Prólogo
Há mais de meia hora que os olhos da criança não se desviavam da brancura da folha de papel colocada à sua frente. Não havia mudança na expressão facial, nenhum movimento nos músculos do rosto. A criança havia entrado em um estado de concentração extrema.
O olhar percorria suavemente as bordas da folha, detendo-se por um minuto no centro, para então seguir novamente o caminho aparentemente infinito ao longo da margem. O corpo aparentemente relaxado da criança não se mexia. Ela estava sentada em uma pequena cadeira, diante de uma mesinha, em uma sala lindamente decorada com desenhos feitos por crianças.
No chão, espalhados de forma desordenada, havia brinquedos de todos os tipos, abandonados por crianças que, aparentemente, haviam saído rapidamente para algum lugar.
A criança estava sozinha na sala, mas atrás da tela da câmera que a monitorava, em algum lugar distante, em outro prédio, um homem na casa dos trinta não tirou os olhos dela.
"Como sempre, toda vez é a mesma coisa. Apenas os olhos!" — pensou o homem, esfregando os olhos cansados. Na sala, longe dele, uma música suave continuava a fluir pelos ouvidos da criança, mas a genialidade de Mozart não a tocava. Pelo menos, nada transparecia.
Quer fosse intencional ou não, a ideia de que Mozart sofria do mesmo distúrbio de desenvolvimento social, afetando o desenvolvimento do cérebro e, consequentemente, o comportamento, atingiu o homem na sala distante. Isso o ajudou a se libertar da contemplação que o dominava.
Seus pensamentos, claramente provocados pela música e pela criança sentada, saltaram inconscientemente para os anos de faculdade. Memórias de uma palestra há muito esquecida emergiram e se coloriram como se tivessem sido vividas recentemente.
O auditório da universidade, os assentos dispostos em anfiteatro e o professor. Um de seus favoritos, que, com sua típica indiferença, explicava como Mozart tinha expressões faciais repetitivas. Ele contava como isso assustava as pessoas ao redor, que o grande compositor precisava de movimento constante das mãos e dos pés. Sua audição também era hipersensível.
O professor afirmava que, ao analisar a correspondência entre o gênio compositor e sua família, os historiadores descobriram que, quando ele ficava entediado, Mozart começava a pular sobre mesas e cadeiras, emitindo sons estranhos e fazendo piruetas.
"Ah, Professor, Professor, se ao menos Slav fosse assim, com pelo menos algumas dessas manifestações. Dessa forma, eu teria alguma maneira de me comunicar com ele. Agora, a menos que eu invente algo novo, só posso observá-lo."
Para ele, era mais do que claro que os autistas vivem em seu próprio mundo. O diagnóstico que ele havia dado a Slav Weber há um ano se confirmava a cada dia que passava. Distúrbio generalizado do desenvolvimento, do chamado espectro autista.
No pequeno Slav, também eram observados sintomas clínicos semelhantes ao autismo, que se enquadravam na base da Síndrome de Asperger — outro distúrbio do espectro autista.
Em sua tentativa de alcançar o garoto, ele havia recomendado ao seu tutor que o inscrevesse em um grupo de trabalho com crianças autistas. Isso havia acontecido um ano atrás. Desde então, o pequeno grupo de cinco crianças havia crescido e, agora, sob sua supervisão, havia quinze meninos com idades entre 6 e 12 anos.
Havia também outro grupo que se reunia na parte central da cidade, em uma ala de um prédio gentilmente cedida pela prefeitura. Ali, vinham adolescentes. O grupo era frequentado por cerca de dez meninos e meninas com idades entre 14 e 18 anos.
Uma idade fundamentalmente difícil, mas não para eles. Quietos e fechados em si mesmos, cada um com sua própria genialidade escondida sob camadas de distanciamento.
Doze anos de trabalho com crianças e seu diagnóstico o haviam ensinado a não esquecer três palavras: paciência, paciência, paciência.
Ele tentava ver o autismo nas crianças mais como uma habilidade diferente do que como uma deficiência. Em suas conversas com dezenas de pais preocupados e sofridos, ele os ensinava a superar as deficiências que percebiam e a ver os dons que o autismo concedia a seus filhos.
Uma tarefa difícil, mas, dessa forma, ele acreditava estar inspirando alguma confiança ou até mesmo força nas pessoas.
CAPÍTULO 1
"... e era hora de relaxar, mas ele permaneceu ali, espreitando na escuridão..."
