Excerpt from Vermelho Cósmico

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CAPÍTULO 1

Chovia suavemente, melancolicamente. Nas poças do passeio refletiam-se, lânguidas, as luzes da cidade. As gotas de chuva finas desfaziam levemente as manchas gordurosas de sujidade dissolvida na água, criando uma versão sombria de um arco-íris derretido. Kassian Grey encarava o seu próprio reflexo distorcido através da montra suja do bar, ignorando o empregado carrancudo que, com um pano de duvidosa limpeza, esfregava copos atrás do balcão com zelo, quase com raiva. A música abafada, vinda de colunas empoeiradas, tentava, tal como o antigo capitão da Força Aérea dos EUA, não chamar a atenção.
Kassian suspirou fundo, desviando a atenção para o ecrã da televisão, pendurado torto por cima do balcão. Passavam as notícias policiais – novamente férteis, maioritariamente em reportagens e revelações sobre vampiros. Passara um mês desde que a sua existência fora anunciada com estrondo numa sessão da ONU. Fizera-o um homem, quase um rapaz, que se intitulava Arconte. Naqueles poucos minutos, o mundo mudara para sempre. Isso fazia Kassian sentir-se ainda mais perdido e supérfluo.
— Mais um? — perguntou o empregado, acenando com a cabeça para o copo vazio diante de Kassian.
— Não, obrigado — respondeu ele, esfregando os olhos cansados. — Acho que é hora de voltar para casa.
O empregado anuiu, resmungando, e pôs-se a arrumar as garrafas atrás do balcão. Kassian deixou uma nota em cima do balcão e calçou lentamente umas luvas negras puídas com os dedos cortados. Hesitou por um momento antes de impulsionar a cadeira de rodas em direção à saída. A atmosfera do bar, ou o zumbido baixo da televisão, ou talvez o ar pesado, saturado com o aroma de charuto e vapores alcoólicos, fizeram-no ficar.
— O que pensa de toda esta... situação? — perguntou, virando-se para o empregado.
O homem atrás do balcão parou com uma garrafa na mão e olhou para Kassian com os olhos semicerrados.
— Dos vampiros? — sibilou ele e cuspiu para o lado. — Nada de bom, se quer saber. Esses sanguessugas são uma ameaça para todos nós. E ainda os querem pintar como cordeirinhos.
Kassian contraiu-se involuntariamente. Tentou manter uma expressão neutra, mas internamente concordava plenamente com o empregado.
— Não estaremos a julgá-los precipitadamente? Afinal, não sabemos muito sobre eles.
O empregado abanou a cabeça.
— Sabemos o suficiente. Alimentam-se de sangue, por Deus! Sente-se em segurança quando criaturas dessas andam à solta à nossa volta? Como é que há de fugir-lhes nessa cadeira?
Kassian reprimiu o desejo de anuir em concordância.
— Eles afirmam que querem paz e coexistência. Talvez devêssemos dar-lhes uma oportunidade?
— Oportunidade para quê? Para nos devorarem enquanto dormimos? — resmungou o empregado. — Olhe, amigo, sou um homem simples. Já vi o suficiente deste mundo para saber que, quando algo parece bom de mais para ser verdade, é preciso ler a letra pequena.
Kassian refletiu. Parte dele queria concordar abertamente com o empregado, partilhar os seus próprios medos e dúvidas. Mas outra parte, aquela que avançara e ingenuamente carregara slogans idealistas, contê-lo.
— Talvez tenha razão — disse ele, finalmente. — Receio que, ao rejeitá-los sem lhes darmos uma hipótese, os tornemos exatamente nisso – criaturas dos nossos pesadelos.
O empregado inclinou-se para a frente, apoiando-se no balcão.
— Ouça, rapaz. Sei que quer ser bom. Mas há-de chegar a hora de escolher um lado. Eu escolho o lado dos humanos vivos, dos que respiram.
Kassian sentiu o seu conflito interno aprofundar-se. Olhou novamente para o ecrã da televisão, onde passavam imagens do último comunicado do Arconte.
— Talvez tenha razão — murmurou ele baixinho. — Talvez realmente deva...
O empregado encolheu os ombros e virou-se para outro cliente. Kassian fitou as suas mãos, recordando o tempo em que aqueles dedos comandavam os sistemas complexos de caças de combate. Agora estavam condenados a girar as rodas da maldita cadeira.
A memória do acidente invadiu-lhe a consciência, não convidada e dolorosa: Voava a velocidade supersónica, executando uma missão de treino de rotina. Subitamente, todos os sistemas falharam. A última coisa de que se lembrava eram os avisos do controlador nos auscultadores e o solo, precipitando-se na sua direção a uma velocidade vertiginosa.
Kassian cerrou os dentes, afastando a memória. Não era hora de autocomiseração. O mundo estava a mudar, e ele estava ali sentado, a afogar-se na sua própria amargura.
— Está na hora de me mexer — murmurou ele, agarrando as pegas da cadeira.
Lá fora, o ar frio da noite atingiu-o como uma bofetada. As ruas de Nova Iorque pulsavam de vida – peões apressados, buzinas, táxis, risos de um restaurante próximo. Na sua cadeira, Kassian sentiu-se completamente desligado do turbilhão à sua volta. Contraiu os músculos e empurrou lentamente a cadeira pelo passeio, agitando as poças gordurosas. As pessoas contornavam-no. Alguns olhavam-no com pena, outros ignoravam-no por completo. Kassian não sabia o que era pior. Queria gritar-lhes: "Ei, não sou um leproso!".
Estava a aproximar-se do cruzamento quando dois homens pararam à sua frente, como se tivessem surgido do nada. Kassian travou bruscamente. A sua mão direita pousou sobre o pedaço de tubo de água fixado lateralmente ao assento, mas soltou-o ao ver os seus impecáveis uniformes militares.
— Capitão Kassian Grey? — perguntou o mais alto dos dois, com uma voz treinada para dar ordens, dura como aço.
Kassian anuiu em silêncio, estudando os seus rostos. Estavam tensos, os seus olhos examinavam inquietos os transeuntes.
— Tenho ordens para acompanhá-lo — disse o segundo, mais baixo e robusto. — Por favor, venha connosco.
Antes que Kassian pudesse reagir, o mais alto tirou um envelope do bolso interior do casaco e estendeu-lho.
— A sua convocatória, senhor.
