Excerpt from A Imperatriz

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O centro de comando do "Sol Nascente" há muito perdera o aspeto da ponte de uma nave de guerra. Há semanas, as divisórias tinham sido deitadas abaixo para libertar espaço para estações de trabalho adicionais. Vinte e seis consolas, dispostas em três semicírculos concêntricos, filtravam os fluxos de informação de dezenas de sistemas. Cabos, deixados de fora dos painéis devido à falta de tempo, rastejavam pelo chão como os tendões expostos de um organismo que crescera depressa demais. Clarões azuis e laranja dos projetores holográficos pintavam os rostos dos operadores, enquanto estes guiavam as frotas em oito setores distintos.
Acima de tudo, dominava o mapa tático. Quando Rami o viu pela primeira vez, onze meses antes, este cabia num único ecrã. Agora, preenchia todo o teto — uma projeção tridimensional da galáxia em miniatura. Cada estrela brilhava como um ponto branco, cada mundo habitável era uma pequena esfera, colorida de acordo com a sua afiliação política. Azul para o Império. Vermelho para Koriyama. Cinzento para os sistemas neutros, que aguardavam o desfecho do conflito antes de escolherem um lado.
Três meses antes, o vermelho dominava quase metade do volume. Agora, murchara até se resumir a um punhado de zonas isoladas — aglomerados de sistemas fortificados, comprimidos em torno do núcleo da rebelião. O azul inundava-os persistentemente como uma maré que não reconhece o vento contrário. Mas o vermelho ainda persistia — profundo e ameaçador no seu isolamento.
Rami estava de pé diante do mapa com as palmas das mãos apoiadas na consola de comando. O seu rosto afiara-se; a suavidade infantil desaparecera. As maçãs do rosto sobressaíam, o maxilar mantinha-se imóvel e tenso. Em redor dos seus olhos aninhavam-se linhas finas que nada tinham a ver com a idade — eram cicatrizes da insónia e das responsabilidades assumidas na calada da noite, enquanto os outros dormiam. O seu olhar percorria a projeção metodicamente, como se lesse um livro cujo texto fosse reescrito a cada segundo.
Cada mancha vermelha representava uma equação que aguardava resolução. Cada zona azul — uma promessa que ela tinha de cumprir.
O pai nunca mencionou como é solitário aqui, no centro. Todos esperam respostas. Todos acreditam que eu sei o que estou a fazer.
Os seus dedos apertaram o metal frio da consola e, em seguida, relaxaram abruptamente.
— Comandante.
O Almirante Jin aproximou-se e ativou o holograma pessoal com um movimento brusco do pulso. Um homem alto, de ombros imponentes, mantinha a confiança ponderada de um veterano que passara a vida nos corredores estreitos das naves de guerra. A sua barba ruiva, a ficar grisalha nas pontas, revelava prioridades muito distantes da vaidade. As olheiras escuras tinham-se tornado um traço tão permanente que Rami já nem as registava.
— A recuperação está a superar as estimativas iniciais — relatou ele, desdobrando uma tabela de dados em tons de azul e verde. — Os estaleiros no sistema Hoshi passaram a trabalhar em três turnos. A doca da "Fénix" concluirá a reparação de dois cascos dentro de dias. Os contratorpedeiros da Classe Katana entram em serviço até ao final da semana.
Rami acenou com a cabeça, sem desviar o olhar do mapa estratégico.
— Qual é o estado do corpo de pilotos?
Jin paralisou os dedos sobre o holograma. Todos àquele nível sabiam a verdade, mas dizê-la em voz alta era sempre pesado.
— Nas últimas três batalhas perdemos quarenta e sete por cento dos veteranos. — Ele calou-se por um momento. — Os cadetes da última turma demonstram um moral elevado. Têm reflexos excelentes e uma preparação teórica sólida, mas a sua experiência de combate mede-se em horas.
Ele não concluiu. Rami sabia o resto. Crianças de dezasseis ou dezassete anos — idade para assistir a aulas de navegação na academia, e não para ocupar os cockpits de caças. Os pilotos experientes que deviam ocupar esses lugares já eram apenas nomes na lista que ela guardava na memória.
— E como está o moral deles? — perguntou ela, em voz baixa.
