Excerpt from Dois Mundos

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CAPÍTULO 1

"...sofrimento e miséria — você se depara com uma escolha difícil. O que é mais perigoso para o dia do que a tempestade de sentimentos..."

Pouco antes da tempestade chegar, a coluna de cavaleiros conseguiu se abrigar em uma pequena fazenda nos arredores da cidade, localizada ao pé de uma colina coberta por árvores centenárias. Eles pediram educadamente ao fazendeiro que os recebeu por um teto e receberam o celeiro. Nada mais. Era o suficiente. Exaustos após dias de marcha acelerada, estavam no limite de suas forças.

Rapidamente fizeram espaço entre a palha e desataram a maca improvisada. A mulher sobre ela gemeu, mas não abriu os olhos.

Sua condição piorava a cada momento. Ela precisava de um curandeiro, e um bom. Os esforços de um simples enfermeiro rural não seriam suficientes. Eles tinham certeza de que encontrariam ajuda na cidadezinha, a apenas uma hora de cavalgada, mas a tempestade que se aproximava os forçou a desviar e buscar abrigo.

O mais jovem dos cavaleiros ajoelhou-se ao lado da maca e levou uma cantil aberta, cheia de água, aos lábios rachados e quase desbotados da mulher.

— Beba! — Ele a incentivou com uma voz levemente rouca. Sua mão, segurando a cantil, tremeu quase imperceptivelmente quando a mão fraca da mulher a tocou. Os dedos brancos como giz envolveram levemente sua mão calejada, como se buscassem um pouco de seu calor. Sua cabeça moveu-se levemente em um gesto de relutância.

O homem estendeu a mão livre para o bolso interno de sua jaqueta de couro e tirou um lenço pequeno, mas limpo. Molhou-o com a água da cantil e começou a umedecer os lábios dela com movimentos cuidadosos, quase carinhosos. A mulher tentou abrir os olhos. Não conseguiu. Pelas fendas que se formaram por um instante, podiam-se ver suas pupilas dilatadas, mas então as pálpebras se fecharam, pesadas, deixando passar apenas uma pequena lágrima.

— Como ela está? — Um homem mais velho, vestido de forma idêntica ao mais jovem, aproximou-se. A única diferença em suas roupas era um chapéu de couro de aba larga que repousava com dignidade sobre sua cabeça. Era algo como uma extensão dele mesmo e nunca se separava dele. Ele o mantinha levemente inclinado para frente, de modo que seus olhos não eram visíveis.

Para os mais observadores, no entanto, não passaria despercebida a cicatriz profunda que cortava sua testa de ponta a ponta. A ferida, já curada há muito tempo, deixara uma marca profunda e pálida que contrastava com seus olhos castanho-escuros. Seu rosto era desprovido de pelos. Não tinha sobrancelhas, cílios, e sob o chapéu, seu couro cabeludo brilhante não ostentava um único fio de cabelo.

Ele usava uma capa que envolvia seus ombros largos e caía até o chão. No entanto, ela não escondia seu peito musculoso, que se destacava sob a jaqueta de couro levemente aberta. Com uma pele quase juvenil, marcada apenas por duas pequenas cicatrizes, ele não tinha a típica barba de um homem. Todas essas características lhe renderam o apelido de "A Serpente", que ele carregava com orgulho.

— Não está bem, Serpente. — O jovem levantou os olhos para o homem e balançou a cabeça. — Ela precisa de um curandeiro, e rápido. Não sei se ela sobreviverá mais um dia.

— A tempestade está chegando e não podemos continuar. Ela terá que aguentar. — Com uma voz que mal transparecia esperança, o homem declarou e ergueu o olhar abruptamente para o barulho de passos que vinha de fora.

A pequena porta lateral do celeiro abriu-se, impulsionada pelas rajadas de vento cada vez mais fortes, e o fazendeiro entrou apressadamente. Um homem de meia-idade, com cabelos desgrenhados amarrados em uma cauda. Sua túnica simples estava presa na cintura, sob uma leve barriga, com uma corda grossa. Ele segurava uma bengala, grossa na extremidade, onde havia um cabo de madeira esculpido.

— Temos um problema! — Ele quase chorou.