Com mãos incrédulas, Kassian abriu o envelope. Dentro havia apenas uma folha de papel com um carimbo no fundo. Os seus olhos percorreram as linhas:
"Por ordem do Comandante Supremo, o estatuto de capitão Kassian Grey é restaurado e o mesmo é convocado imediatamente para o serviço. O país precisa de si. Hora do voo: 23:00."
Kassian olhou para o relógio – 22:15. O seu coração disparou.
— O que significa isto? — perguntou ele com uma voz rouca. — Eu estou... já não estou em serviço ativo.
Os dois militares trocaram um olhar rápido.
— Lamentamos, senhor, mas não temos informações adicionais — respondeu o mais alto. — As nossas ordens são escoltá-lo até ao aeroporto. A nossa carrinha está ali estacionada.
Kassian olhou para a carrinha preta, estacionada a poucos metros deles, com as iniciais GMA e o globo azul e vermelho da organização. O seu cérebro trabalhou febrilmente. "Que raio se passa? Porque é que precisam de mim – um piloto aleijado numa cadeira de rodas?"
— GMA?
— Sim, senhor.
Kassian fitou o logótipo da GMA na carrinha. A Aliança Militar Global – uma organização criada muito recentemente, supostamente para proteger a humanidade, mas com demasiados aspetos duvidosos. Unia exércitos e clãs vampíricos sob o mesmo teto, alegando trabalhar pela paz e segurança. Mas como poderia haver paz entre predador e presa? Os rumores sobre experiências secretas, sobre armas que não deviam existir, emergiam nos seus pensamentos. Agora estavam a chamá-lo? Algo não batia certo.
— Senhor? — a voz do uniformizado mais alto trouxe-o de volta à realidade. — Temos de ir.
Kassian engoliu em seco, a desconfiança a crescer. A GMA alegava ser uma ponte entre a humanidade e os vampiros, mas ele não conseguia livrar-se da sensação de que eram antes um abismo, prestes a engolir ambos os lados.
— E se me recusar? — perguntou Kassian, mais por curiosidade do que por desejo de se opor.
— Isso não é uma opção, senhor — respondeu gelidamente o militar robusto. — As ordens são claras. Tem de vir connosco. Imediatamente.
Kassian sentiu o estômago contrair-se. Parte dele queria virar-costas e fugir, esconder-se no bar e esquecer aquele estranho encontro. Mas outra parte – uma parte que estivera adormecida durante meses – despertou subitamente. A adrenalina estimulou-o, fazendo-o sentir-se mais vivo. Não se sentia assim há anos.
— Está bem — disse ele finalmente, endireitando-se o quanto pôde na cadeira. — Levem-me.
Os dois militares aproximaram-se para ajudar com a cadeira, mas Kassian impediu-os com um gesto.
— Eu consigo — murmurou ele e empurrou-a em direção à carrinha.
Mais perto da carrinha, Kassian constatou que as janelas estavam fumadas. Isso só aumentou as suas suspeitas. O que estariam a esconder? Ou quem?
— Desculpe — disse ele, virando-se para o militar mais baixo, — tem alguma ideia de por que fui convocado? Não vejo como posso ser útil no meu estado atual.
O homem abanou a cabeça.
— Lamento, senhor. Não temos acesso a essa informação. Só fui informado de que é urgente.
Kassian cerrou os dentes, sentindo a raiva e a impotência a crescerem nele. Estava habituado a controlar a situação, a saber tudo sobre a sua missão. E agora estavam a fazê-lo saltar às cegas para o desconhecido. A ele! O aleijado!
A porta da carrinha abriu-se com um sibilo suave. Na penumbra lá dentro, Kassian conseguiu distinguir duas silhuetas. "Bem, parece que não me apanharam da rua só a mim."
— Capitão Grey — ouviu-se uma voz de dentro, — bem-vindo a bordo, senhor.
Com um suspiro profundo, ele preparou-se para entrar na carrinha. Foi então que notou algo inesperado – sobre um dos passageiros incidiu por um momento um feixe dos faróis de um táxi que passava. Ele tinha uma pele anormalmente pálida e olhos que pareciam brilhar no escuro. O coração de Kassian falhou uma batida. Vampiro! Estavam a fazê-lo entrar num espaço fechado e apertado com um vampiro.
— Está tudo bem, capitão? — perguntou o militar alto atrás dele, notando a sua hesitação.
Kassian inspirou fundo e contraiu os músculos. Começou a subir pela rampa baixada da carrinha. A sua mente estava cheia de perguntas. Mas o esforço físico que teve de fazer expulsou-lhe todos os pensamentos da cabeça.
Quando se instalou, os dois militares entraram pela frente. O motor rugiu e a carrinha arrancou, fundindo-se abruptamente no trânsito.
— Para onde? — perguntou Kassian, tentando manter a voz calma.
— Para o aeroporto, senhor — respondeu o vampiro sentado ao seu lado. — De lá será transportado para o seu destino final.
— Que é?
Silêncio. Kassian suspirou. Aparentemente, não ia obter respostas tão facilmente. Olhou novamente para a convocatória nas suas mãos, procurando algum significado oculto nas escassas linhas.
Uma curva brusca para a esquerda atirou Kassian para o lado. Ele agarrou-se firmemente ao assento, praguejando baixinho.
— Ei, há aqui um homem numa cadeira de rodas — gritou ele para o condutor.
— Lamentamos, senhor — respondeu o uniformizado com uma voz tensa. — Temos uma cauda.
Kassian virou-se, o quanto pôde, e olhou pelo vidro traseiro. No trânsito atrás deles, viu dois jipes pretos a aproximarem-se rapidamente, manobrando entre os outros carros.
— Quem são eles? — perguntou Kassian, sentindo a adrenalina a subir novamente nele.
— Não sabemos, senhor — respondeu o outro militar, já com uma pistola na mão. — Mas definitivamente não são amigos.
A carrinha acelerou, passando rapidamente por um semáforo vermelho. Buzinas e gritos encheram o ar enquanto o veículo navegava entre os outros automóveis.
— Ultimamente a xenofobia está a ganhar popularidade e a GMA é o principal alvo — disse o segundo vampiro, sentado de frente para ele, atrás na carrinha.
E em parte não é sem razão, não partilhou o capitão os seus pensamentos.
Agora estava mais perturbado com o balanço violento da carrinha. Cerrou os dentes, sentindo-se impotente na sua cadeira de rodas. Outrora, fora ele a comandar em situações semelhantes, e agora só podia observar.
— Agarre-se, capitão! — gritou o condutor, virando bruscamente para a direita numa rua estreita.
