Excerpt from A Herdeira

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O feixe fino do ferro de soldar a laser sibilava sobre a placa de circuito, derretendo o metal ao nível molecular. A luz encolhera-se até ser um fio, mais fino do que um cabelo, criando ligações que o mais leve tremor da mão transformaria em sucata. Uma gota de suor surgiu na têmpora de Rami. Ela não a limpou. Qualquer movimento agora ameaçava meses de trabalho.
O seu mundo concentrara-se na esfera prateada que levitava no campo magnético sobre a bancada. Na sua superfície, destacavam-se lentes do tamanho de um grão de arroz, sensores de anomalias gravitacionais e micropropulsores com canais gravados para a tração. Apenas mais duas ligações. Então, o giroscópio quântico assumiria o seu lugar e o "Mosquito" posicionar-se-ia em gravidade zero com uma precisão infalível — silencioso, invisível, paciente. Entre os asteroides na fronteira, mapearia cada pedaço de rocha e cada anomalia, transmitindo os dados aos cruzadores de comando antes mesmo que o inimigo percebesse que fora descoberto.
Os seus lábios murmuravam constantemente, tal como outros sussurram orações. As equações orbitais de Kepler. A constante de Planck. Os algoritmos de autoaprendizagem. Os seus olhos violeta — a marca da linhagem imperial — estavam semicerrados, reduzidos a frestas.
Os aposentos em seu redor traçavam o seu verdadeiro autorretrato. Sob o teto alto com dragões em relevo, tremeluziam hologramas: esquemas de hiperpropulsores, mapas estelares atualizados em tempo real e uma simulação de um sistema planetário que girava pacientemente num canto. Onde outras princesas guardavam pergaminhos de poesia, nas suas paredes pendiam projetos de escudos de energia e planos para a terraformação de luas mortas. A bancada de trabalho assemelhava-se a um campo de batalha após uma longa campanha — ferramentas com marcas de uso, componentes espalhados e um exoesqueleto semimontado, concebido para restaurar a mobilidade de veteranos incapacitados.
A única ordem na sala irrompia do exterior, através das janelas de cristal. Os jardins do palácio desciam em terraços simétricos — arbustos podados em cubos e esferas, cascatas com um caudal calculado ao milímetro, alamedas limpas até adquirirem um brilho espelhado. Uma ordem impecável, erguendo-se como uma repreensão muda ao caos no interior.
Ela era Ramichi, a herdeira de Hinode Teikoku — o Império do Sol Nascente, cujas fronteiras abarcavam centenas de sistemas estelares. Nas suas veias corria o sangue de milhares de gerações de governantes. Mas ali, por entre o óleo de motor no macacão e o fumo das soldaduras, o título perdia o sentido. Ali, ela era apenas uma rapariga de dezassete anos, guardando um futuro possível nas palmas das mãos.
A porta de correr em cipreste polido abriu-se silenciosamente.
Ela não a ouviu. Todo o seu ser estava concentrado na última soldadura. Por isso, quando a voz ecoou, despedaçou o silêncio como o impacto de uma pedra.
— Rami.
A sua mão tremeu. O ferro de soldar tilintou na bancada e o feixe apagou-se. Meses de trabalho ficaram por um fio — e resistiram. Com um reflexo mais rápido do que o pensamento, empurrou a esfera para trás de uma pilha de peças sobresselentes. Tarde demais. O Imperador Kenshin já a vira.
Ele estava parado na ombreira, sem que os seus passos perturbassem a quietude dos tatamis. O quimono cerimonial caía-lhe dos ombros em pesadas pregas púrpuras; sobre o peito, nove dragões enroscavam-se por entre nuvens de fio de ouro, e à cintura repousava a espada da dinastia, que passara pelas mãos de três gerações. Tudo nele era ordenado, calculado, herdado. Tudo nela — o oposto.
— Pai. Não te ouvi.
A sua voz revelou o que o rosto tentava esconder — a culpa de uma criança apanhada em transgressão.
Kenshin percorreu a sala com o olhar — os hologramas, as ferramentas espalhadas, as nódoas no macacão da filha. Não sentia ira, mas o cansaço de um homem que tivera aquela conversa demasiadas vezes e conhecia o seu desfecho de antemão.