Jin desativou a tabela e cruzou os braços.
— Elevado. Inexplicavelmente elevado após o que aconteceu em Kiryu. — Ele olhou-a diretamente, sem rodeios. — As pessoas acreditam em Vós, Comandante. Falam de Rami, a Invencível. Da princesa que nunca recua.
"Rami, a Invencível". As palavras deixavam um sabor amargo. Se eles soubessem com que frequência ela acordava no escuro, com o pulso acelerado e os nomes dos mortos cravados no interior das suas pálpebras. Kimura. Harada. Noda. O Capitão Yamada com a sua chávena de porcelana. Três mil e quinhentas baixas em Kiryu. Raparigas e rapazes que ela enviara para a batalha porque não existia outra escolha.
— Mas as pessoas estão exaustas — acrescentou Jin, mais baixo. Os seus braços penderam. — Onze meses, Comandante. As famílias sofrem. Os recursos estão a esgotar-se. Até os mundos mais leais já não perguntam "se", mas "quando". Quando é que tudo isto vai acabar?
Rami virou-se para ele. Não havia surpresa nos seus olhos — ela sentira o cansaço muito antes de Jin o colocar em palavras. Via-o no minuto de atraso com que os técnicos rendiam os turnos. Na forma como Sakamoto massajava as têmporas, pensando que estava sozinho. Nas três chávenas de chá que ela própria engolia antes de focar o olhar nos relatórios matinais.
— Em breve, Almirante — respondeu ela. — Mais cedo do que imagina.
Ela aproximou-se da consola de comando e tocou em dois dos sensores. As luzes no centro apagaram-se. O mapa tático desdobrou-se, engolindo o teto, as paredes e o chão — agora os dois encontravam-se entre as estrelas, imersos no coração da galáxia.
— Kenjiro. Akira.
Kenjiro afastou-se dos analistas e caminhou na sua direção. O seu braço esquerdo ainda repousava numa tala. A fratura da batalha de Kiryu calcificara, mas Ishida insistia na imobilização. Ao contrário da maioria dos guerreiros, Kenjiro ouvia os seus médicos. O seu rosto guardava as marcas dos últimos meses — uma cicatriz fina no maxilar e sulcos profundos ao redor dos olhos, mas o seu olhar permanecia o mesmo. Escuro, calmo, tendo passado por fogo suficiente para não se deixar perturbar por nada.
Akira aproximou-se do outro lado. Movia-se lentamente, com a cautela de um homem que ainda estava a reaprender a confiar no seu corpo. Saíra da câmara de estase havia cinco semanas. A regeneração reparara os tecidos, a atividade cerebral fora normalizada, e o Doutor Ishida dera-lhe alta para serviço ligeiro. O seu rosto estava mais magro, as maçãs do rosto sobressaindo agudamente contra a pele pálida. Contudo, as suas mãos estavam firmes, e nos seus olhos surgira aquela profundidade peculiar àqueles que haviam vislumbrado o outro lado.
— Peço a vossa atenção — disse Akira, antecipando-se a Rami. Os seus dedos transferiram dados para o ecrã central. — Analisei as últimas trezentas horas de tráfego de reconhecimento das zonas periféricas de Koriyama. Detetei uma anomalia.
— Espera. Dá-nos primeiro o contexto — interrompeu-o Rami, com um sorriso quase impercetível. — Deixa que todos vejam o quadro geral.
Ela apontou para as intensas zonas vermelhas.
— Akira, explica o que vês.
Ele estudou o mapa com os olhos semicerrados.
— Koriyama comprimiu o seu perímetro — concluiu. — Retirou as suas vanguardas e concentrou o seu poder em três pontos estratégicos. Ashikaga — a sua capital e fortaleza. E aqui — em Takada e Mitsubishi. — Ele marcou os dois sistemas. — Os dados dos sensores confirmam uma transferência maciça de recursos para estes três nodos. Milhares de toneladas de matérias-primas por dia. Estão a fortificar-se a um ritmo acelerado.
— Uma defesa escalonada clássica — interveio Kenjiro. A sua voz era grave e monocórdica. — Três posições, linhas de comunicação curtas, cobertura mútua.
— O seu objetivo é forçar-nos a atacar consecutivamente, até à nossa exaustão total.