Kassian colidiu com a parede da carrinha, sentindo uma dor a perfurar-lhe as costas. Amaldiçoou baixinho, tentando agarrar-se melhor.
Os perseguidores, no entanto, não desistiam. Um dos jipes conseguiu entrar na rua atrás deles, os seus faróis iluminaram o vidro traseiro e quase cegaram Grey.
— Senhor, tem alguma ideia de quem poderão ser estes? — perguntou o militar ao lado do condutor, virando-se para o vampiro ao lado de Kassian.
— Escória local, suponho. O nosso logótipo atrai-os como moscas para o mel. — respondeu o vampiro e Kassian, não sem um arrepio de horror, notou como dois dentes afiados apareceram no seu sorriso fino.
— Há bocado estava num bar a beber a minha cerveja. — Kassian riu-se. Toda a situação lhe parecia extremamente absurda. — Agora estou no meio de uma perseguição. São divertidos, rapazes.
Um som de tiro cortou o ar. O vidro traseiro da carrinha fendilhou-se, mas não se partiu.
— Raios! — rosnou o condutor, pressionando o acelerador a fundo. — Estão a disparar contra nós!
Kassian sentiu o coração a bater loucamente. Isto não era uma simples perseguição – era uma tentativa de assassinato. E porquê? Será que aquelas pessoas odiavam assim tanto os vampiros?
A carrinha saiu da rua de volta à avenida principal, virando bruscamente para a esquerda. Os pneus guincharam no asfalto, deixando marcas negras para trás.
— Quanto tempo falta para o aeroporto?
— Mais dez minutos, capitão. — respondeu rapidamente o condutor. — Mas não tenho a certeza de que aguentemos tanto tempo.
Como que a confirmar as suas palavras, um novo tiro ecoou. Desta vez, a bala furou o pneu traseiro da carrinha. O veículo balançou perigosamente, enquanto o compressor de emergência começou a injetar ar no pneu, compensando a perda de pressão, e o condutor lutava para manter o controlo.
— Temos de fazer alguma coisa! — Kassian sentia-se impotente na sua cadeira. — Não podemos ficar à espera que nos disparem!
— Vire no próximo cruzamento. Imediatamente! — O vampiro sentado de frente para Kassian tinha-se virado e estava a observar o caminho à frente.
O condutor não hesitou. Virou o volante bruscamente, entrando com a carrinha numa rua lateral estreita. Os perseguidores, surpreendidos com a manobra repentina, passaram rapidamente por eles.
— E agora? — perguntou o condutor, reduzindo a velocidade.
— Desligue os faróis e mova-se devagar — ordenou o vampiro.
— Pare agora.
A carrinha silenciou-se na escuridão do desvio. Kassian encarava tensamente o vidro da frente, esperando a qualquer momento que os perseguidores reaparecessem.
— Senhor — sussurrou o militar ao lado do condutor, — acho que os perdemos.
E precisamente quando as palavras saíram da sua boca, uma luz forte inundou a carrinha. A luz dos faróis dos jipes incideu sobre eles.
— Raios! — rosnou Kassian.
— O que fazemos agora, major? — perguntou o condutor, a sua voz tensa.
O vampiro de frente para Kassian anuiu para aquele ao seu lado.
— Agora deixem as coisas nas nossas mãos.
Com uma velocidade que fez Kassian abrir a boca incrédulo, os dois vampiros saltaram da carrinha e... lá fora ouviram-se gritos, tiros, guinchos curtos e gemidos prolongados.
Kassian olhou nervosamente para os dois militares no banco da frente, mas a única coisa que viu foram os seus olhos. Estavam tão arregalados como os seus. O condutor estava muito pálido. Apertava o volante com as duas mãos, e o seu olhar não se descolava do espelho retrovisor.
— Meu Deus! — Quase saltou na cadeira quando aqueles dois regressaram. Instalaram-se nos seus lugares antigos e aquele a quem o condutor chamara "major" virou-se com uma voz calma.
— Prossiga para o aeroporto — disse ele finalmente. — Estes já não nos vão incomodar.
O condutor não precisou de mais incentivo. Pressionou bruscamente o acelerador e a carrinha deixou rapidamente a rua escurecida. Kassian lançou um último olhar através do vidro fendido: os dois jipes com os faróis apagados ficaram para trás em silêncio. Não havia movimento, não havia nada.
"O que aconteceu aos perseguidores?" Ele levantou um olhar interrogativo para o major. Aquele sentiu a sua atenção e encolheu os ombros.
— Esqueça.

A carrinha passou zunindo pela guarda do aeroporto sem abrandar. Kassian sentiu um arrepio familiar e amado quando avistou os contornos conhecidos dos aviões e dos hangares. Pelo menos ali estava em território conhecido.
— Chegámos, capitão — informou o motorista, virando bruscamente para uma pista distante.
Kassian semicerrou os olhos, tentando distinguir a silhueta do avião que o aguardava. O que viu fê-lo ficar boquiaberto de espanto. Na pista estava algo que mais se assemelhava a uma nave espacial de um filme de ficção científica do que a um avião.
— Isto é o nosso transporte? — perguntou ele, incapaz de esconder o espanto na voz.
O major-vampiro sorriu ligeiramente.
— Sim, capitão. Este é o jato experimental da GMA. O veículo mais rápido e tecnologicamente avançado do planeta.
A carrinha parou suavemente junto à escada do jato. Os dois militares desceram rapidamente e ajudaram Kassian a transferir-se para a sua cadeira de rodas.
— Um voo bem-sucedido, capitão — disse um dos vampiros, entregando-lhe uma pequena mala. — Tem tudo o que precisa lá dentro.
Kassian anuiu em silêncio, ainda demasiado atordoado para responder. Virou-se para a escada, perguntando-se como diabo iria subir.
— Permita-me — soou uma voz atrás dele.
Antes que Kassian pudesse reagir, foi erguido no ar. O vampiro carregou-o escada acima com facilidade, como se ele e a cadeira não pesassem mais do que uma pena. Em segundos, encontrou-se a bordo do jato.
O interior da aeronave era tão impressionante quanto o exterior. Superfícies lisas, ecrãs e assentos macios e ergonómicos enchiam a cabina.
— Bem-vindo a bordo, capitão Grey — cumprimentou-o uma voz da parte da frente do jato. — Por favor, instale-se comodamente. Descolamos em cinco minutos.
Kassian acomodou-se num dos luxuosos cadeiros, que se ajustou automaticamente ao seu corpo. Olhou para a cabina de pilotagem, mas através da porta aberta não viu ninguém.