— O teu mestre de caligrafia informou-me de que voltaste a faltar à lição.
Não era uma repreensão, mas uma constatação. Era precisamente isso que mais doía.
— Estava a trabalhar em algo sem importância. — A mentira nasceu por si só, fruto de um velho reflexo de defesa. Mas logo ao proferi-la, Rami apercebeu-se de que era inútil. Nada do que criava ali carecia de importância para ela.
E como a paixão superava sempre a prudência, acrescentou:
— Na verdade, não é irrelevante. — Rami puxou a esfera de volta à luz, esquecendo-se de a esconder. — Isto é o "Mosquito". Um batedor, mais sensível do que o equipamento de um cruzador inteiro. A sua propulsão iónica é tão silenciosa que nenhum sensor a detetará. Mapeia um campo de asteroides em tempo real, calcula anomalias gravitacionais e prevê trajetórias. Um enxame destes drones nas fronteiras protegerá o Império melhor do que mil naves pesadas. Dar-nos-á olhos em todo o lado.
As suas mãos desenhavam esquemas invisíveis no ar. Os seus olhos brilhavam. Por um momento, Kenshin não viu a filha, mas o seu próprio reflexo de há quarenta anos — quando também ele acreditava que uma ideia audaz podia reordenar o universo numa noite.
Viu-o. E foi por essa mesma razão que a sua voz soou mais rígida:
— Ramichi.
O nome completo traçou uma fronteira na sala. O entusiasmo dela desvaneceu-se.
— O teu dever não é montar drones, por mais geniais que sejam. O teu dever é aprender a governar um Império. A caligrafia, a cerimónia do chá, o estudo das alianças — estes não são costumes antiquados. É a linguagem na qual o poder fala consigo mesmo. Se não a dominares, ninguém te seguirá.
Ele deu um passo em frente. Um metro separava-os — o suficiente para ele ver a obstinação nos olhos dela, e o bastante para ela manter a sua.
— Quando te sentares diante do Mestre Ito das guildas, a forma como seguras o pincel revelar-lhe-á mais sobre ti do que qualquer uma das tuas invenções. As máquinas não te salvarão naquela sala, minha filha. Lá, precisarás de algo mais antigo e resiliente — a capacidade de falar de modo que os corações te sigam, antes que as mentes tenham calculado o preço.
— Mas as minhas máquinas salvam vidas agora — retorquiu ela, embora a sua voz já demonstrasse menos firmeza. — Um "Mosquito" é mais útil do que cem cerimónias. O progresso é a força, pai. Não a reverência.
— O progresso é um instrumento. — Kenshin apontou para a janela, para os jardins e para o horizonte além deles. — Poderoso, admito. Mas a tradição é o solo onde tudo se enraíza. Ela mantém-nos inteiros quando a política ameaça despedaçar-nos. Faz com que o povo nos siga por reverência, e não por medo.
Kenshin calou-se, deixando as palavras assentarem.
— Governarás milhares de nações. Shoguns que valorizam mais a honra do que a própria vida. Daimyos para quem um chá mal servido é uma ofensa mais grave do que uma batalha perdida. Mercadores que captarão a tua mais pequena hesitação. Não os vencerás com uma máquina mais perfeita. Irás conquistá-los ou perdê-los pelo que fores.
Por um instante, nada se erguia entre eles, senão a luz dourada e o abismo de duas gerações. Duas pessoas que se amavam até doer, mas que falavam em frequências diferentes — ela na linguagem do futuro, ele no código do passado.
Kenshin suspirou. A sua expressão suavizou-se, mas a sua vontade não.
— Não posso continuar a permitir que negligencies a tua preparação. O tempo está a esgotar-se — não o meu, mas o teu. O Conselho dos Anciãos está a perder a paciência. Alguns governadores já perguntam abertamente se a herdeira está pronta. Por isso, tomei uma decisão.
O instinto dela despertou antes que a mente o alcançasse.
— Que decisão?
— Atribuí-te um guarda-costas pessoal. Kenjiro Tanaka. — Ele pronunciou o nome lentamente, com toda a inflexibilidade de um decreto de Estado. — Um dos nossos melhores homens. Acompanhar-te-á a todo o lado e garantirá que cumpres o protocolo e os teus horários.