— É exatamente isso que ele espera — concluiu Rami. Ela deu um passo para dentro do holograma e a luz das estrelas banhou-lhe os ombros. — Ele espera que lancemos a frota contra as suas fortificações. Que percamos naves, pilotos e tempo, enquanto ele prepara o seu contra-ataque. — Ela olhou para os dois homens. — Mas não lhe vamos dar o que ele deseja.
A sua mão ergueu-se. O seu dedo passou pelos aglomerados escarlates e traçou pequenos pontos cinzentos na periferia dos territórios inimigos — sistemas tão insignificantes que os seus nomes nem constavam no mapa de navegação principal.
A imagem focou-se. Pequenos mundos, ligados por finas linhas logísticas às bases principais de Koriyama. Obscuros. Periféricos. Capilares que alimentavam um órgão vital.
— Aqui — disse Rami, marcando o primeiro ponto. — O sistema Hara. Um estaleiro de segunda categoria. À primeira vista, não tem importância, mas os dados que Akira extraiu do tráfego de reconhecimento indicam o contrário. Fornece peças de substituição para metade da frota de Koriyama. Sem ele, os ciclos de reparação das naves prolongam-se por quase um mês.
O seu dedo moveu-se.
— Shibuya. Um nodo de comunicações. Uma pequena estação com apenas vinte pessoas na tripulação. Contudo, coordena o fluxo de informação entre os três sistemas centrais. Se a destruirmos, Ashikaga, Takada e Mitsubishi perdem a ligação em tempo real. Terão de recorrer a canais de retransmissão atrasados, o que fará desabar a sua coordenação em pelo menos sessenta por cento.
— E aqui — rematou, apontando para o terceiro alvo. — A mina em Yamada. Elementos de terras raras para os núcleos de energia das naves dele.
Jin inclinou-se para a frente. Tinha os braços cruzados, mas agora soltou-os lentamente, acompanhando a lógica do ataque.
— Está a visar a logística. Não no centro, mas na periferia. — Ele coçou a barba por fazer. — Estes são alvos pequenos, Comandante. Assim que ele perceber o que estamos a preparar, irá reforçar a defesa em todo o lado.
— Ele não vai perceber. — Rami virou-se para Akira. — Os códigos que extraíste dos sistemas de Koriyama antes de Kiryu... o acesso secundário ainda está ativo?
Akira contraiu os lábios, enquanto os seus dedos corriam pela consola.
— Não temos o controlo total. Koriyama atualizou os protocolos criptográficos principais com encriptação quântica, mas existem subsistemas de monitorização obsoletos que ainda aceitam os nossos pacotes de informação. — Ele ergueu o olhar. — Será suficiente para desinformação. Posso injetar sinais-fantasma e assinaturas falsas, simulando uma mobilização. Nos sensores dele, parecerá uma projeção massiva de forças.
— Quantos alvos falsos podemos simular em simultâneo?
— Com uma sincronização total com as plataformas de guerra eletrónica... — Akira fez um cálculo rápido. — Vinte. Talvez quinze, se sobrecarregarmos os reatores da "Kage". Parecerá uma ofensiva em grande escala numa dezena de frentes.
Rami olhou para os oficiais reunidos. Ao lado de Jin e Kenjiro estava o Almirante Takeshi — regressado dois dias antes de Kiryu, com o rosto marcado pela exaustão. A seu lado encontrava-se a Capitã Nanako, da Décima Quarta Flotilha de Contratorpedeiros — uma mulher baixa, de ombros largos e com o olhar de quem estava habituada a tomar decisões em segundos.
— Eis o plano — anunciou Rami.
A sua voz manteve-se baixa, mas a sala silenciou imediatamente. Todos sabiam que, quando Rami falava assim, as suas palavras carregavam o peso máximo.
— Akira vai semear o caos nos serviços de informações de Koriyama através de ataques-fantasma em dezenas de locais. O inimigo dispersará as suas forças numa tentativa de defender tudo. Enquanto a sua atenção estiver diluída, nós atacaremos os alvos reais, de forma rápida e implacável.
Ela começou a caminhar em redor do holograma, marcando os setores.