A educadora entrou no quarto de Slav. O homem na sala distante não precisava mais observar Slav e desligou o monitor. Sentia-se cansado. Esticou os membros dormentes e, com um movimento suave, levantou-se da cadeira. O dia o havia desgastado, e já era noite.
Organizou, tanto quanto pôde, o caos em sua mesa e, com a firme convicção de que era exatamente isso que precisava, dirigiu-se ao pub que frequentava regularmente, na esquina à direita da entrada da clínica. O bairro envelhecido, onde havia alugado seu escritório um ano antes, mantinha-se afastado da tensão reluzente da cidade acelerada. Ele gostava disso.
Embora seus pacientes não tivessem recursos suficientes para lhe proporcionar uma vida luxuosa, condizente com um psiquiatra renomado, o que ele tinha era suficiente. Sua conta bancária enchia-se graças às editoras solícitas, que competiam pelos direitos de cada novo livro que ele publicava. Os cursos que ministrava por todo o país não o impediam de trabalhar com as crianças. Essa era sua paixão, seu dever, ao qual se dedicara por completo.
Sua irmã sofria de um distúrbio de consciência. O amor por ela não diminuiu com os anos, embora ela já não estivesse mais viva. Ela morreu ainda jovem em um acidente banal. Um micro-ônibus carregado de mercadorias a atropelou ao dar ré. Nem ela, nem o motorista entenderam o que aconteceu.
Ela estava agachada atrás do micro-ônibus, contando as pérolas que haviam caído no asfalto da pequena rua sem saída, após seu colar se romper. Ele havia dado a ela aquele colar de pérolas azuis. Para ela, sua irmã, que adorava contar. Ela contava tudo e não parava até adormecer.
Ela ficara tão feliz quando ele colocou o colar em seu pescoço delicado. Até sorrira. Naquele momento, por uma fração de segundo, ela levantou o olhar e olhou nos seus olhos. Algo tão raro que a memória de seus olhos azuis intensos e do leve sorriso ficou gravada profundamente em sua consciência.
Ele adorava aquele pub. O revestimento de madeira dava um ar de autenticidade. O cheiro de bourbon e tabaco, combinado com a música irlandesa suave, o relaxava instantaneamente. O barman, um sujeito de barba densa, muitas tatuagens e músculos que ultrapassavam os cinquenta anos, levantou-se e, sem esperar pelo pedido, serviu-lhe três dedos de uísque em um copo fundo.
Claro, ele sabia o que ele beberia e como ele o beberia. Todos os clientes regulares recebiam a atenção que mereciam, e o barman, como um respeitável dono de bar de família, conhecia seu ofício.
— Boa noite, Professor! — Deslizou o copo suavemente e colocou ao lado uma pequena tigela de castanhas. Lá, todos se dirigiam a ele pelo seu título. Sim, ele era professor na Universidade de Columbia, mas isso só se espalhou por ali depois que ele deu uma entrevista na televisão local.
Até então, ele era apenas Nick. Depois disso, não conseguiu recuperar o simples "Nick". Seu status mudou, foi atualizado para "Professor". Ele até assinou um guardanapo que o dono, o próprio barman, colou atrás do balcão. Lá, cuidadosamente afixados, estavam dezenas de outros autógrafos de clientes que, de uma forma ou de outra, haviam conquistado a honra.
— Olá, Norman, hoje está bem vazio.
O barman lançou um olhar preguiçoso pela sala, parando por um momento no quadro de dardos, onde Mac e Rudy, já bêbados, parte do grupo regular, faziam estragos. Piscou para um homem mais velho sentado em um banco no fundo, usando um chapéu de cowboy, e cuspiu em um balde atrás do balcão.
— Hmm, tem um show no estádio. Eles vão aparecer mais tarde para beber mais.
— Entendi. Bem, vou tomar um drink em paz. — Nick apoiou os cotovelos no balcão, segurando o copo com uma mão.
— Você parece acabado. — Observou o barman, examinando-o criticamente. — São seus pequenos pacientes ou alguma viúva chata com problemas para aceitar que o marido foi um idiota por morrer tão jovem?
— Pela centésima vez, eu não sou psicanalista, eu não...
— Eu sei, estou brincando, cara!
Norman pegou a garrafa da qual havia servido e encheu seu próprio copo.
— Escute, Professor, um cara bem vestido perguntou por você. Parecia distraído, mas decente, e eu disse onde fica seu escritório. Ele perguntou se você vinha aqui e eu, o idiota, disse que você aparecia de vez em quando.
