CAPÍTULO 1
Ele não estava disposto a confiar em ninguém, e a escuridão já não o amedrontava. Habituara-se a ela como a uma segunda pele. Os arbustos e a sua difusa penumbra à luz da lua já não o assustavam como no princípio, quando cada sussurro das folhas o fazia estremecer e cerrar os punhos. Aprendera a decifrar a linguagem da noite. Aprendera a encontrar os trilhos animais mais ténues — meros sulcos na relva, por onde os veados desciam até à água, ou os caminhos pisados entre as árvores, onde os ursos deixavam marcas de garras na casca. Quando encontrava pegadas humanas, pareciam-lhe autoestradas — largas, desimpedidas, quase gritando a presença da civilização.
Evitava as estradas de carroças sulcadas e a rara sensação de presença humana. Quando o vento trazia o aroma de fumo ou o som de um objeto metálico a bater na pedra, ele desviava-se para longe, acrescentando horas à sua jornada. Caminhava sem um destino definido, mas seguia uma direção inabalável — aquela que o afastava do seu irmão. Traído ou abandonado — que diferença fazia, se o resultado para ele era o mesmo? As palavras da sua última conversa ainda ecoavam nos seus ouvidos como uma maldição. Ele só precisava de se distanciar e não permitir ser capturado pelos caçadores enviados pelo seu irmão mais velho. Conhecia Ejji suficientemente bem para ter a certeza de que o seu orgulho não deixaria um tal desafio sem resposta.
Atravessou vários riachos de montanha, cujas águas geladas o faziam estremecer. Chegou mesmo a nadar cerca de um quilómetro e meio nas águas de um rio, cujo leito pedregoso o transportou através do desfiladeiro rochoso, que se tornara intransponível para os seus pés. A corrente parecia forte, mas não o suficiente para ser um perigo. Não tinha grande escolha. Precisava de apagar os seus rastos, e a água era a sua melhor aliada para tal. O frio trespassava-lhe o corpo até aos ossos, e a corrente embatia-o contra as rochas subaquáticas, mas ele prosseguiu teimosamente, mergulhando a cabeça sempre que ouvia um som que não pertencia ao rio.
Saiu das águas espumantes pouco antes de estas se despenharem com estrondo no abismo de uma cascata, semeada de rochas afiadas. O seu corpo resistente escalou com facilidade a rocha que dividia o fluxo de água em dois. Os dedos encontravam apoio nas mais ínfimas fendas, e as plantas dos pés agarravam-se a irregularidades pouco maiores que nozes. Do seu cume, conseguiu dar um salto de quase dois metros. O ar assobiava-lhe nos ouvidos e o chão aproximava-se a uma velocidade assustadora. Aterrou, rolando o corpo sobre o musgo macio que crescia sob os fetos da margem esquerda. O lado correto — mais longe dos perseguidores.
Não sabia se eles existiam, mas tinha a certeza de que seriam enviados no seu encalço. Tão certo como o nascer do sol. O seu irmão não o deixaria escapar. Já não! Não depois de ele ter questionado as suas capacidades de liderança e o futuro da herança do pai perante todo o conselho. As palavras que proferira naquela maldita noite pesavam-lhe agora como pedras no estômago. Ejji não perdoaria tal humilhação.
Começava a clarear. A penumbra da noite lunar dava lugar aos primeiros matizes rosados do amanhecer, e isso apressou-o na busca por um local adequado que lhe oferecesse proteção durante o dia. A luz do dia transformava qualquer homem num alvo, e ele não podia permitir ser avistado.
Ao examinar as rochas à sua frente à procura de um abrigo ou nicho, o seu olhar deteve-se numa entrada quase impercetível de uma pequena gruta, ligeiramente mais escura, situada num local de difícil acesso, alto no maciço rochoso. A entrada não parecia maior que o alforge de um camponês, mas para ele significava segurança. Não hesitou. Os dedos exploraram irregularidades e fissuras na pedra que lhe permitiram escalar a parede quase vertical. Cada passo era cuidadosamente calculado, cada movimento planeado. Um gesto em falso e a queda seria a última coisa de que se lembraria.