— Qual? — A Serpente aproximou-se dele, soltando levemente a mão direita sobre o cabo da faca enfiada em seu cinto.

— Minha mulher viu um grupo de cavaleiros vindo atrás de vocês. Reconheceu o líder pelo manto laranja.

— E daí?

— São assaltantes da estrada, senhor! Eles virão para cá. Não vão nos ignorar nesta tempestade. — O fazendeiro falou assustado, quase gritando.

A tempestade lá fora já havia começado. O vento trouxe as primeiras gotas de chuva, poucas, mas grandes.

— Eles já vieram aqui antes, se sua mulher os reconheceu. — A Serpente foi cercada pelos outros quatro que vieram com ele. — Você vai lidar com eles. Você os conhece.

— Não sei, senhor. Eles vão querer entrar aqui, não há outro lugar para quinze homens com cavalos.

A Serpente sorriu maliciosamente.

— E por que você está preocupado, meu bom anfitrião? Deixe-os vir.

— Eu não quero problemas. — O fazendeiro ficou tenso.

— Nós também não.

— Mas, senhor, é óbvio que vocês são guardas honestos de uma caravana. Eles não vão gostar de vocês. Vocês sabem como eles são. — O fazendeiro continuou insistindo. — Eles são sanguinários, pode acreditar.

— Nós os conhecemos. — A Serpente sorriu. — E o que você sugere? Que saiamos pela porta dos fundos para a tempestade? É essa a sua hospitalidade, anfitrião? — Seu tom ficou mais firme, e a capa se moveu levemente, revelando uma espada longa em uma bainha de metal.

— Oh, não, não, senhor! Eu imploro! — O fazendeiro agitou a mão livre diante de si. — Eu só estou avisando. Vocês que sabem.

— Calma, anfitrião. Se eles quiserem, que venham. No momento, não estamos em serviço. — O olhar da Serpente fixou-se no fazendeiro, deixando-o ainda mais perturbado.

— Sim, senhor, como quiser. — O fazendeiro virou-se abruptamente. Ele não queria ficar mais um segundo. Saiu para fora.

— Rapazes! — A Serpente acenou para os outros. Eles, como se fosse um comando, espalharam-se pelo celeiro, ocupando silenciosamente os melhores pontos de defesa. A Serpente e o jovem, que orgulhosamente carregava o nome de Mladen, permaneceram ao lado da maca. Um minuto depois, os primeiros assaltantes entraram no celeiro.

O celeiro era grande, mas com quinze homens e seus cavalos, ficou apertado. Os assaltantes, um grupo heterogêneo de pessoas vestidas com trapos, eram uma mancha colorida diante dos guardas quase uniformizados. Entre eles, destacava-se um homem alto e magro, envolto em um manto laranja, como o fazendeiro havia descrito. Apesar de remendado, o manto estava bem cuidado e sem sinais de sujeira. Chegando até os joelhos de quem o usava, revelava apenas botas de couro em excelente estado e esporas de prata.

— Boa noite... — O alto olhou avaliando os homens ao lado da maca e acrescentou, terminando sua saudação com uma voz levemente metálica. — ...guardas! O fazendeiro não mencionou que teríamos a honra de compartilhar o mesmo teto com guardas de caravana.

— Boa noite. — A Serpente respondeu calmamente. — O tempo lá fora está ótimo, não está?

O homem alto olhou para ele com olhos cinza vítreos. Seu rosto marcado por uma série de pequenas cicatrizes não se moveu.

— Não vejo sua caravana.

— Não estamos trabalhando. Estamos voltando para descansar. — A expressão gelada da Serpente não era inferior à do assaltante.

— É mesmo? — O líder do bando colorido levantou lentamente a mão esquerda, apontando para a maca. — Ferida?

— Sim.

O assaltante inclinou-se levemente para o lado, para ver melhor a maca.

— Oh, oh, oh! — Ao ver a mulher, seu rosto se transformou, e seus lábios finos se esticaram em um sorriso desdenhoso. — O que meus olhos veem?

Ele virou-se para o grupo atrás dele, vestidos com trapos e com as expressões mais sombrias possíveis.

— Vejam só o presente que o destino nos trouxe! — Ele apontou para a maca. Os homens murmuraram, mas de suas posições não conseguiam ver bem. O corpo de Mladen bloqueava suas vistas, impedindo que vissem a maca.