— Quem... com quem estou a falar? — perguntou ele, olhando em redor, um pouco confuso.
— Perdão, chamam-me A12, a inteligência artificial — respondeu a voz. — Serei o seu interlocutor durante a viagem.
Kassian engoliu em seco. Inteligência artificial? Ouvira falar de certos desenvolvimentos nessa direção, mas… Isto definitivamente não era parte do equipamento padrão dos aviões militares que conhecia.
— E onde está o piloto? — perguntou ele, curioso para ver a pessoa a comandar esta maravilha.
— Eu serei o seu piloto, capitão Grey — retorquiu o A12 com uma ligeira nota de divertimento na voz. — Não se preocupe, fui eu que projetei o jato. Consigo pilotá-lo com facilidade.
Antes que o estupefacto Kassian pudesse responder, os motores do jato ganharam vida com um zumbido suave. Sentiu uma ligeira pressão no assento quando a máquina começou a elevar-se verticalmente no ar.
— Prepare-se para a descolagem — informou o A12, já em andamento.
Kassian apertou as braçadeiras do cadeiro, esperando a conhecida pressão da aceleração. Mas, em vez disso, mal sentiu o movimento. O jato disparou para a frente a uma velocidade incrível, da qual só podia deduzir pela vista através da janela, mas dentro da cabina reinava uma calma total.
— Incrível... como é que isto é conseguido? — murmurou Kassian, observando pela janela as luzes da pista abaixo a diminuírem a uma velocidade vertiginosa.
— Amortecedores de inércia, capitão — explicou o A12. — Eles neutralizam quase totalmente os efeitos da aceleração e da gravidade. Confortável, não é?
Kassian anuiu em silêncio, tentando assimilar que estava a voar no avião mais avançado que já vira, pilotado por uma inteligência artificial. Simplesmente maravilhoso!
— A12 — começou ele, hesitante, — podes dizer-me para onde vamos?
— Claro, capitão — respondeu o A12. — O nosso destino é a base lunar da GMA.
Kassian recostou-se no cadeiro, sentindo a cabeça a andar à roda.
Lua? Ele não ouvira falar de nenhuma base lá. Nem sequer sabia que os humanos tinham voltado à Lua depois da Apollo 17, que ali aterrou no longínquo ano de 1972.
— Porquê? — fez a pergunta seguinte da lista "importante", cujo fim não se vislumbrava. Poupou as óbvias e passou diretamente à que mais o interessava.
— Porque me estão a enviar para a Lua?
— Para treino especial, capitão — respondeu o A12, vivamente. — Foi um dos escolhidos para pilotar o mais recente caça espacial da GMA.
Kassian não conseguiu conter um riso amargo.
— Eu? Pilotar? A12, não sei se reparaste, mas estou numa cadeira de rodas. Como é que esperam que eu pilote seja o que for?
— As suas limitações físicas não serão um problema, capitão — assegurou-lhe o A12. — Estão previstas... modificações que lhe permitirão enfrentar os desafios.
Kassian sentiu um arrepio frio percorrer o seu corpo. Modificações? Que diabo significa isso?
— Que modificações? — perguntou ele, temendo a resposta.
— Lamento, capitão, mas não estou autorizado a discutir pormenores — retorquiu o A12. — Tudo lhe será explicado quando chegarmos à base lunar.
Kassian abanou a cabeça, sentindo-se confuso e inquieto. Virou-se para a janela, tentando encontrar consolo na vista lá fora. Mas o que viu apenas intensificou a sua sensação de desorientação.
A Terra era visível como uma enorme esfera azul-esverdeada, envolvida por uma fina camada de atmosfera. As estrelas brilhavam intensamente no fundo negro, mais brilhantes e numerosas do que Kassian alguma vez vira da Terra.
A sensação de escala e insignificância atingiu-o. Ele, Kassian Grey, ex-piloto militar, agora deficiente, estava a ser transportado através do espaço em direção à Lua. Para ser... modificado? Para voltar a pilotar? Tudo parecia tão irreal.
— A12 — disse ele baixinho, — quanto tempo vai demorar a viagem?
— À nossa velocidade atual, alcançaremos a órbita lunar em aproximadamente 17 minutos — respondeu o A12.
Kassian anuiu em silêncio. Dezassete minutos. Tão pouco tempo para mudar a sua vida inteira.
Lá fora, pela janela, um movimento inesperado captou a sua atenção. Um pequeno ponto cintilante aproximava-se rapidamente deles.
— A12, estás a ver aquilo? — perguntou Kassian, apontando para a janela.
— Sim, capitão — respondeu o A12. — É um caça espacial classe "Tigre". Um dos modelos que terá de aprender a pilotar.
— Caça espacial! — Kassian inclinou-se para a frente, tentando distinguir os detalhes da nave que se aproximava. Subitamente, o caça acelerou, passando por eles a uma velocidade incrível. Mesmo assim, Kassian conseguiu vislumbrar as suas linhas elegantes e a superfície brilhante, antes que ele se reduzisse novamente a um ponto e desaparecesse de vista.
— Incrível — sussurrou Kassian. — É rápido.
— Os caças classe "Tigre" são capazes de velocidades muitíssimo superiores às das máquinas que pilotou — explicou o A12. — Foram concebidos para resposta rápida a ameaças espaciais.
— Ameaças espaciais? A12, o que se passa exatamente? Porque é que a GMA subitamente revelou a existência de vampiros e agora está a desenvolver caças espaciais?
O A12 calou-se por um momento, como se ponderasse a sua resposta.
— É perspicaz, capitão, essa é a cronologia correta.
— Não respondeu à minha pergunta.
— A situação é complexa — retorquiu, finalmente, o A12. — Tudo lhe será explicado quando chegarmos à base.
— Estamos em perigo?
— Sim, a humanidade enfrenta uma ameaça.
Kassian franziu a testa. Ameaça! Que ameaça poderia ser tão séria a ponto de exigir a revelação dos vampiros e o desenvolvimento de tecnologia espacial?
Antes que pudesse fazer mais perguntas, o A12 antecipou-se.
— Estamos a aproximar-nos da órbita lunar. Por favor, prepare-se para a entrada na base lunar.
Kassian voltou-se novamente para a janela. À distância, já se via a superfície cinzenta do satélite terrestre, salpicada de crateras. O que imediatamente atraiu a sua atenção foi uma enorme estrutura no lado escuro da Lua, que se elevava acima do horizonte lunar.