A caminho da gruta, o jovem pisou um caminho escavado no precipício rochoso. Embora fosse suficientemente largo para uma carroça, o caminho não era visível de baixo, do rio. Astutamente construído, como se concebido especificamente para ocultar o movimento de olhares curiosos. Parou por um momento, sentindo o pulso acelerar. Questionou-se se deveria seguir pelo caminho, mas rejeitou a ideia tão rapidamente quanto surgira. O sol elevara-se acima dos cumes das montanhas, banhando as encostas numa luz dourada, e ele percebeu a sua vulnerabilidade. Qualquer pessoa que olhasse para cima poderia avistá-lo facilmente no caminho exposto. Ainda não se sentia seguro para viajar durante o dia. Precisava de se esconder e descansar.
A gruta revelou-se pouco profunda. Apenas alguns passos de chão de pedra nivelado, e o teto e as paredes estreitavam-se na sua direção. O ar estava parado e frio, transportando um odor a humidade e a algo mais — algo orgânico e há muito decomposto. No chão, encontrou restos de galhos entrelaçados, semelhantes a um ninho. Evidentemente, outrora lar de uma ave que há o abandonara, e a julgar pelo seu tamanho e por alguns ossos partidos espalhados, decidiu que a ave fora grande e predatória. Talvez uma águia ou algo maior. Não conhecia as aves destas terras.
Recostou-se, fatigado, junto ao ninho e fechou os olhos. Os seus músculos relaxaram pela primeira vez em horas, mas a sua mente permaneceu alerta. Esperava-o mais um pesadelo e, sobretudo, a voz que não cessava de lhe falar e suplicar. A voz do homem que matara para escapar.
CAPÍTULO 2
— Já lhe disse que este cão está velho de mais. Não vai aguentar.
Noel puxou as rédeas do seu cavalo e lançou mais um olhar descontente para a enorme silhueta peluda que se movia trinta metros à frente da coluna. Ex-guarda de caravana, veterano de inúmeras batalhas e atual ajudante de ordens do general, estava habituado a que as suas palavras fossem ouvidas e as suas decisões acatadas. Os últimos anos da sua brilhante carreira militar haviam-no transformado profundamente. A sua postura adquiriu a dignidade de um guerreiro endurecido, tão típica dos veteranos – ombros largos, costas erectas, olhar atento. Sob o peso das responsabilidades, o seu carácter tinha-se suavizado e acalmado. As dezenas de batalhas e os cargos de comando forjaram-lhe o carácter e tornaram-no um companheiro digno do general. No entanto, no seu olhar ainda se insinuavam lampejos daquela velha travessura, e a sua astúcia se tornara proverbial entre os soldados.
As suas palavras, no entanto, pareceram ter caído em ouvidos surdos. O homem a quem eram, evidentemente, dirigidas não reagiu de forma alguma.
De costas erectas, ligeiramente – quase imperceptivelmente – inclinado para a frente, ele apertava com a mão esquerda as rédeas do ginete negro. O seu olhar carregado estava fixo no enorme cão acocorado trinta metros à sua frente. Os seus olhos azuis cintilaram por debaixo da mecha despenteada de cabelo que se soltara da amarra de couro que prendia a sua longa cauda sob o manto azul. O cabo de uma espada longa projetava-se sobre o seu ombro esquerdo, e outro similar aparecia à direita, junto à sua cintura. Sobre ele repousava negligentemente uma palma forte – endurecida por batalhas e pelo tempo, com cicatrizes brancas nos nós dos dedos.
O Ceifado sentiu os músculos das suas coxas tensionarem-se instintivamente. Com um movimento suave, incentivou o cavalo a acelerar o passo e a colocar-se de lado diante do grupo de cavaleiros que o seguia. Os seus olhos não perdiam o cão de vista, à espera da sua reação. Cada gesto do animal poderia ser decisivo para a vida ou morte de todo o grupo.
Lá à frente, mesmo antes de uma ligeira curva no caminho, sentado sobre as patas traseiras, com as orelhas erectas, o enorme Devorador de Homens com o nome surpreendentemente meigo de Rosko cheirava o ar atentamente.