— Não estão vendo? — O líder levantou a voz. — Não?! Bem, então. Deixe-me apresentar. Oh, que honra! — Ele fixou os olhos no rosto da Serpente.

— Temos a honra de compartilhar o mesmo teto com a própria Mayan Li, amigos. — O burburinho atrás dele aumentou. Ouviram-se exclamações que, em segundos, se transformaram em xingamentos. O bando colorido se agitou. Até o som de armas sendo sacadas foi ouvido.

— O que posso dizer, senhores? — O alto olhou novamente para a Serpente. — Meus homens adoram a cadela. Ela nos fez derramar muito sangue ao longo dos anos.

— O que posso dizer, senhor. — A voz sibilante da Serpente respondeu. — Nós também adoramos nossa cadela. Derramamos muito sangue ao longo dos anos.

Foi como apertar o gatilho. Suas palavras foram seguidas pelo som metálico de espadas sendo desembainhadas, gritos, pisadas, o estalar de cordas de arco e o zumbido de flechas sendo disparadas, seguidas pelo som surdo de flechas encontrando carne. Gritos e berros de batalha. Tudo se misturou. O celeiro ficou cheio de corpos humanos, brandindo todo tipo de aço e madeira, e principalmente sangue, que encharcava o feno velho nas pilhas.

Lá fora, encostado na parede do celeiro, agachado no chão, o fazendeiro segurava a cabeça com as duas mãos. Atordoado pelos sons do que estava acontecendo, ele balançava, levemente em estado de choque. Seus olhos, bem abertos, moviam-se em suas órbitas, indo para a esquerda e para a direita sem parar em nada específico. Cobrindo os ouvidos com as mãos, como se tentasse fugir da realidade do que estava acontecendo. Os sons gelantes da fazenda superavam até o barulho da tempestade e não diminuíam.

Uma pensamento claro passou pela mente do fazendeiro. Ele decidiu fugir. Decidiu se esconder na casa e, de lá, rapidamente se trancar no porão com sua esposa e dois filhos. Ele se levantou, decidido a fugir, mas seus olhos captaram uma enorme sombra negra, vindo em sua direção através da cortina de chuva torrencial. Ele deu um passo impossível para trás. Escorregou.

Suas mãos apoiaram-se no chão lamacento, e suas costas tentaram se fundir com a parede de madeira do celeiro. Seus olhos se arregalaram, e seus ouvidos pararam de ouvir qualquer coisa, abafados pelo ritmo frenético de seu coração.

Uma enorme focinho de cachorro parou a milímetros de seu rosto. O nariz úmido do animal impossivelmente grande moveu-se. O hálito quente da fera o envolveu. Cheirou-o. Depois novamente. Olhos amarelos fixaram-se nele. Engoliram-no. Pálpebras pesadas caíram uma vez... duas vezes. Então o animal congelou.

Um rosnado baixo e profundo surgiu do peito da fera. Então, abruptamente, o nariz, seguido por uma boca cheia de dentes brancos enormes, levantou-se e farejou o ar saturado de umidade. De repente, tudo acabou para o fazendeiro. O animal empurrou-se com suas poderosas patas e saltou para o lado do homem. Suas garras descalças enterraram-se na lama macia, permitindo que o corpo pesado disparasse em direção ao celeiro.

Sem diminuir a velocidade, o cão de guarda arremeteu contra a porta lateral levemente aberta. Seu corpo poderoso a fez em pedaços e entrou com um estrondo. O fazendeiro não esperou. Ele não queria ouvir. Não queria ver. Ele só queria uma coisa — fugir. Escorregando e caindo, rastejando nas poças lamacentas de seu quintal, ele se perdeu na chuva em direção à casa.

E os sons vindos do celeiro ganharam nova força e cores sangrentas. Era como se todo o prédio estivesse tremendo com rosnados profundos e furiosos, gritos e sons repugnantes de carne rasgada, seguidos por gritos abafados de horror. O relinchar frenético de cavalos, o tropel de cascos.