A base assemelhava-se a uma cidade futurista, coberta por uma cúpula transparente. Edifícios brilhantes e antenas elevavam-se para o céu estrelado, e inúmeras naves pequenas e vaivéns circulavam em redor da base.
— Isto é... incrível — sussurrou Kassian, sentindo a respiração faltar. — E tudo isto foi construído em segredo do público?
— Não foi construído por humanos. Os créditos são de outros.
— Como?
— Essa é uma informação a que terá acesso mais tarde, capitão.
— E agora a GMA está a usá-la?
— Sim, e muitas outras coisas. A GMA tem recursos e tecnologias que ultrapassam mesmo as suposições mais ousadas das pessoas comuns, capitão — retorquiu o A12.
O jato começou a reduzir a velocidade, aproximando-se das portas de uma enorme doca no extremo distante da base. Kassian sentiu a tensão incontrolável a crescer no seu corpo. Dentro de minutos, estaria a pisar a Lua, a entrar num mundo cuja existência ignorava.
— A12 — perguntou ele baixinho, — achas que estou pronto para isto?
— Capitão — respondeu o A12 com uma nota de calor na voz, — foi escolhido não apenas pela sua experiência passada, mas também pelo seu potencial. Acredito que se sairá excelentemente com os desafios que se avizinham.
Kassian anuiu em silêncio, tentando alimentar a sua confiança nas palavras do A12.
— Investiguei-o pessoalmente, e as recomendações sobre si foram… sólidas — concluiu a inteligência artificial com um ligeiro estalido de interferência elétrica na voz.
As portas da doca abriram-se lentamente, revelando o seu interior. Kassian vislumbrou filas de naves espaciais brilhantes e robôs a trabalhar em várias tarefas.
— Bem-vindo à base lunar "Ares", capitão Grey — anunciou o A12, enquanto o jato descia suavemente para a plataforma de aterragem. — O seu treino começa agora.

CAPÍTULO 2

A pesada comporta da doca fechou-se com um baque surdo, ocultando a vista hipnotizante do céu estrelado e brilhante. Kassian Grey voltou lentamente o olhar para a majestosa panorâmica da base lunar. O ar, impregnado com o cheiro de ozono e óleo de máquina, invadiu-lhe os pulmões, uma sensação agradavelmente familiar. Movimentou lentamente as rodas da sua cadeira na gravidade desconhecida. A estrutura metálica vibrava com a estranha frequência ressonante que pulsava através das estruturas de metal.
O espaço enorme estendia-se diante dos seus olhos – intensamente iluminado, repleto de naves futuristas e de uma atividade febril. Dominando tudo, estava uma enorme inscrição – "Aliança Militar Global" (GMA) com o seu emblema familiar, e por baixo, trabalhadores moviam-se com uma rapidez antinatural, como se o tempo aqui fluísse sob leis diferentes.
No caos de movimentos e sons, uma figura destacou-se – um homem jovem, quase um adolescente de uniforme, aproximando-se com uma passada medida. As placas magnéticas nas suas solas emitiam um ligeiro ruído metálico a cada passo.
— Coronel Lauren Ashton — apresentou-se ele, estendendo a mão. — Espero que a sua viagem tenha sido... esclarecedora.
Kassian apertou a mão estendida e ficou surpreendido com a força do aperto. Suprimiu um arrepio provocado pelo toque antinatural – a pele de Lauren era fria, quase sintética ao tato. Os seus olhos detiveram-se involuntariamente nas dragonas, que denunciavam a alta patente daquele jovem que mal parecia ter vinte anos.
— Esclarecedora é dizer pouco, coronel — respondeu ele, surpreendido com a sua própria voz, que ganhara uma aspereza atípica do voo e do ar seco da doca. — Diria antes... chocante.
Ashton sorriu ligeiramente.
— Deixe-me fazer uma visita rápida. O meu tempo é limitado.
Os dois seguiram pelo labirinto de máquinas e pessoas. Kassian esforçou-se para acompanhar com a sua cadeira de rodas o passo rápido de Lauren, enquanto lutava contra a gravidade invulgar, que pregava partidas à tração das rodas no chão. Os seus olhos saltavam de uma nave inconcebível para outra – formas orgânicas, como se tivessem crescido, não construídas.
— Reparou nos nossos belos caças. — O tom de Lauren tinha uma nota de orgulho. — São caças lemurianos. Este modelo LM-24 "Tigre" talvez seja pilotado por si também, capitão.
Kassian franziu a testa, confuso com o termo desconhecido. A sua mão alcançou instintivamente a nave mais próxima, esperando sentir metal frio. Em vez disso, os seus dedos afundaram-se numa matéria macia e pulsante. Um guincho distante, quase ultrassónico, trespassou-lhe a consciência.
— Lemurianos? — perguntou Kassian, sentindo a sua confusão a aumentar. — Como a... civilização desaparecida?
Lauren olhou para ele, avaliador, uma centelha de curiosidade brincou por um momento nos seus olhos azuis.
— Bravo, capitão, poucos ouviram a palavra. Mas... tenha em mente que, quanto mais aprende, mais percebe o quão pouco realmente sabe. Os lemurianos não são um mito. A Lemúria foi... muito mais.
Um rugido forte de motores fez com que Kassian se baixasse instintivamente. A corrente de ar trouxe um aroma – uma mistura algo agradável de ozono e algo adocicado, que lembrava caramelo queimado. O coronel Ashton manteve-se impassível, apenas se inclinando ligeiramente na direção da corrente de ar.
— Não se preocupe, é apenas um teste — a sua voz sobrepôs-se ao ruído já a desvanecer-se. — Temos de estar preparados para tudo aqui. A vida no espaço é frágil, capitão. Um pequeno erro pode significar o fim para todos nós.
Kassian ergueu-se ligeiramente nos braços, apoiando-se nas pegas das rodas, observando atentamente ao redor. O seu olhar deteve-se por um momento numa tatuagem recorrente nas palmas das mãos de alguns técnicos, símbolos idênticos cujo significado lhe escapava. Mas não ousou perguntar ao coronel sobre eles. Apenas acenou com a cabeça em silêncio.
Continuaram a visita, passando por laboratórios, salas de treino e centros logísticos. A cada metro, Kassian sentia a sua vida antiga a ficar cada vez mais distante. Tudo parecia fantástico.
Os tipos da Aliança Militar Global não estão para brincadeiras. E o seu orçamento está claramente inflacionado. A pensamento pairou-lhe com inveja, recordando-se dos móveis gastos nas bases onde estivera.