O ar abandonou-lhe os pulmões.
— Um guarda-costas — repetiu ela, baixinho. Depois, a sua voz elevou-se: — Ou um carcereiro? Não sou uma prisioneira, pai. Não sou uma criminosa, para me colocares sob vigilância.
Ela deu um passo na sua direção. Nos seus olhos ardeu algo que ele conhecia dos velhos retratos nas paredes — autoritário, rebelde, perigoso. O sangue que partilhavam evidenciava-se de forma mais clara no conflito.
— És a herdeira do trono! — A voz de Kenshin embateu nas paredes e os hologramas cintilaram. — É tempo de cresceres, Rami. Isto não é o passatempo de uma aristocrata aborrecida. Serás a Imperatriz da maior civilização da galáxia, quer te agrade quer não.
O silêncio caiu entre eles, denso e frio. A luz do sol permanecia brilhante, mas já não aquecia. Kenshin recompôs-se. O seu tom tornou-se uniforme, mas manteve-se implacável.
— O senhor Tanaka chega amanhã de madrugada. Tratá-lo-ás com o respeito que o seu posto e a sua missão exigem. Não é um pedido.
Ele virou-se com o movimento brusco de quem passou a vida em cerimónias. As mangas largas ondularam como as asas de uma ave de rapina. A porta deslizou atrás dele, deixando apenas o sibilar do ar condicionado e o som distante das cascatas.
Rami ficou sozinha. Os aposentos, de repente, pareceram mais pesados. Ela apertou a esfera, sentindo a carcaça aquecer contra a sua palma, e fitou os jardins imaculados — uma beleza geométrica, esculpida para impor respeito e não para ser vivida.
Uma gaiola de ouro. A mais luxuosa da galáxia, mas, ainda assim, uma gaiola. As suas grades não eram de metal, mas de expectativas. No vidro, encarava-a o reflexo de uma rapariga num macacão sujo, dividida entre o afeto e o anseio de ser ela própria.
Não me vou render, pensou ela. Não vou escolher entre ser herdeira e inventora. Serei ambas. Mas segundo as minhas próprias regras.

Kenshin não regressou aos seus aposentos. Os seus pés levaram-no à Sala dos Espelhos — um espaço exíguo e sem janelas, onde ecrãs pendiam das paredes. Ali, o Império revelava-se na sua verdadeira forma, e não como os poetas da corte o pintavam.
O Conselheiro Hirose já o aguardava. Um ancião curvado como uma vírgula, com um olhar que sobrevivera a três Imperadores.
— Ela não reagiu bem à notícia — observou Hirose. Era uma constatação.
— Ela pensa que se trata de controlo. — Kenshin deteve-se diante do maior mapa. Nele, os sistemas estelares brilhavam num sereno azul imperial. Quase todos. — Deixem-na pensar assim. É preferível que me odeie como carcereiro a que descubra a verdade.
Hirose seguiu-lhe o olhar. No extremo mais distante do mapa, três sistemas pulsavam em vermelho-sangue.
— Outra vez? — perguntou o ancião, em voz baixa.
— O terceiro sinal este mês. — Kenshin tocou num dos pontos e, sobre ele, surgiu um rosto — severo, de cabelos grisalhos e despenteados. — Hideyoshi Koriyama. Shogun dos setores fronteiriços. Oficialmente, um vassalo leal. Oficiosamente, constrói uma frota e fala de uma "ordem" que o Império teria esquecido.
— Falatório de um velho ambicioso — Hirose encolheu os ombros. — Metade dos daimyos fala assim à volta de um copo de saqué.
— Metade dos daimyos não possui três estaleiros navais escondidos por detrás de declarações de lealdade. — A voz de Kenshin permaneceu neutra, mas a tensão subjacente era palpável. — Na semana passada, um dos meus agentes na corte dele deixou de transmitir. Silenciou-se. Tu sabes o que isso significa.
Hirose sabia. O silêncio de um informador raramente trazia boas notícias.
— E por isso envias o teu melhor agente para proteger a rapariga, em vez de o usares contra Koriyama.