— A Décima Quarta Flotilha encarrega-se de Hara. Capitã Nanako, quero uma incursão rápida. Entram, aniquilam o estaleiro e retiram-se. Tempo máximo no sistema — quarenta minutos. Nem um segundo a mais. O Sétimo Grupo Tático ataca Shibuya. Destroem as infraestruturas de comunicações. A Nona Reserva ataca Yamada.
Nanako assentiu com firmeza.
Com os braços cruzados sobre o peito, Rami traía involuntariamente a sua tensão — o polegar da sua mão esquerda batia de forma acelerada no cotovelo direito.
— E o que farão as nossas forças principais? — perguntou Takeshi.
Ela olhou para o velho almirante. O seu rosto permanecia impenetrável. Takeshi não fazia perguntas por desconhecer as respostas; fazia-o para a ouvir formulá-las perante os restantes.
— Irão reagrupar-se para o objetivo principal.
O holograma transformou-se. Os sistemas periféricos desvaneceram-se, e no centro da projeção restou um único ponto — escarlate, cintilante, rodeado pelos círculos concêntricos de fortificações, campos de minas e plataformas orbitais. Ashikaga. A capital de Koriyama. O coração do seu poder. Um suspiro pesado percorreu a sala, mas Rami ignorou-o.
— Enquanto Koriyama tenta decifrar as nossas manobras na periferia, nós preparamos o golpe decisivo. Cada ação nossa, a partir de agora, é unicamente um passo em direção a esse momento.
O silêncio que se seguiu pertencia a pessoas habituadas a calcular as probabilidades, os perigos e o custo. Os oficiais à sua volta haviam sobrevivido a batalhas suficientes para compreender a magnitude da sua proposta.
Takeshi falou primeiro. A sua voz era lenta, cada palavra — ponderada.
— Vossa Alteza, o plano é audaz. Exige uma sincronização impecável entre unidades dispersas por vários sistemas estelares. Uma única falha na coordenação e toda a operação ruirá.
— É verdade — concordou Rami.
— E Ashikaga — prosseguiu ele — é o ponto mais fortemente fortificado do setor. Plataformas orbitais, campos de minas, frotas defensivas. Mesmo que consigamos a surpresa, o preço...
Ele calou-se. Não foi necessário concluir. Todos sabiam que as perdas seriam medidas pelos números de Kiryu. Ou seriam ainda mais terríveis.
Rami deu um passo na sua direção. Embora fosse uma cabeça mais baixa, a sua estatura física era a última cosa que atraía a atenção na sala.
— Almirante, por quanto mais tempo poderemos sustentar esta guerra?
Takeshi encarou-a. As rugas em redor da sua boca vincaram-se mais profundamente.
— Com as perdas atuais e as taxas de produção — seis meses. Talvez oito, se mobilizarmos totalmente o setor civil. No máximo um ano, antes que os nossos recursos se esgotem em definitivo.
— E quanto tempo poderá Koriyama resistir na defensiva?
A resposta não exigia palavras. Quanto mais o conflito se arrastava, mais invulnerável se tornava o inimigo. As fortificações multiplicavam-se, e a indústria nos seus sistemas centrais funcionava de forma implacável. O tempo era aliado de Koriyama.
— Eu compreendo — assentiu Takeshi.
— Não tenciono enviar os nossos homens para um massacre imprudente — disse Rami. — Em cada nave que enviamos para o fogo, está o filho de alguém. A filha de alguém. Um pai que prometeu voltar. — Ela virou-se para o mapa. — Mas por vezes, a única forma de salvar mais vidas é apostar tudo num momento crítico. Não porque seja seguro, mas porque a alternativa é ruinosa.
Kenjiro mantinha-se de lado, com a mão direita repousada sobre o punho da katana. Ouvia em silêncio. Aquele não era o seu momento, mas sim o dela. Contudo, Rami sentia o seu olhar — inabalável como uma âncora num mar tempestuoso.
— Proponho-vos uma estratégia. Vamos afinar os detalhes em conjunto para garantir a sua eficácia operacional — virou-se ela para os comandantes. — O plano é realista. Não é fácil, nem é certo, mas é um caminho para o fim desta guerra. Um fim verdadeiro. Sem tréguas, sem linhas de demarcação e sem conflitos congelados que voltarão a incendiar-se daqui a uma década. Um fim.