A grande porta de duas folhas do celeiro tremeu várias vezes. De dentro, os cavalos, tomados pelo terror primitivo, quebraram as tábuas grossas de madeira. A madeira grossa rachou com um estalo, e as folhas da porta voaram para fora. Encontrando uma saída, os animais, empurrando-se uns aos outros, cobertos de espuma rosada, deixaram o celeiro em pânico. Correram pelo quintal, pularam a cerca baixa e desapareceram na cortina de chuva. Logo, o som de seus cascos se perdeu no rugido da tempestade.

Então tudo ficou quieto. De repente, abruptamente. Exatamente quando os sons do celeiro atingiram seu ápice histérico, foram cortados, interrompidos e acabaram. A tempestade cobriu tudo com o manto de seu rugido trovejante.

Dentro, havia um sobrevivente. Apoiado em um joelho e apoiado em sua espada, a Serpente estava de pé, de costas para a maca de Mayan, e não tirou os olhos da enorme fera. Todo ensanguentado, grande parte do sangue não era seu, o homem respirava com dificuldade. Seus olhos haviam perdido a cor natural e se transformado em carvões negros, repousando em um leito sangrento. Sua cabeça careca, sem a proteção do chapéu, estava cortada em vários lugares. De sua capa, nada restara, e a camisa ainda conseguia cobrir pelo menos um ombro e parte do abdômen.

— O que você é? Para trás, fera! — Ele sussurrou fracamente. Ele havia testemunhado a fera arremeter e, em menos de meio minuto, rasgar e matar os assaltantes ao seu redor. Pouco antes, ele vira a morte de seus companheiros. Todos tentando proteger a patroa da caravana.

Por que eles deviam isso a ela? Será que deviam? Então, enquanto repeliam os ataques de vários assaltantes enlouquecidos, ele se fez essas perguntas. No próximo golpe, ele respondeu a si mesmo. "Sempre e tudo." Para cada um deles, Mayan Li não era apenas a patroa da caravana para quem vendiam seus serviços. Não! Ela era a pessoa que ajudou cada um deles a se levantar de seus dramas pessoais, a superar o fardo que pesava sobre seus ombros e a dar-lhes um propósito e uma razão para viver. Ela havia falado com cada um ao longo dos anos. Ele a vira em ação quando novos desgarrados chegavam. Sabia dos esforços que a patroa da caravana fazia por cada um. Sabia das conversas noturnas, dos diálogos diurnos... de tudo. Por ela, tudo!

Ainda assim, doía terrivelmente ver seus amigos caírem sob o ataque daqueles miseráveis maltrapilhos. Então, pouco antes da fera aparecer, a Serpente sentiu que seu fim estava próximo. Doía, e ele não tinha forças. Então, como um trovão, como fogo do inferno, aquele cérbero arremeteu e os esmagou. Literalmente. Uma nuvem escura de sangue. Ele foi tomado por um terror quase religioso. Era como se visse uma fera saída diretamente das escrituras sagradas, vinda para punir os mortais. Ele não queria se lembrar dos detalhes. Era horrível. Nem mesmo para seus inimigos ele desejaria aquilo. Deixou em sua memória apenas um redemoinho negro e respingos de sangue. Apagou os detalhes na tentativa de preservar sua sanidade.

— O que você é? — Novamente, e baixinho, quase sussurrando, a Serpente sibilou.

Seus olhos manchados de sangue não conseguiam focar. Ele limpou os respingos de sangue do rosto com o que restava de sua manga. Reuniu as últimas faíscas de coragem e ergueu o olhar. Na penumbra do celeiro, ele olhou para a fera infernal. Quase caiu de nádegas feridas de surpresa quando reconheceu na bola peluda e musculosa de sangue diante de si um Devorador de Homens dos Montes Verdes.

— Você?! — O enorme cão sentara-se sobre as patas traseiras e o olhava com a língua para fora. Seus olhos, amarelos e úmidos, pareciam zombar dele. Com o reconhecimento veio o alívio. O homem de alguma forma se acalmou. Ele já havia encontrado aquele cão infernal uma vez e, por algum milagre, ele também viera ajudar naquela ocasião. Ele se lembrou claramente de como o Curandeiro e a pequena guerreira quase o abraçavam. Ele se lembrou de como o Curandeiro apontara Mayan para o Devorador de Homens.