Kenshin não respondeu de imediato. Contemplava os pontos vermelhos e via uma ameaça que não ousava proferir em voz alta. Se Koriyama procurasse uma forma de quebrar a vontade do Imperador, não atacaria a frota. Atacaria a única coisa que Kenshin não podia dar-se ao luxo de perder.
— Se tocarem nela — disse ele, por fim —, não haverá negociações. Não haverá conselhos nem cerimónias. Queimarei o setor em que lhe puserem as moms, e tudo o que lá estiver vivo. — Proferiu as palavras calmamente, como quem anuncia a previsão meteorológica. E era precisamente essa calma que assustava. — É por isso que Tanaka estará ao seu lado. Não porque eu desconfie dela. Mas porque não confio em mais ninguém.
Hirose observou-o longamente. Servira aquele homem durante quarenta anos e, ainda assim, não conseguia determinar onde terminava o pai e onde começava o Imperador.
— Um dia terás de lhe contar — disse o ancião. — Sobre Koriyama. Sobre tudo. Não a podes preparar para o trono mantendo-a na ignorância.
— Um dia. — Kenshin apagou a imagem do shogun com um só movimento. Os pontos vermelhos continuaram a pulsar na escuridão, pacientes como uma infeção. — Mas não hoje. Por hoje, que construa os seus drones por mais algum tempo e me tome por um tirano. Terá bastante tempo para aprender qual é o preço da ordem.
Ele virou-se e saiu, e os ecrãs atrás dele continuaram a brilhar — centenas de sistemas a azul, três a vermelho e uma jovem herdeira algures no meio, que ainda acreditava que a sua maior batalha era contra o seu próprio pai.

-- 2 --

O ar no laboratório pesava com o cheiro a metal aquecido e óleo de máquinas — um aroma que trazia Rami de volta à realidade de forma mais convincente do que qualquer cerimónia do chá. Trinta metros abaixo do brilho imaculado do palácio, entre o zumbido abafado dos servomotores e a luz cintilante das consolas holográficas, os títulos perdiam o sentido. Cada luz intermitente, cada fio e cada parafuso tinham sido colocados pela sua mão. Ali, a sua vontade não encontrava um conselho para a pesar, nem um pai para a domar.
Pelo menos, até há poucas horas.
— Gaiola dourada. Guardas — murmurou ela, apertando o último parafuso do protótipo com mais força do que o metal exigia.
A chave de fendas rangeu na rosca.
— Da próxima vez, programarei um drone para servir o chá. Talvez assim ele ache a atividade suficientemente tradicional.
Ela não pertencia ao círculo de damas da corte, criadas para os bordados e para a dança. Era engenheira. E este novo projeto não se assemelhava aos seus brinquedos anteriores. O "Mosquito" cabia na palma da mão e servia a curiosidade; esta coisa servia a ira. Angular, com a forma de uma tartaruga predadora e revestido por um compósito negro-mate que absorvia a luz — um drone de combate, a resposta à conversa com o seu pai, proferida na única língua que ela dominava na perfeição.
Se a queriam empurrar para a guerra e para a política, dar-lhes-ia ambas. À sua maneira.
Só que a presença junto à porta blindada arruinava tudo.
Kenjiro Tanaka. O seu novo guarda-costas — ou, como ela preferia chamar-lhe, o novo guarda da sua cela. Mantinha-se imóvel, com as mãos cruzadas atrás das costas, na postura de um homem para quem a espera não é um fardo. A sua farda azul-escura com vivos cinzentos parecia impecável até ao último fio e transformava o fato-macaco manchado dela, bem como o caos criativo em redor, numa acusação silenciosa. As maçãs do rosto altas e a linha reta dos lábios davam ao seu rosto a expressão de alguém que não se lembra do seu último sorriso. Apenas os olhos se moviam — escuros, serenos —, acompanhando cada ação dela com uma atenção desprovida tanto de intrusão como de calor.
A princípio, Rami decidiu ignorá-lo. Mergulhou nos ajustes delicados dos indutores de plasma, mas o silêncio dele possuía densidade. Permanecia na periferia da sua consciência como um tom silencioso e constante, impossível de abafar pela simples força de vontade.
Ela deixou cair a chave. Esta tilintou na bancada e rebolou com estrondo para o chão. Kenjiro não se mexeu. Nem sequer pestanejou.