Nanako endireitou-se primeiro.
— A Décima Quarta Flotilha está pronta, Comandante.
— O Sétimo Grupo Tático também — acrescentou outro oficial.
Um a um, declararam a sua prontidão — de forma lacónica, profissional, sem patetismo desnecessário. Profissionais que haviam tomado a sua decisão. Rami valorizava exatamente isso.
Por fim, restou apenas Takeshi. Ele não tirava os olhos da mancha escarlate de Ashikaga. Rami reparou em como os dedos dele, atrás das costas, se fechavam em punho e tornavam a abrir-se. Décadas de experiência sussurravam-lhe sobre os riscos, enquanto a sua intuição lhe dizia que a mulher à sua frente tinha razão.
— Vossa Alteza — murmurou ele. — Isso é uma loucura.
Rami olhou-o diretamente nos olhos.
— Sim.
— Uma loucura majestosa. Mas, provavelmente, é exatamente disso que precisamos agora.
Ele endireitou-se e fez uma vénia — formal, austera, com aquele peso do gesto que dizia mais do que qualquer reconhecimento.
— A Primeira Flotilha está à vossa disposição.

-- 2 --

Nas horas seguintes, o centro de comando transformou a sua fisionomia. O mapa por cima deles atualizava-se numa dinâmica contínua — coordenadas desapareciam e nasciam em novos lugares, as linhas temporais esticavam-se e contraíam-se, e os símbolos azuis e vermelhos reorganizavam as suas posições, até o plano ganhar um contorno nítido.
Três círculos concêntricos formaram-se em redor da projeção tática. No exterior, encontravam-se os oficiais do Estado-Maior e os técnicos, absorvidos em cálculos e na transmissão de ordens por canais encriptados. No meio — os comandantes de frota, cada um concentrado no seu setor. No próprio centro, Rami, Kenjiro, Akira, Jin e Takeshi permaneciam inclinados sobre o holograma como arquitetos sobre uma planta, cuja lógica estava prestes a traçar destinos.
Alguém trouxera chá e chávenas de porcelana. Embora desadequadas naquele ambiente militar, apareciam e desapareciam nos rebordos das consolas. O olhar de Rami deteve-se sobre uma delas, e a lembrança do Capitão Yamada emergiu instantaneamente. Ela baniu aquele sentimento de imediato e forçou a sua mente a regressar ao mapa.
Não agora. Mais tarde. Sempre mais tarde.
Ela mantinha-se imóvel no coração do holograma. Os restantes moviam-se ao seu redor — verificavam os terminais, regressavam com novos dados, discutiam em sussurros. Rami era o núcleo em torno do qual o plano se cristalizava.
— Os prazos temporais — interveio ela, sem levantar os olhos. — Avançamos fase a fase. O que é necessário para cada uma delas?
Akira aproximou-se. O seu rosto parecia mais pálido do que o habitual, e um vinco vertical profundo rasgava-lhe a testa. Desde que saíra de estase, trabalhava sem descanso, e o seu corpo rebelava-se contra aquele ritmo. Os dedos da mão esquerda tremiam ligeiramente quando não tocavam na consola. Rami permaneceu em silêncio. Akira conhecia os seus limites e pediria repouso quando sentisse necessidade. Ou Ishida fá-lo-ia por ele.
— No que diz respeito à guerra eletrónica — começou ele —, posso ativar o tráfego de reconhecimento imediatamente. Sondagens de baixa intensidade, que não acionarão os seus algoritmos de defesa. Um rastreio padrão da periferia. Os homens de Koriyama assumirão que se trata de ruído de fundo.
Ele iniciou uma simulação no holograma. Em redor dos aglomerados vermelhos, irromperam finas linhas azuis — uma teia de sinais sensoriais fantasma, que se adensava gradualmente.
— Após quarenta e oito horas, aumento a intensidade. Adiciono assinaturas de naves isoladas em três setores. Pequenas, insignificantes. Koriyama presumirá tratar-se de missões de reconhecimento e enviará as suas sondas em resposta. — As linhas escureceram e esticaram-se. — No sétimo dia, acrescento mais cinco pontos. No décimo — formações. Depois, simulo a concentração de frotas inteiras. Quando chegar o momento do ataque real, ele estará a observar quinze alvos em simultâneo e nenhum deles será o verdadeiro.
