simultaneamente frágil e afiada como uma lâmina recém-afiada.
Ontem, ela traçava estratégias. Hoje, insuflava vontade. A diferença residia na forma como olhavam para ela, e na sua própria prontidão para não os trair.

A ponte de comando do "Sol Nascente" estava imersa no brilho azulado dos monitores. As vigias revelavam o abismo — um vazio negro, salpicado de estrelas e destroços do embate. Por entre os escombros ainda manobravam vaivéns de resgate; as suas luzes piscavam num ritmo lento e evanescente.
Rami aproximou-se do vidro. O seu reflexo pálido recebeu-a com sombras sob os olhos e lábios comprimidos numa linha fina. Da princesa que fora há seis meses, não restava qualquer vestígio.
Teria sido para melhor?
Kenjiro emergiu a seu lado, silencioso. Tinha mudado a ligadura — na gaze já não se viam manchas de sangue.
— Como te sentes? — perguntou ele.
Ela acompanhou com o olhar os esqueletos metálicos das naves que flutuavam lentamente na imponderabilidade.
— Cansada. Assustada. — Fez-se silêncio. — Mas também preparada.
— Koriyama voltará — pronunciou Kenjiro, em voz baixa.
Soou a uma constatação, seca e precisa como um relatório técnico de danos sofridos.
— Eu sei.
Rami afastou-se da vigia e endireitou os ombros, apesar de cada fibra muscular protestar. O seu olhar tornou-se de aço.
— Mas antes disso temos de travar outra batalha. — Ela desatou a caminhar com determinação, e os seus passos ecoaram pelo chão metálico. — Kenjiro, prepara o vaivém para a capital. O Conselho espera por nós.
Nas suas costas, para lá do vidro espesso, as luzes das equipas de resgate continuavam a piscar. Rami, contudo, não olhou para trás.

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