Rami endireitou-se, caminhou até à consola e, com alguns movimentos bruscos, ligou a música. O rock sintético fez tremer a sala; os graves fizeram vibrar os braços robóticos nas paredes, e os projetores começaram a piscar num caos de cores. Ela lançou-lhe um sorriso de desafio e aguardou, pelo menos, uma sombra de desconforto.
Nada. Ele erguia-se como um pilar de ordem, cravado no centro da desordem dela.
— Muito bem, então! — gritou ela, sobrepondo-se à música. — É hora do teste.
Saltou para a plataforma central com o pulso acelerado. Eis o momento da verdade. O drone aguardava, imóvel e negro. Ela ativou os sistemas principais e sentiu aquela empolgação familiar — aquela que a mantinha acordada enquanto o palácio dormia.
A máquina elevou-se um metro, suspensa sobre os motores antigravidade. Movia-se de forma fluida e calculada, exatamente de acordo com as plantas. Por um instante, o orgulho aqueceu-lhe o peito.
Depois, a estrutura tremeu e dela emergiu um som estridente que rasgou até mesmo a música.
— Ups.
A sua mente mudou instantaneamente para o modo de diagnóstico. Tinha sobrecarregado o indutor; os harmónicos de frequência estavam a sobrepor-se aos campos antigravidade. Precisava de baixar a frequência antes que o sistema entrasse em colapso, mas o tempo para correções tinha-se esgotado.
O drone disparou pelo laboratório numa trajetória imprevisível e caótica. Arrastou um suporte de ferramentas, espalhando-as com um tinido metálico. Rodopiou e passou em voo rasante sobre o satélite de comunicações inacabado, quase arrancando a sua frágil antena. As mãos de Rami trabalhavam freneticamente, mas os comandos perdiam-se no software amotinado.
Kenjiro já não olhava para ela. Os seus olhos estavam cravados nos movimentos da máquina — lendo-os da mesma forma que se lê um adversário. O seu corpo permanecia relaxado e foi exatamente por isso que ela percebeu: ele estava pronto. Relaxado, como a corda de um arco esticada um instante antes do disparo.
— Está tudo sob controlo! — gritou ela, embora a voz a traísse.
Todos os indicadores brilhavam a verde, mas o drone não obedecia a nenhum deles.
E então aconteceu. Com um apito agudo dos sensores sobrecarregados, a máquina capotou no ar e lançou-se diretamente contra Kenjiro.
— Não! — Rami bateu no botão de emergência, mas o comando perdeu-se no caos.
Kenjiro moveu-se. Tão depressa que o olhar dela não conseguiu acompanhá-lo — uma única linha traçada no espaço. A mão encontrou o cabo, revestido a pele e seda; o aço abandonou a bainha com um sibilo quase inaudível e cortou a luz. A lâmina atravessou o drone como se fosse a superfície da água.
A máquina partiu-se em duas. As metades baquearam no chão, a um palmo dos pés dele, enquanto dos circuitos cortados rastejavam faíscas e um fino fio de fumo.
Fez-se silêncio. Até a música tinha parado — ela própria a tinha desligado sem dar por isso.
Rami olhava alternadamente para os destroços fumegantes e para ele. Kenjiro guardava a katana com um movimento treinado, sem qualquer vestígio de tremor, com o rosto intocado pelo sucedido. Sem qualquer pose. Para ele, aquilo não fora uma proeza, mas sim um reflexo.
Ela vira como ele se movera. Não como um homem, mas como uma conclusão lógica, deduzida tão rapidamente que o corpo lá chegara antes da mente.
Depois, a admiração transformou-se em ira.
— Destruíste-o! — A voz dela tremia. Ela aproximou-se dele. — Foram meses de trabalho. Sabes quão complexos são os algoritmos de mira? Quantas noites passei debruçada sobre as matrizes de energia?
Kenjiro virou-se finalmente para ela, de forma lenta e ponderada.
— A máquina ameaçava a sua vida, Princesa. O meu dever é protegê-la. Mesmo das suas próprias criações, se for preciso.
— Ameaça? — Ela encurtou a distância. — É um protótipo. Eu comando o sistema, eu sei como pará-lo. Tu apenas destróis. Não percebes nada de progresso. Para ti, o mundo acaba na ordem, na obediência e na espada, brandida contra coisas que não compreendes.