— Isso vai demorar sete dias? — perguntou Rami.
— Sete, para construir o modelo de forma convincente. — Akira olhou para ela, e nos seus olhos ela reconheceu a familiar severidade. — Rami, se eles decifrarem o esquema antes do ataque, perdemos tudo. Não apenas a surpresa. Koriyama perceberá exatamente o que planeamos. E não teremos uma segunda oportunidade.
— Eu sei.
— Queria ter a certeza.
— Eu sei, Akira.
Ela sustentou o olhar dele um pouco mais. Não como comandante, mas como irmã. Entre eles, por um instante, passou a memória da câmara de estase e das cinco semanas em que ela ficara ao seu lado, todas as noites, a falar para um corpo que não respondia.
Akira assentiu secamente e regressou à sua consola.
Kenjiro surgiu silenciosamente do setor de logística. Rami pressentiu a sua presença através do silêncio peculiar que sempre o acompanhava.
— As naves não aguentarão sete dias — declarou ele, assim que ela se virou. Na mão direita, segurava um terminal com colunas de números. O braço esquerdo, imobilizado por uma tala, pendia inerte. — Se as nossas forças principais aguardarem em posições avançadas durante uma semana inteira, vão atrair atenções. Koriyama dispõe de sensores suficientes para detetar qualquer concentração.
— Então, não as concentres — Rami encolheu os os ombros. — Dispersa-as. Isso resolve o problema?
Kenjiro assentiu, como se esperasse exatamente essa resposta. Mudou de página no ecrã.
— Divido a Primeira Frota em quatro grupos. Cada um fará manobras de forma independente em setores adjacentes. Serão abastecidos separadamente por cargueiros civis — ocultando o combustível e as munições nos porões usando falsos códigos de carga. — Ele levantou o olhar. — Cinco rotas fora dos corredores vigiados. Catorze mil toneladas por semana.
— Será suficiente?
— Para uma operação de seis semanas — sim. Com uma distribuição correta dos recursos. — Ele calou-se por um instante. — Ishida vai insistir em reservas médicas a dobrar.
— Dá-lhe o triplo.
Kenjiro aceitou a ordem sem surpresa. Inseriu os dados com um movimento rápido.
— O triplo — repetiu ele, baixinho. Depois, baixou a voz ainda mais: — Estás a preparar-te para o pior.
— Estou a preparar-me para tudo.
Ele não respondeu. Anotou mais algo no bloco, fechou-o e afastou-se em direção aos oficiais de logística.
Rami fixou o olhar no espaço vazio onde ele estivera instantes antes.
— Reservas médicas triplicadas — proferiu ela em voz alta, antes mesmo de se permitir pensar nisso. Nos últimos meses, tornara-se um hábito: formular as decisões antes que a lógica as alcançasse. A lógica seguia sempre a intuição — mais lenta e muito mais tímida.
Por cima dela, o holograma vacilou. O mapa reconfigurou-se — Akira tinha iniciado a primeira simulação de guerra eletrónica em tempo real. Pontos azuis começaram a multiplicar-se à volta dos aglomerados vermelhos, desdobrando-se em enxames indistintos. Os sensores de Koriyama detetá-los-iam como um nevoeiro denso.
Takeshi aproximou-se. Tinha despido o casaco de gala; vestia apenas uma camisa azul-escura com divisas de comandante mal percetíveis. As rugas ao redor dos seus olhos tinham-se aprofundado nas últimas horas. Ele olhou para o setor Ashikaga.
— As plataformas orbitais são trinta e duas — começou ele de imediato. — Os campos de minas bloqueiam os dois vetores principais de aproximação. Dispõem de três frotas em prontidão permanente e mais duas em órbitas de reserva. — Suspirou com cansaço. — As defesas deles superam as de Kiryu em cinquenta por cento.
— E se os atacarmos fora dos dois vetores principais?
Takeshi olhou para ela. Nos seus olhos, brilhou algo que se assemelhava a aprovação. Não ao plano em si, mas à direção do seu raciocínio.