— Quando foi isso? — Não que ele se importasse. Muitas vezes, pessoas com problemas o procuravam, achando que, como ele escrevia sobre psiquiatria, poderia analisá-las e ajudá-las a resolver seus problemas. As pessoas raramente distinguiam entre psiquiatria e psicologia, muito menos psicanálise.
— Ah... hoje, uma ou duas horas atrás. Ele ficou por aqui, tomou uma Coca e depois saiu andando pela rua.
— Problema dele, ele não foi ao escritório.
— Tá bom, vou deixar você curtir seu drink. Se quiser mais, é só pedir. — Ele se virou e fixou os olhos na televisão do outro lado do bar. Um jogo de beisebol estava passando.
\ \ \*
Uma hora depois, mais três drinques e uma partida de dardos com o ex-polonês Rudy, o professor pagou a conta e, decidido a ir para casa, acenou vagamente com a mão e saiu.
Estava escuro. Ao longe, o ritmo surdo da música e o uivar de milhares de vozes pulsavam suavemente. A rua estava vazia, sem movimento, e as folhas das poucas árvores sobreviventes no meio do concreto balançavam preguiçosamente com a brisa leve.
Uma primavera tardia incrível. Até o ar, impregnado com o perfume do jasmim que ainda florescia no jardim da igreja católica próxima, acariciava seu rosto com frescor.
Que maravilha, pensou ele mais uma vez. Adoro a primavera. Tenho mais duas semanas antes de começar outra rodada de palestras. Não vou viajar. Vou ficar na cidade.
Um mês antes, ele conseguira encontrar um investidor que o ajudou a realizar o sonho de ter um sistema de vigilância por vídeo nos centros de trabalho com crianças. Ele podia se conectar pela internet e observá-las, comunicar-se com elas, com os pais e com a equipe. Era inestimável.
A novidade permitiu que ele viajasse mais, fizesse novos contatos e ajudasse mais crianças. O sistema tinha a capacidade de gravar, e o software conveniente permitia que ele acessasse os arquivos de uma criança específica em um período específico. Ele brincara bastante com isso. Fora de grande ajuda em suas pesquisas.
Um barulho estrondoso rompeu a quietude. Em sua mente, invadiu o som cortante de um miado agressivo e o ruído de uma luta, com arranhões e estalos. Ele levantou o olhar abruptamente, seguindo o som, e viu dois gatos lutando furiosamente na beirada do telhado acima dele.
O prédio antigo ficava ao lado do pub, e seu telhado íngreme clamava por uma reforma há anos. A briga dos animais provocou uma cascata de lixo acumulado nas calhas. Nick tentou, em vão, se proteger, mas já era tarde.
O lixo foi seguido por telhas que caíram. Elas o atingiram com um baque surdo. O impacto o derrubou instantaneamente.
Ele estava estendido no chão, em uma posição estranhamente contorcida de lado. O sangue escorria por sua testa, acumulava-se na cavidade ocular e transbordava para a calçada.
Que absurdo...! Foi o último pensamento que preencheu sua consciência, um instante antes de ele desmaiar.
CAPÍTULO 2
"... e eu mesmo, endurecido e infeliz, solitário e assustado..."
— Levanta, porco. Levanta, filho da mãe! Levanta, senão vou passar por cima de você.
O significado das palavras penetrou lentamente em sua consciência, como uma esponja bem encharcada. Elas ecoavam em seu cérebro entorpecido, abafando a dor rítmica que tomava sua cabeça. Ele não sentia seus membros, e o frio atravessava todo o seu corpo. Algo pegajoso e úmido o puxava para baixo, em direção ao chão.
— Levanta, caramba! Sai do meu caminho!
Ele tentou abrir os olhos. As pálpebras não obedeceram. Algo pesado e grudento havia se instalado sobre elas. Tentou mover a mão. Conseguiu. Concentrou toda a sua vontade para fazer com que os cotovelos o levantassem do chão e, lentamente, com um esforço terrivelmente doloroso, ele se virou. Deitou-se de costas. Passou a mão pelo rosto para remover o peso que o cobria. Nuvens baixas e cinzentas foram a primeira coisa que viu, seguida pela cabeça de um boi igualmente cinzento, curvada sobre ele.
— Vamos, homem, sai do caminho.
Ele estava deitado em um sulco profundo cheio de lama pegajosa, diante de uma carroça puxada por dois bois, coberta por um pano grosso e sujo. Um homem muito irritado estava em pé na carroça, olhando-o com raiva.