Por um breve instante, uma sombra rastejou pelo rosto inexpressivo dele — uma ligeira tensão em redor dos lábios. Não era raiva, mas sim algo mais antigo e amargo.
— Compreendo o meu dever — respondeu ele, sem levantar a voz. — E reconheço o perigo. Vi como a máquina se movia. Estava descontrolada. Uma arma sem controlo mata quem a empunha com a mesma frequência com que mata aquele contra quem é apontada.
— Não me cites os códigos — ela riu-se com escárnio, mas o seu coração ainda galopava e as mãos tremiam. — És um guarda, enviado pelo meu pai. Mais um elo dourado na minha corrente. Porque aceitaste, sequer? O que ganha um homem ao guardar uma princesa mimada que despreza as suas leis?
A máscara de pedra rachou. O maxilar dele cerrou-se. Nos seus olhos escuros perpassou uma sombra que se assemelhava a dor. Ele manteve-se em silêncio durante muito tempo — não por desconhecer a resposta, mas como se pesasse quanta da verdade lhe poderia revelar.
— Aceitei porque o Imperador ordenou. A minha lealdade ao trono não tem condições — fez ele uma pausa. — Mas fiquei por outro motivo. Quando o seu pai fala de si, lê-se o medo nos olhos dele. Não pelo império. Por si. Ele teme pela sua vida, Princesa, e esse medo torna-o vulnerável. Imperadores vulneráveis geram guerras.
Medo. O seu pai. O conceito não condizia com o homem que ela conhecia — aquele que gelava conselhos inteiros apenas com o seu silêncio.
— Este é o meu caminho — prosseguiu Kenjiro. — Servir. Proteger. Ser a espada na mão de quem é mais sábio do que eu — a sua voz sumiu-se. — Mesmo quando a espada se quebra. Já aconteceu uma vez.
Ele não ofereceu mais explicações. Não desviou o olhar dela, mas algo dentro dele voltou a fechar-se — como uma porta entreaberta por um instante e logo batida com força. Rami não fez perguntas. Compreendeu apenas que, debaixo daquela armadura, ele escondia uma ferida mais antiga do que a ofensa daquela noite, e que não lha iria mostrar.
A ira dela começou a dissipar-se. Olhou para o drone decepado. O corte era imaculado — uma linha que dividira a complexa máquina em duas metades espelhadas; os cabos óticos tinham sido seccionados de forma limpa, sem rasgos. Obra de um homem que sabia não apenas como destruir, mas também como atingir o seu objetivo com o mínimo de danos.
— Muito bem — a voz dela soava agora mais serena. — Já te percebi. Um homem de princípios. E um mestre no seu ofício. Um mestre bom demais.
Ela inclinou-se e apanhou uma das partes da estrutura. O metal ainda queimava devido às descargas.
— Pelo menos, agora vejo as placas de circuitos com mais clareza — ela sorriu com amargura. — Poupaste-me o trabalho de o desmontar.
Pesou-o com o olhar — já não como um intruso, mas como um desafio técnico.
— Queres ajudar-me a consertá-lo?
Uma das sobrancelhas de Kenjiro ergueu-se — a primeira reação involuntária desde que cruzara a soleira da porta.
— Não percebo nada de tais mecanismos.
— Eu ensino-te — o ímpeto surgiu de repente, surpreendendo-a. — Tens jeito para desmontar. Talvez também tenhas jeito para o inverso. E quero que me digas algo que os cortesãos não ousam: como torná-lo numa arma mais eficaz. A partir da prática, não das plantas.
A última palavra pairou entre os dois. Kenjiro perscrutou-a durante alguns segundos, como se procurasse uma armadilha. Depois assentiu — cautelosamente, como um homem que pisa gelo fino.
— Muito bem.
Rami sorriu. O seu primeiro sorriso sincero em horas. Uma pequena vitória — a primeira fenda na armadura dele.
Ela limpou as ferramentas e pousou a estrutura sobre a bancada larga. O laboratório pareceu encolher. Já não se assemelhava a uma fortaleza defendida contra um inimigo, mas sim a uma oficina.