Finalmente, após um número confuso de curvas, corredores, descidas e subidas em elevadores de vários tamanhos, pararam diante de uma porta modesta. O coronel abriu-a, introduzindo um código, e apresentou ao capitão Kassian o seu novo alojamento.
— Vai instalar-se aqui durante as próximas semanas — disse ele, entregando-lhe um dispositivo envolto numa capa de couro escura com o emblema gravado da GMA.
— A partir do tablet ficará a saber tudo o resto, depois de assinar os documentos com a impressão digital — acrescentou Ashton. — Aqui, escolha, leia e assine. Depois disso, terá acesso à informação.
O cansaço prevaleceu e Kassian bocejou involuntariamente. O coronel interrompeu as suas explicações, notando o esgotamento do recém-chegado.
— Vejo que está cansado. Agora vá descansar um pouco. Temos um briefing dentro de 5 horas. Tempo suficiente para os documentos. — Ativou um mapa holográfico no tablet, assinalando o caminho para o alojamento de Kassian. — Não se atrase para o briefing.
Inclinou-se ligeiramente para a frente, quase tocando o homem na cadeira de rodas. O seu rosto substituiu rapidamente os traços experientes por outros – de algum modo mais quentes e humanos.
— Se não assinar os documentos, não apareça no briefing. — Endireitou-se bruscamente e deu-lhe outra palmada no ombro. — Vai correr tudo bem, capitão.
Com estas palavras, o coronel Ashton afastou-se, deixando Kassian sozinho no corredor.
"Vai correr tudo bem noutra ocasião." O capitão Kassian Grey respirou fundo e atirou o saco com os seus pertences pessoais, que caíra da cadeira. Pousou-o sobre as suas pernas, prendeu o tablet em cima e, com um impulso poderoso, fez avançar a cadeira em direção à porta.
Hesitou por um momento, antes de colocar a palma da mão no leitor de acesso. Um ligeiro formigueiro percorreu-lhe os dedos. No ecrã acendeu-se "ADN - OK" e a porta deslizou para o lado com um silvo baixo.
O pequeno aposento parecia estéril e impessoal – uma cama estreita, uma secretária com um monitor, um pequeno guarda-vestidos. No ar pairva um ligeiro aroma a desinfetante e tinta fresca. "Tudo é funcional, sem decorações supérfluas. Típico de uma base militar," pensou ele, mas depois sorriu amargamente.
"Não, nada aqui é típico. Pois não?"
Com um único movimento, Kassian atirou o saco para o chão e travou a cadeira junto à beira da cama. Com um movimento treinado, transferiu-se para ela. Deitou-se pesadamente sobre os lençóis bem esticados. Imediatamente sentiu a fadiga a inundá-lo em ondas.
Precisou de três ou quatro inspirações para se lembrar do tablet. Encontrou-o na cama – onde o atirara. Com um suspiro, pegou nele e colocou o polegar no ecrã, ativando o processo de leitura e assinatura dos documentos.
Uma longa lista de ficheiros, marcados como "Altamente Secreto", desfilou perante os seus olhos. Aguardava-o muita, muita leitura. Selecionou o primeiro de uma série de ficheiros, cumpriu o pedido para digitalizar a sua retina e começou a ler.
A cada linha lida, o mundo que conhecia desfocava-se. A verdade sobre Xylar'n, sobre as antigas tecnologias alienígenas, sobre a verdadeira história da humanidade – tudo isso se derramava na sua consciência como uma torrente, ameaçando afogá-lo.
A Lemúria não era um mito ou uma civilização perdida. Era uma raça alienígena avançada que visitara a Terra há milhares de anos. Eles deixaram vestígios da sua tecnologia – tecnologia que a GMA agora usava na luta contra Xylar'n.
E Xylar'n... Kassian estremeceu ao ler sobre eles. Uma raça não menos avançada que os lemurianos, militarizada, implacável, determinada a subjugar qualquer raça que encontrasse. As razões do seu ódio pelos lemurianos permaneciam nebulosas, mas as suas intenções eram cristalinas.
As horas passavam, e Kassian continuava a ler, a absorver informação que revolvia tudo. Os vampiros, os caças – tudo começava a fazer sentido, um sentido aterrador, mas lógico.
Finalmente, exausto física e emocionalmente, ele pousou o tablet de lado. A sua cabeça latejava com a informação, com as perguntas, com os medos. Recostou-se na cama, fechando os olhos, mas o sono recusava-se a vir. No silêncio, ouviu sons abafados a aproximarem-se. Tornaram-se uma conversa baixa e prenderam imediatamente a sua atenção. Kassian ergueu-se apoiado nos cotovelos.
— ...a primeira fase da transformação deve começar amanhã — ouviu ele uma voz feminina.
— Doutor Chen, o que é que acha da questão? — perguntou uma voz masculina, que Kassian reconheceu como a do coronel Ashton. — Ele tinha a certeza de que as modificações são arriscadas, especialmente para alguém que esteve...
As vozes desvaneceram-se. Os interlocutores afastavam-se pelo corredor. Kassian permaneceu imóvel, apoiado nos cotovelos na cama, o seu coração batia acelerado, e a pensamento não lhe saía da cabeça: "Transformação? Modificações? Estariam a falar de mim?"
Precisou de alguns segundos para afastar as suas apreensões e concentrar-se novamente em preencher as suas lacunas de conhecimento. Precisava de mais informação.
O ficheiro seguinte, com o qual se deparou, intitulava-se "Modificações Necessárias". Parou e pousou o tablet. Fitou um ponto no teto. Esvaziou a consciência dos pensamentos parasitas invasivos que o empurravam para a impaciência. Inspirou lentamente, depois mais uma vez.
Inseguro se estava pronto, mesmo assim, Kassian selecionou o ficheiro e abriu-o. Os seus olhos arregalaram-se ainda mais ao ler o título principal. Sentiu a pele nos seus braços arrepiar-se. Seguiam-se: manipulações genéticas, implantes neuronais, organismos simbióticos a serem incorporados no corpo... Tudo isso era necessário para tornar o corpo humano capaz de se ligar a um caça lemuriano.
Fechou os olhos.
O corpo humano... até que ponto permanece humano depois disso? Estaria condenado? Haveria caminho de volta após tal manipulação?
Kassian sentou-se bruscamente, sentindo o seu estômago revoltar-se, como se quisesse fugir do seu corpo. Os dedos das mãos agarraram-se à estrutura da cama, o seu estômago contraiu-se dolorosamente. Ia vomitar.