— Parei! Se você afundar agora, vai empurrar até seus tendões se romperem. Vamos, sai do caminho!
Ele não conseguiu fazer nada além de rastejar para fora do caminho dos bois e acenar com a mão. Os animais se esforçaram, motivados pelo chicote do carroceiro, e lentamente, com um som de sucção, as rodas da carroça começaram a girar.
O homem sentou-se na carroça, envolveu-se em um pesado manto de lã, cuspiu e não lhe deu mais atenção. A carroça puxada pelos bois passou por ele com sons de lama sendo pisada e logo desapareceu atrás de uma curva, marcada por uma colina rochosa não muito alta, cercada por enormes pinheiros.
Ele continuou deitado, apoiado nos cotovelos. As finas gotículas de uma névoa pesada, semelhante à chuva, lavavam lentamente a lama de seu rosto. O frio o dominava, e ele não tinha forças para fazer mais nada. Olhou em volta. Um caminho negro e pedregoso, e a cerca de dez metros dele, através da névoa, via altas árvores coníferas.
— Onde diabos estou?
Seu olhar deslizou pelo corpo. Com a mão, tocou a camisa suja e o colete sobre ela. Olhou para as calças do mesmo tecido que o colete. Estava preso com um cinto de couro largo de três dedos, com uma fivela de metal, e em uma bainha de couro do lado esquerdo havia uma longa faca de caça. Sentiu as botas nos pés cheias de água.
Seu olhar parou em uma bolsa de pano verde encerado, coberta de lama, que estava perto de seus pés. Ele estava perplexo. Tentou se sentar e, com um gemido, conseguiu. Girou a cabeça em todas as direções. Não entendia. O pensamento, sem base em memórias, o paralisou.
— Quem diabos sou eu?
\ \ \*
A dor na cabeça gradualmente diminuía, mas seus pensamentos não conseguiam se concentrar em uma única linha, saltando constantemente em confusão. Ele não conseguia se agarrar a nada concreto, pois a incerteza sobre sua identidade derrubava tudo. Estava prestes a entrar em pânico quando o frio penetrante através das roupas molhadas o forçou a decidir que era melhor fazer algo do que ficar sentado, congelado na lama.
Ele se levantou. Superou facilmente a tontura momentânea. Olhou para a floresta e o que viu não lhe deu nenhuma esperança. Definitivamente, esse lugar não figurava em suas memórias. Ele não encontrava memórias. Vazio. Por mais que tentasse forçar qualquer lembrança, não conseguia. Isso só lhe trouxe uma dor surda na nuca. A única coisa clara em sua mente era a lama, o boi e a carroça. Ele nem conseguia se lembrar do rosto do homem que dirigia a carroça.
Seu instinto de autopreservação prevaleceu. Decidiu que era desnecessário e sem sentido se preocupar com coisas sobre as quais, no momento, não tinha controle. Primeiro, ele precisava sobreviver. Sabia claramente que isso não aconteceria se ele não fizesse algo.
Jogou a bolsa sobre o ombro, decidindo que era sua, e seguiu em direção à curva. Esperava que ao redor da rocha que se elevava ali encontrasse algum lugar, mesmo que um pouco mais seco, para passar a noite.
O céu estava escurecendo. Apesar da névoa que se espalhava, impedindo que ele visse mais do que a parede indistinta de árvores ao redor do caminho, os sinais de que logo estaria completamente escuro eram evidentes.
Para sua alegria, o destino foi gentil e a rocha lhe ofereceu o abrigo que procurava. Inclinada sobre o terreno, com vista para o caminho, uma pequena saliência rochosa delineava um refúgio. A altura de dois a dois metros e meio permitia que ele ficasse em pé, e a profundidade de cerca de quatro a cinco metros era mais do que suficiente para manter o lugar seco.
Apoiou-se na borda da rocha e espiou cuidadosamente. Um olhar para o interior o tranquilizou. Estava vazio. Ele não era o primeiro a vagar por ali. E não seria o primeiro a passar a noite naquele abrigo conveniente. Ele até encontrou alguns galhos secos perto de pedras enegrecidas pela fuligem, dispostas em uma fogueira improvisada.
Era a vez da bolsa. Sentou-se no chão da cavidade rochosa e, com uma curiosidade quase infantil e dedos trêmulos de frio, desamarrou as cordas de couro. Derramou cuidadosamente o conteúdo no chão.
— Vamos ver agora se consigo entender quem sou e o que estou fazendo nesta floresta. — Assim como tudo mais, a voz que saiu de sua boca lhe pareceu familiar. O pensamento o surpreendeu, mas apenas por um momento.