— Primeiro temos de reajustar o núcleo, para que não sobrecarregue. Olha — ela ligou o candeeiro de precisão, e a luz banhou a máquina cortada. O seu dedo traçou o emaranhado de fios e cristais, e a sua voz encheu-se com o entusiasmo de alguém que pisa o seu próprio território. — Estes elementos são condensadores de plasma. Acumulam energia e libertam-na sob a forma de impulsos controlados. Sob carga súbita, sincronizam-se e entram em ressonância. Foi por isso que o drone perdeu o controlo.
Kenjiro debruçou-se. A distância entre os dois reduziu-se à de trabalho. O seu rosto permaneceu sério, mas nos seus olhos surgiu uma centelha de curiosidade.
— Como se controla o vetor de movimento? — o tom direto dele surpreendeu-a.
— Por aqui — ela apontou para alguns discos prateados. — Giroestabilizadores. Criam campos magnéticos que contrariam os motores antigravidade. Como um leme, mas em três dimensões — ela calou-se e olhou para ele com renovado interesse. — Porque perguntas?
— Numa batalha, a manobrabilidade é crucial. Uma arma poderosa que não encontra o seu alvo é inútil.
Ele pensava como um guerreiro. Isso era-lhe útil.
— Então devo focar-me na manobrabilidade, e não na velocidade?
— Em ambas — ele fez uma pausa. — Mas o controlo é primordial. Uma arma que não se controla por completo vira-se contra os seus.
Ela assentiu. Havia uma lógica tática nas palavras dele, algo que ela frequentemente negligenciava em prol da perfeição técnica.
— Certo. Então começamos pelos estabilizadores.
Os minutos seguintes passaram numa concordância inesperada. Rami explicava com fervor, e Kenjiro fazia perguntas — curtas e precisas, inteiramente focadas na aplicação prática. Como se comportaria a máquina sob pressão. Como reagiria a interferências. Onde ficavam as suas zonas vulneráveis.
— Aqui — ele apontou para o módulo central. — É este o bloco de comando?
— O processador de análise tática. Processa os dados dos sensores e toma decisões sobre as manobras e o ataque.
— O que significa que, se alguém o inutilizar…
— O drone cega. Transforma-se num guerreiro sem comandante.
Os seus olhares cruzaram-se. No dele, notava-se algo próximo da aprovação.
— Interessante.
Apesar da tensão e do protótipo destruído, Rami sentiu a sua guarda interior baixar. Há muito que ninguém ouvia as suas ideias daquela forma. Os cortesãos fingiam compreender. O seu pai ouvia distraidamente. E aquele samurai frio fazia as perguntas certas.
— Kenjiro — pronunciou ela, testando o som do nome dele.
— Sim, Princesa?
— Achas que eu poderia ser uma boa engenheira? Lá fora. Para além dos muros do palácio.
A pergunta surpreendeu a própria Rami. Mas ali estava ela — exposta, aguardando o veredicto dele.
Ele olhou para ela sem pressa. No seu olhar havia avaliação, não cortesia.
— Os seus conhecimentos são impressionantes. Mas não são suficientes. Lá fora existem perigos para os quais o laboratório não a pode preparar.
Foi dolorosamente franco, e foi exatamente por isso que ela acreditou nele.
— É para isso que te tenho a ti, não é? — tentou sorrir. — Para me protegeres do imprevisto.
— Até lá — respondeu ele, sério. Mas na sua voz notava-se um novo tom, o início de um acordo taciturno.
Continuaram num silêncio que já não pesava. A música tinha parado há muito; as máquinas zumbiam num ritmo regular e reconfortante. Pela primeira vez em horas, Rami não se sentia sozinha.
— Sabes — ela limpou as mãos num pano —, talvez este guarda não seja tão mau como eu imaginava.
O canto da boca dele estremeceu — de forma tão subtil que poderia muito bem ser apenas uma sombra. Mas foi o suficiente para devolver a vida ao seu rosto de pedra.
— E eu começo a perceber — disse ele lentamente — que a princesa que me incumbiram de proteger é um enigma mais complexo do que eu esperava.
Olharam-se de novo. Desta vez sem hostilidade ou suspeita. Apenas duas pessoas que começavam a conhecer-se.
Talvez a gaiola não fosse ser assim tão solitária.

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