Olhou febrilmente em redor da sala, o pânico apoderou-se dos seus olhos. Não podia permitir expor-se daquela maneira, não aqui, não agora. A cadeira de rodas não o ajudaria. Literalmente, derramou o seu corpo no chão e, com movimentos desesperados, começou a arrastar-se, puxando o seu torso, insensível da cintura para baixo, em direção à casa de banho. Era lento, agonizante e humilhante. Apesar da força nos seus braços e da baixa gravidade, a paralisia da cintura para baixo criava uma dificuldade enorme. Suprimiu as convulsões frequentes no estômago e rezou para conseguir aguentar até à casa de banho.
Com um último esforço desesperado, conseguiu chegar à porta. Ergueu o torso e, com um arremesso do corpo para cima, conseguiu acionar a fechadura sensorial. Mal esperou que abrisse, atirou-se para a frente, fechando a porta atrás de si. Só então se permitiu ceder. O seu corpo foi sacudido por espasmos fortes no chão frio. Conseguiu, de algum modo, abraçar a sanita e as ondas de vómito assaltaram-no. O seu estômago contraía-se dolorosamente, e a bílis amarga queimava-lhe a garganta. Cada músculo nele contraiu-se incontrolavelmente. Gotas de suor frio cobriram-lhe o rosto. Não conseguia recuperar o fôlego. Sentia-se fraco e desamparado. Não conseguia parar aquele ato humilhante. Expeliu o conteúdo do seu estômago, os espasmos diminuíram e Kassian desabou sobre as lajes frias. Os seus pulmões sibilavam, captando golfadas de ar através da sua garganta queimada pelos ácidos estomacais. O corpo, coberto por um suor frio e pegajoso, começou a tremer incontrolavelmente. Lágrimas quentes queimaram caminhos pelas suas faces pálidas, misturando-se com o sabor amargo e ácido na sua boca. Cerrou os punhos, os seus nós dos dedos estalaram.
A pensamento do belo caça que o aguardava agora parecia uma troça cruel. Para pilotar aquela maravilha, teria de sacrificar uma grande parte da sua essência humana – pelo menos fisicamente.
Após alguns minutos, regressou ao quarto. Olhou para o tablet. O seu próprio reflexo no ecrã negro assustou-o – os seus olhos pareciam maiores, mais escuros, o rosto exausto e lívido.
Restavam ainda algumas secções para ler. Parte dele queria atirar o dispositivo para longe, fugir daquela loucura. Mas outra parte — a parte que sempre o empurrara para correr riscos, para voar mais rápido e mais alto — impelia-o a continuar, tal como a pensamento de que talvez pudesse voltar a andar.
Com um suspiro abafado, Kassian ajustou o seu corpo para uma posição mais confortável. A cama rangeu baixinho sob o seu peso, um som que de algum modo o acalmou com a sua simplicidade.
A secção seguinte descrevia a linha temporal prevista. Seis meses. Era o tempo que tinha para se preparar. Seis meses – o tempo que a Terra leva a dar meia-volta ao redor do Sol. Seis meses, para se tornar algo mais do que humano. Será que ele queria isso?
— Raios o partam — murmurou baixinho Kassian. As palavras ecoaram na sala.
Inesperadamente, como se estivesse à espera, o ecrã do tablet piscou e apareceu uma mensagem:
"Para assistente por voz – pressione AQUI."
Kassian não hesitou e colocou o polegar. Quase de imediato, do pequeno dispositivo ecoou:
— Olá de novo, capitão Grey.
— A12? — Kassian reconheceu a voz.
— Exatamente, capitão. — A voz do A12 vibrou no ar de uma forma que Kassian sentia fisicamente, como se as palavras ganhassem densidade na baixa gravidade.
Kassian sentiu centenas de perguntas dispararem subitamente na sua consciência e amontoarem-se, exigindo atenção, criando uma sensação dolorosa de pressão. Mas apenas uma conseguiu encontrar o caminho para os seus lábios:
— Porquê eu?
O avatar holográfico do A12 que apareceu diante dele sorriu ligeiramente, um gesto quase humano. Por um momento, Kassian questionou-se se aquele sorriso não seria simplesmente um reflexo da sua própria confusão na superfície efémera do holograma.
— Porque é o mais adequado. Já discutimos isso.
— Mesmo assim.
— Tens algo de que a GMA precisa – a capacidade de te adaptares, de sobreviveres, de superares os teus limites. — As palavras pairaram no ar.
Kassian abanou a cabeça, não convencido, e sentiu o seu cérebro a chocar contra o crânio, tentando convencê-lo do contrário.
— Essas modificações... vão mudar-me.
— Vais tornar-te algo mais — retorquiu o A12. — Um humano não consegue pilotar um produto da tecnologia lemuriana.
— Há outros pilotos, certo?
— Há.
— E todos passaram por esta... modificação?
— Não, escolheram a outra opção. Todos os humanos até agora decidiram continuar como vampiros. Assim, não precisam de ser submetidos à modificação. — A finalidade da palavra "vampiros" pareceu chocar, refletindo-se nas paredes metálicas da sala e, finalmente, após ricochetear no teto, enterrar-se na consciência de Kassian.
Ele fechou os olhos por um momento. Na escuridão atrás das pálpebras, viu formas e cores. O seu próprio cérebro tentava visualizar o impossível.
— Está bem. Então, neste programa, também há vampiros. — disse ele. — O que é que eu tenho de fazer?
— Tens duas possibilidades. Concordar com as modificações ou tornar-te vampiro.
Kassian fitou o holograma, tentando penetrar para além da interface holográfica. Procurava um significado oculto nas palavras da inteligência artificial. Vampiro? Modificações? A sua voz tremeu ao pronunciar essas palavras, como se elas próprias pudessem desencadear a transformação. Ambas as opções soavam igualmente impossíveis e aterradoras. Sentiu uma nova convulsão no estômago.
— Isto... é um dilema interessante – matar-me ou matar-me. Certo?
— Asseguro-lhe, capitão, que a situação é perfeitamente séria — retorquiu o A12 num tom uniforme. — O nosso tempo é limitado, e a ameaça de Xylar'n é real e iminente. Se assim não fosse, não exigiríamos de si, ou de qualquer um, um sacrifício similar.
Kassian atirou o tablet para a cama e passou a mão pelo seu cabelo despenteado.