Pegou uma pequena bolsa de couro e, com surpresa, descobriu que continha várias moedas de tamanhos e cores diferentes. Ele não as reconhecia. De um lado de cada moeda havia a silhueta de um homem, bastante desbotada e aparentemente desgastada pelo uso, e do outro lado um símbolo que se parecia muito com um "I" latino.
— Um "I" latino? — A súbita percepção o surpreendeu.
— O que significa esse "I" latino? — Ele olhou fixamente para o símbolo, concentrando-se na tentativa de provocar uma memória. E então se lembrou.
Em algum lugar de sua consciência, surgiu um pensamento que se transformou em uma memória, e logo ele soube que existia o alfabeto latino, também chamado de latim, e que era o sistema de escrita alfabética mais amplamente usado no mundo.
O conhecimento literalmente invadiu sua mente e o inundou como uma enxurrada. Um insignificante sinal provocou conhecimento. Ele de alguma forma sabia que o alfabeto latino surgiu com base no alfabeto de Cumas, uma variante ocidental do grego, que foi emprestado e modificado pelos etruscos e depois adaptado pelos romanos para escrever sua língua latina.
Ele estava certo de que esse alfabeto era usado na maioria das línguas europeias, que isso começou na Idade Média. Ele não tinha certeza de onde, mas sabia que a forma das letras individuais evoluiu com o tempo, e que ao longo dos anos surgiram as letras minúsculas, que não eram conhecidas na antiguidade.
Ele agarrou a cabeça, pressionando as têmporas. A enxurrada de memórias de conhecimento que o inundava literalmente causava dor. Ele de alguma forma já sabia que até estudara latim na universidade. Mas não sabia o que era uma universidade, o que era a Idade Média, a antiguidade.
— Caramba, cara, pare! — Ele gritou.
Ele se levantou e olhou para o caminho.
— Preciso desacelerar, preciso relaxar! — Ele inspirou profundamente e expirou com força. Repetiu isso várias vezes e sentiu a pressão em sua cabeça diminuir. — Assim está melhor.
O céu estava escurecendo. A névoa estava se tornando mais densa e seus vapores cobriam completamente o caminho. Embora o próprio caminho estivesse a não mais de dez metros da entrada do abrigo, já não era visível. Ele estremeceu. O frio aumentava com a noite que se aproximava, e as roupas encharcadas não podiam protegê-lo de seu abraço implacável. Ele precisava acender uma fogueira.
Com esperança, voltou ao conteúdo da bolsa. Ele precisava de fogo logo. Com o primeiro olhar, reconheceu o isqueiro. Sim, seu avô o ensinara a usá-lo, embora fosse uma coisa antiga e há muito fora de uso... Seus pensamentos saltaram novamente para as memórias que voltavam. Com esforço, limpou sua mente e se concentrou na simples ação física — acender o fogo.
Não demorou muito para que o agradável estalo dos galhos secos queimando o acalmasse. Ele aproveitou os últimos minutos antes que a escuridão impenetrável, em parceria com a névoa, tomasse conta da paisagem ao redor e coletou alguns punhados de galhos caídos sob as árvores próximas.
Sim, eles estavam encharcados de umidade, mas ele esperava que, ao colocá-los perto do fogo, secassem rapidamente, e acreditava no ditado "Perto do seco, o molhado também queima", que seu avô costumava usar em várias ocasiões.
Perto do fogo, ele improvisou uma secadora com galhos, onde pendurou suas roupas, e ele mesmo, vestindo apenas shorts e botas, continuou sua investigação do conteúdo da bolsa.
Havia dinheiro. Ele não sabia o valor que tinham nem o que poderia comprar com eles, mas pelo menos tinha dinheiro. Havia também uma camisa seca. Bem embrulhada em papel encerado junto com um par de meias, ela havia permanecido seca. Ele não precisou pensar muito — vestiu-a. Não se surpreendeu ao descobrir que era do seu tamanho e lhe cabia perfeitamente. O importante no momento era que o aquecia.
Não havia comida, mas ele encontrou um conjunto completo de agulhas — levemente curvadas. Suas memórias serviram e ele já sabia que as agulhas eram usadas para suturar após uma intervenção cirúrgica. Ele também encontrou fios, um pouco de pano branco e macio, cortado em quadrados perfeitos. Gaze! Claro, e ataduras — a palavra surgiu em sua consciência.