— O terceiro vetor possível passa pela cintura hipergravitacional. Ninguém ataca por ali, porque os gradientes de gravidade despedaçam os cascos. — Ele ativou o seu ecrã e começou a traçar. — Mas, se tivermos as trajetórias exatas e pilotos que dominem as suas máquinas na perfeição, podemos atravessar. Estimo as perdas previstas durante a própria travessia entre os cinco e os sete por cento. E isso ainda antes de entrar em combate.
— Qual é a alternativa?
— Pelos dois vetores principais. As baixas durante a rutura situar-se-ão entre vinte e trinta por cento.
Rami virou-se para o holograma. A cintura hipergravitacional estava representada como uma faixa escura e difusa nos limites do sistema Ashikaga — uma zona de contínuo espaço-tempo deformado, onde a poderosa atração esmagava qualquer nave mal posicionada. O seu pai falara-lhe sobre isso uma vez, quando ela ainda era criança — histórias de pilotos suicidas que por lá tinham passado durante a Primeira Guerra Sistémica.
Ninguém ataca através da cintura. É exatamente por isso que o inimigo não o espera.
— Preparem as trajetórias — ordenou ela. — Quero-as até amanhã de manhã. E uma lista dos pilotos que, na vossa opinião, serão capazes de o conseguir.
— A lista será curta — observou Takeshi.
— Eu sei.
Ele assentiu e afastou-se.
As horas sobrepunham-se umas às outras. Rami não se movia do centro do mapa. Ao seu redor, o centro de comando respirava no seu próprio ritmo — as equipas revezavam-se silenciosamente, chávenas de café e chá apareciam e desapareciam, e as vozes fundiam-se num murmúrio baixo e constante. O local operava com a precisão fria de um mecanismo automatizado. O holograma alterava-se com cada decisão — novas rotas emergiam, as antigas desvaneciam-se, e as linhas temporais contraíam-se como dedos, fechando-se num punho.
Ela observava o plano a materializar-se. Não o criara sozinha — Akira desenhara a guerra eletrónica como uma teia de desinformação, Kenjiro dividira a logística em cinco fluxos invisíveis, Takeshi indicara o caminho através da cintura, e Nanako e os seus oficiais planearam o ataque a Hara ao milésimo de segundo. A função de Rami era apenas uma — ver como todas aquelas partes se interligavam num todo. E assumir a responsabilidade. Ninguém a tinha ensinado a suportar semelhante fardo.
Aprendia em andamento.
Quando os detalhes foram finalizados e as últimas objeções esgotadas, ela voltou-se para Jin. O almirante não se sentara uma única vez. O seu rosto estava acinzentado de exaustão, mas o seu olhar mantinha-se afiado.
— Quanto tempo é necessário para uma mobilização total?
Jin passou a mão pela barba rala e fez um cálculo rápido.
— Setenta e duas horas, no mínimo. Noventa e seis, para termos a certeza.
— Tem setenta.
Jin não objetou. Não disse que era impossível, nem solicitou recursos adicionais. Inseriu o número no seu terminal pessoal com um movimento brusco, virou-se e dirigiu-se aos oficiais de comunicações.
Rami ficou sozinha no centro do mapa.
Por cima dela, a galáxia prosseguia a sua rotação lenta — estrelas, mundos e frotas, movendo-se por trajetórias predestinadas. Setenta horas até ao início da manobra de diversão eletrónica. Treze dias até aos primeiros ataques na periferia de Koriyama. Depois disso — a cintura hipergravitacional. A seguir — Ashikaga.
E, por fim — o desenlace. De uma maneira ou de outra.
Ela apertou o rebordo da consola. As suas mãos embranqueceram por um instante, antes de as soltar.
— Comandante — soou uma voz serena atrás de si.
Kenjiro. Tinha regressado sem ser notado. Na mão direita, segurava uma pequena chávena de porcelana com chá. Estendeu-lha silenciosamente.
Ela pegou na chávena. O chá estava quente, e o vapor subia num fio ténue, dissolvendo-se na luz azulada do holograma.
— Obrigada — disse ela.
Kenjiro não respondeu. Permaneceu a seu lado, de olhar fixo no ponto vermelho de Ashikaga. Ficaram assim durante muito tempo — os dois, a chávena, o mapa acima deles e o silêncio, que não precisava de explicações.

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