O animal afastara-se, ultrapassando a coluna de cavaleiros, mas não o suficiente para o perderem de vista. O caminho estreito, talhado na rocha, não lhe permitia desviar-se para lado nenhum. O estrondo do rio lá em baixo, à direita, abafava quase todos os sons – mal se percebia o ritmo dos cascos ferrados sobre a pedra. Ainda assim, o focinho do cão captava os rastos deixados por várias criaturas vivas no caminho pedregoso, e aqueles trazidos pelo ar pintavam-lhe o quadro invisível da vida exuberante ao redor.
Há um minuto, Rosko, guiado pelo doce aroma de uma cabra montesa, aproximara-se da curva. Foi então que parara subitamente. Uma onda de aromas vinda das rochas acima do caminho atingiu-o. O seu focinho reconheceu o cheiro de um velho ninho de pássaros, no qual se detetava também uma mistura atípica de especiarias para a área, bem como um aroma familiar de ser humano.
Uma memória distante despertou nele, provocada pelo elemento humano no aroma. Isso levou-o a sentar sobre as patas traseiras, como um vigilante atento, pronto a saltar ao primeiro sinal de perigo. Abanou a cauda quase alegremente, levantando uma pequena nuvem de poeira do caminho pedregoso. Depois, porém, detetou diferenças. Bastante insignificantes, mas definitivamente diferenças.
Desapontado, o Devorador de Homens sacudiu a enorme cabeça, libertando-se das memórias. Cheirou novamente, erguendo o focinho e expondo-o à mais ligeira aragem. Não se enganava. O aroma permanecia, assim como as diferenças, mas ele não farejava perigo. Virou a cabeça para olhar para trás, para os cavaleiros que lentamente se aproximavam dele.
O Forte sentira-o. Observava-o desde a sela – os seus olhos azuis penetrantes, sempre prontos a captar uma mudança no comportamento do animal. Ele notara a mudança e a cauda, que abanara ligeiramente. Bom! O aviso fora recebido. Não havia perigo!
O Devorador de Homens pôs-se de pé, com um senso de dever cumprido. Pousou com confiança sobre as suas quatro patas enormes e continuou lentamente para a frente, passando pela fonte das memórias. O amigo havia de aparecer, mais cedo ou mais tarde!
— Velho ou não...
Assim que chegou ao local onde o cão parara, o homem carregado que cavalgava no início da coluna ergueu o punho direito. O movimento foi brusco, decidido. Os cavaleiros que o seguiam pararam imediatamente – o som dos cascos ferrados cessou quase em uníssono sobre a pedra.
O Ceifado examinou o local cuidadosamente. Os seus olhos percorreram cada detalhe da parede rochosa à esquerda até ao abismo à direita. Embora vislumbresse o contorno de uma entrada de uma caverna lá em cima na rocha, o seu olhar passou por cima dela sem se deter. O velho truque ditava: nunca mostres que detetaste uma potencial emboscada. Para intensificar a impressão de que não notava nada de suspeito, até desviou a sua atenção para baixo, para o abismo onde o rio de montanha rugia.
Confiava no cão. O julgamento do animal salvara-o dezenas de vezes ao longo dos anos. Desde aquela primeira batalha nos Portões de Ferro até ao último combate perto dos Picos Rochosos – Rosko nunca se enganara. O cão deixara claro, sem ambiguidades, que o que quer que estivesse lá em cima não representava um perigo imediato. Mas ele tomou nota, ainda que invisivelmente para os outros, do aviso de que não estavam sós no caminho.
— ...o Rosko está comigo.
Noel abanou a cabeça pensativamente. Os seus lábios contraíram-se numa linha fina de desagrado, mas não encontrou palavras para contradizer o seu general. Internamente, estava convencido de que o terrível animal de estimação peludo do general seria apenas um obstáculo durante esta viagem. Velho demais, lento demais, apegado demais a memórias de tempos passados. Parado ao lado do próprio cavalo do general, permitiu-se a liberdade de se inclinar ligeiramente para o cavaleiro. A sua voz soou baixa, cautelosa:
— O cão é seu, Ceifado. O senhor decide.