Uma garrafa com um líquido marrom escuro, quase preto. Depois de cheirá-la, ele teve certeza de que era tintura de iodo. Outra garrafa estava cheia de álcool.
Em uma caixa de metal do tamanho de uma mão, havia saquinhos de papel cheios de várias ervas e raízes, algumas cortadas finamente, outras mais grossas, e havia também saquinhos com folhas inteiras. Por mais que refletisse sobre o que encontrara, ficava cada vez mais claro que ele aparentemente era um curandeiro.
Em um pedaço de papel finamente escrito, dobrado em quatro, que ele encontrou em um bolso interno da bolsa, havia um nome. O texto, que ele leu sem problemas, continha algum tipo de recibo. O signatário no final — alguém chamado Brandon Sol, declarava que havia pago ao curandeiro Nolan Storr de Blackstone trinta e três moedas de cobre, e que ainda devia novecentos e sete moedas de cobre por curar seu rebanho de vacas. Depois, havia vários nomes, aparentemente de cidades, e endereços com outros nomes de pessoas das quais o Sr. Storr poderia receber o dinheiro ao apresentar o recibo.
Ele olhou para as chamas da fogueira e dobrou cuidadosamente o papel que acabara de ler.
— Nolan Storr de Blackstone. Aparentemente, sou eu... a menos que eu tenha conseguido esse recibo de alguma outra forma. E definitivamente sou algum tipo de veterinário.
Ele sorriu e guardou cuidadosamente o papel dobrado no bolsinho da bolsa. Se soubesse onde ficavam essas cidades ou vilas, poderia cobrar o dinheiro. É bom ter dinheiro.
— Tudo bem, Doutor Storr, amigo, vamos dormir. A manhã, como dizia meu avô, é mais sábia que a noite. Quem sabe eu me lembro de mais coisas. Alguém me deu uma pancada forte na cabeça. Espero me lembrar pelo menos de onde moro e como chegar lá.
O sono rapidamente envolveu seu corpo exausto no lago quente de seu repouso, mas isso não aconteceu com o cérebro esvaziado de memórias. Ele caiu nos turbilhões dos sonhos. Alguns eram agradáveis, outros nem tanto.
Em um deles, ele cavalgava com um pequeno grupo de pessoas. Ele tinha a sensação de que todos estavam ali por causa dele. Ele era o centro do grupo e sentia que estavam com pressa para chegar a algum lugar. A urgência o impulsionava a seguir em frente.
Alguém gritou para ele. Era um homem com um rosto severo e olhos claros de um castanho claro. Na tentativa de superar a brisa leve e o trotar da cavalgada rápida, ele explicou que não haviam descansado o dia todo e precisavam encontrar um lugar para passar a noite.
Ele respondeu, e a voz que saiu de sua boca pareceu estranha e autoritária. As palavras pronunciadas pareciam cortar. Ele ordenou secamente que encontrassem um lugar, mas que se apressassem, porque não havia tempo. Em seus pensamentos, ele sabia que tinha uma tarefa urgente. Ele sabia disso, mas o sonho não lhe mostrou qual era a tarefa.
Ele continuou cavalgando, imerso em reflexões. Um fio de pensamento passou pelo sonho. Ele conseguiu agarrá-lo, e isso lhe trouxe o conhecimento de que havia recebido a tarefa em uma carta entregue por um pássaro. Ele tinha uma vaga lembrança de que a carta indicava urgência e exigia velocidade.
Ele sabia claramente em seu sonho que havia mais cinco homens com ele. Um jovem, vestido com calças verdes justas e uma túnica que caía de forma engraçada sobre seu corpo magricela. Na névoa do sonho, ele sabia que o jovem cavalgava ao seu lado em um potro marrom, que ele mesmo escolhera.
O jovem estava envolto em um manto cinza na tentativa de se proteger da névoa que se levantava ao anoitecer. Seu rosto recentemente enfrentara o problema da "barba rala de adolescente" e estava cheio de espinhas. Ele parecia nervoso e coçava as espinhas. O nome dele surgiu no sonho — Jacob. Era seu servo.
Ele sabia que os outros quatro homens eram seus guardas. Suas armaduras leves e brilhantes, escurecidas pelas gotículas de névoa cinzenta, não pareciam tão impressionantes quanto ao sol, mas os homens eram durões e guerreiros experientes. Seus mantos cinzentos os faziam parecer fantasmas na névoa e no sonho. Ele não conseguia ver seus rostos. Sabia que haviam sido fornecidos a ele pela Academia do Corpo