— Tornar-me vampiro? Ou ser transformado em... o quê? Um cyborg? — continuou ele, como se não tivesse ouvido as palavras da inteligência. Inclinou o torso e agarrou bruscamente o tablet, brandindo-o na direção do holograma, que se erguia imperturbável no meio do quarto.
— Como raio esperam que eu tome uma decisão destas?
— Tenho consciência de que o volume de informação é demasiado difícil de processar de uma só vez — a voz do A12 soava quase compassiva. — Mas repito – um ser humano comum não pode pilotar um caça lemuriano. A interface mental não consegue ligar-se a um cérebro humano, e são necessárias capacidades físicas, reações e perceções para além dos limites humanos normais. Vou explicar-lhe de forma figurativa. É como colocar um preguiça de três dedos num F35... percebe?
O olhar de Kassian fixou-se na pequena janela do seu quarto e na paisagem lunar cinzenta lá fora. O seu reflexo no vidro parecia quase fantasmagórico. A pensamento de que, a milhares de quilómetros dali, a Terra continuava o seu ritmo normal, completamente alheia à ameaça iminente e ao seu tormento, fê-lo estremecer.
— E os outros pilotos? — perguntou ele, sem se virar. — Como fizeram a sua escolha?
— Como mencionei, escolheram ser vampiros — retorquiu o A12. — Alguns foram muito rápidos, outros nem tanto, mas a escolha foi sempre deles.
Kassian virou-se lentamente para o tablet.
— E o que é que exatamente envolvem essas... modificações? — Sentiu a sua língua a lutar com a palavra "modificações", como se a sua mera pronúncia pudesse iniciar o processo.
O visor holográfico piscou e alterou-se, mostrando um diagrama detalhado de um corpo humano. A luz do holograma refletia-se nos olhos de Kassian, criando a ilusão de um brilho interior. Diferentes partes estavam marcadas e anotadas com termos técnicos que Kassian mal entendia.
— O processo envolve uma série de manipulações genéticas e melhoramentos cibernéticos — começou o A12. — O objetivo é melhorar os teus reflexos, força e resistência para níveis comparáveis aos dos vampiros. Além disso, serão implantadas interfaces neuronais que te permitirão ligar-te diretamente ao caça lemuriano. Saliento apenas que tudo isto é desnecessário para um vampiro.
Kassian sentiu o seu estômago novamente daquela forma nojenta. Recostou-se pesadamente na cama. Os seus olhos permaneceram fixos no diagrama holográfico.
— E a dor? — perguntou ele baixinho. — Quão... intenso é o processo?
— Não vou mentir-lhe, capitão — retorquiu o A12. — O processo é extremamente intenso... — Perante estas palavras, os pelos na nuca de Kassian eriçaram-se. O seu corpo ainda se lembrava da agonia do acidente e do longo processo de recuperação. Estremeceu, antecipando a dor.
— Aplicamos métodos de controlo da dor e de aceleração da recuperação. Por isso, não é preciso preocupar-se nesse aspeto.
Kassian fechou os olhos, a processar a informação. Quando os reabriu, ardiam com o fogo da curiosidade, misturado com centelhas de medo.
— E se eu escolher tornar-me vampiro? O que é que isso envolve?
O holograma alterou-se novamente, desta vez mostrando uma comparação entre a fisiologia humana e a vampírica.
— O processo de conversão em vampiro é mais rápido, mas não menos intenso — explicou o A12. — Receberás força, velocidade e resistência sobre-humanas. Além disso, terás a capacidade de te regenerares rapidamente de ferimentos. Mas há desvantagens.
— Como por exemplo? — perguntou Kassian, embora parte dele não quisesse saber a resposta.
— Precisarás de pequenas quantidades de sangue humano, se quiseres manter essas capacidades nos níveis elevados necessários — retorquiu o A12 impassível. — Além disso, tornar-te-ás fortemente alérgico à prata. E, claro, serás teoricamente imortal.
Kassian sentiu a cabeça a andar à roda. Mexeu o corpo, precisando de movimento para fugir à pressão da decisão.
— Voltarei a andar?
— Em ambos os casos.
— E tenho de escolher agora? — perguntou ele com uma voz quase impercetível.
— Não imediatamente — retorquiu o A12. — Mas em breve. O tempo é limitado, e o processo de adaptação levará tempo, independentemente da tua escolha.
Kassian acenou com a cabeça em silêncio, a calcular as suas possibilidades. Virou-se inconscientemente para a janela, a olhar fixamente para a distância, onde a Terra era apenas uma bela esfera azul acima do horizonte negro.
— Posso falar com quem passou pelo procedimento... alguns dos outros pilotos? — perguntou ele baixinho. — Gostaria de ouvir sobre a sua experiência e os seus motivos para a escolha.
— Claro — retorquiu o A12. — De manhã, no briefing. Terás oportunidade de colocar as tuas perguntas e obter uma perceção mais clara.
Kassian acenou, sentindo uma onda de alívio que contrastava fortemente com o peso da decisão que o aguardava. Pelo menos, não tomaria essa decisão completamente às cegas.
— Está bem — disse ele. — Falarei com eles e depois decidirei.
— Uma decisão sábia, capitão Grey — retorquiu o A12. — Agora sugiro que descanse. O dia de amanhã será longo.
— E se não escolher nenhuma das possibilidades? — a resposta a esta pergunta naturalmente também o preocupava.
— Com essa decisão, acordará no dia seguinte no seu pequeno apartamento, na cama, ao lado da cadeira de rodas, sem memória de nada disto.
— És horrível. — Kassian deitou-se, sentindo-se exausto tanto física como emocionalmente. Fechou os olhos, tentando acalçar o turbilhão de pensamentos.
— Objetivo. — O holograma desligou-se com um ligeiro estalido.
O sono não vinha a Kassian. Na escuridão do quarto, imagens holográficas dançavam diante dos seus olhos fechados: vampiros com dentes brilhantes e velocidade sobrenatural. Cyborgs com implantes metálicos e olhos luminosos. E por detrás de tudo isso – a sombra de Xylar'n, ameaçando engolir tudo.
"A alternativa é o tédio..."
Kassian virou-se para o outro lado, procurando uma posição mais confortável na cama lunar. Amanhã seria um novo dia. Amanhã encontraria os outros pilotos e aprenderia mais. Deitado ali, no silêncio da noite lunar, uma pensamento regressava repetidamente:
"A terceira possibilidade não é para mim, e as restantes... seja qual for a que escolher, já não serei eu... talvez seja melhor assim."