Ouvindo a sua antiga alcunha, o General suavizou o olhar. As rugas na sua testa alisaram-se ligeiramente, e os lábios curvaram-se num leve sorriso – o primeiro em muitos dias. Há muito que notara que Noel só assim se dirigia a ele quando tinha de admitir a sua própria impotência. O seu ajudante de ordens nunca conseguira habituar-se à presença do Devorador de Homens, apesar dos anos passados ao seu lado.
— Não é meu, Noel. É do Nik. Eu apenas usufruo temporariamente dos seus serviços e da sua amizade. Só até o Nik aparecer de novo.
As palavras soaram baixas, quase pensativas. O Ceifado olhou para os picos montanhosos distantes, escondidos atrás da próxima curva. Algures lá, no mundo além do conhecido, o seu velho amigo poderia estar a lutar contra demónios dos quais ele nem sequer suspeitava.
— Parece que não consegue aceitar a ideia de que não o vamos voltar a ver?
Noel estava pasmado por o Ceifado ainda esperar ver o amigo. No seu voz insinuou-se uma nota de irritação, misturada com preocupação pela saúde mental do seu comandante.
— Passaram-se apenas onze anos, Noel. Esqueceu-se de que para ele isso são apenas uns... treze, catorze meses?
— Apesar disso...
— Vou dar-lhe mais algum tempo, antes de desistir dele. Espero que ele esteja lá com a Kira e que ambos sejam felizes.
O sorriso do Ceifado tornou-se mais caloroso ao mencionar a mulher que o seu amigo amara. Mesmo agora, tantos anos depois, o nome dela trazia dor e esperança em partes iguais.
— Mas ela morreu há tanto tempo! Não percebo uma palavra do que está a dizer!
Noel abanou a cabeça em desespero. Nunca compreendera a história completa relacionada com Os Eternos – aquelas criaturas que viviam por regras incompreensíveis para as pessoas comuns, apesar das longas explicações em que o Ceifado se envolvia quando a nostalgia daqueles dias o dominava.
— Oh, Noel!
O General suspirou, exasperado. A sua voz adquiriu aquela nota paciente com que explicava movimentos táticos complexos aos oficiais mais jovens.
— Não me ouviu. Ela morreu Aqui e não ficou. O que significa que está Lá. Mas como a Mira diz: "És um guarda estúpido e assim vais permanecer."
Noel estremeceu ao ouvir o nome da assassina. Conseguiu esboçar um sorriso perturbado, mas os seus olhos evitaram o olhar do general.
Fez uma pausa breve, o suficiente para demonstrar os seus sentimentos, depois continuou num tom cauteloso:
— E quando foi a última vez que viu a sua amada Sombra?
O Ceifado riu-se. A sua voz, nesses raros momentos, libertava-se da nova imagem do seu dono e os seus velhos conhecidos viam novamente aquele jovem e despreocupado guarda de outrora. A sua risada soou profunda, genuína.
— Foi recentemente. Há três dias, mais ou menos.
Noel olhou para ele, stressado. Os seus olhos arregalaram-se.
— Ela esteve aqui?! Espera aí... onde estávamos então... Na estalagem. — Bateu com a mão na coxa. — Foi? Quando estávamos na estalagem? E eu não reparei!
— Claro que não reparaste. Ela é uma sombra! Queres que toque um tambor quando vem? Talvez trombetas! Ha!
O Ceifado riu-se novamente, mas desta vez a risada soou mais cortante, mais fria. O velho general estava a reassumir o controlo sobre o jovem guarda.
— Há muitas coisas que não compreendes, ajudante!
E com essas palavras, o Ceifado desapareceu novamente, juntamente com o sorriso. Agora, no cavalo ao lado de Noel, cavalgava o respeitável e estimado general – o homem que liderara exércitos para a vitória e cujo nome inspirava respeito em vários reinos.
— Sim, meu General.
O ajudante de ordens percebeu que a breve janela para o passado se fechara. A sua voz voltou ao tom estabelecido, formal e distante. Ergueu a mão para os cavaleiros que os acompanhavam:
— Avante!
A coluna moveu-se lentamente atrás de Rosko, que desaparecia atrás da curva. Os cascos dos cavalos retomaram o ritmo insistente sobre as pedras, e o vento montanhoso trouxe muito levemente – quase impercetivelmente – um aroma de incerteza vindo da curva à frente.