Percebendo que o homem estava calmo e não era mais uma ameaça, Roshko levantou-se lentamente e, inclinando a cabeça, dirigiu-se para a maca, movendo as orelhas para lá e para cá. Ele alcançou o homem, que respirava em paz. Parou. Inclinou a cabeça e farejou a mão dele, apoiada no cabo da espada. Memorizou o cheiro. "Guardião" ficou gravado em seu cérebro. Passou por ele. O homem, incapaz de suportar mais a tensão nervosa, começou a chorar. Roshko parou ao lado da maca.

Farejou. "Ela, a Sangrenta", "Amiga". Sim, era ela, mas o aroma dela estava fraco e frio. A vida parecia escorrer dela. Ele inclinou a cabeça e enterrou o focinho em suas roupas.

— Pare! — A Serpente assustou-se, pensando que a fera rasgaria a mulher indefesa. Ele não pensou realmente nisso, mas reagiu impulsivamente às ações do animal.

O Devorador de Homens não lhe deu atenção. Seu nariz havia detectado a causa. Ele identificara de onde a vida de "Ela, a Sangrenta" escapava. Ele precisava pará-la.

E o cão fez o que fazia com suas próprias feridas. Com dois empurrões cuidadosos com a cabeça, ele conseguiu virar a mulher desmaiada de bruços. Com os dentes, ele removeu cuidadosamente os trapos malcheirosos e ensanguentados que haviam sido colocados sobre a ferida em suas costas.

Ele bufou de nojo e deu um passo para trás quando o cheiro de carne podre e pus escorrendo o atingiu. Mas essa era "Ela, a Sangrenta" e era Amiga. Ele superou isso e voltou. Começou a passar a língua pela ferida. Exatamente como fazia com suas próprias feridas. Lentamente e com cuidado. Ele se esforçou para liberar a quantidade máxima de saliva de sua boca seca e continuou.

Logo a ferida estava limpa de tecido morto. Ele pressionou a língua com mais firmeza contra a ferida. O pus repugnante cessou. Ele continuou. Perdeu a noção do tempo, mas não parou. Parou apenas quando a mulher gemeu.

Ele levantou a cabeça e olhou ao redor. Seus ouvidos captaram o som agradável da chuva. Não era mais a tempestade furiosa, mas um leve murmúrio de gotas finas e calmas. A tempestade havia passado. Seus olhos viram a luz do nascer do dia filtrando-se pelas tábuas do celeiro. Seu nariz detectou uma fumaça que subia em direção ao teto alto. Ela se acumulava lá em cima e lentamente escapava pelas frestas entre as tábuas.

O homem acendera uma pequena fogueira em um quadrado limpo de palha no chão. Ele havia retirado os pedaços dos cadáveres que Roshko deixara para trás. Ele próprio estava sentado com as pernas cruzadas do outro lado do fogo, olhando fixamente para Mayan.

Um balde de água ao lado do homem chamou a atenção do cão. Ele percebeu o quanto estava com sede. Levantou-se. Deu um passo, dois, e sentiu a tensão do homem.

Parou. Olhou para ele por um segundo, dois, e sacudiu o corpo vigorosamente, tentando mover o sangue e remover a sujeira que grudara em seu pelo. Colocou a língua para fora e foi lentamente até o balde. Farejou a água. Limpa, da chuva. Olhou novamente para o homem e começou a beber lentamente da água doce e fria. Bebeu por um longo tempo. Quase esvaziou o balde.

Ele levantou a cabeça e olhou para Ela, a Sangrenta. Talvez devesse mudar o nome dela. Ela não sangraria mais. Ele precisava virá-la de lado, mas antes a ferida precisava ser lambida um pouco mais.

O Devorador de Homens aproximou-se de Mayan, dobrou as patas e deitou-se sobre elas. Lambeu o focinho e começou a esfregar diligentemente sua saliva curativa na ferida. Ela começara a cicatrizar.

CAPÍTULO 2

"...Banhado no poder da simples vaidade humana, com um chicote que traçava um sulco nas costas, fitando a borda..."

O encontro deveria ocorrer em um pequeno pavilhão no meio de um campo exuberante, no coração de um amplo cinturão de árvores que cercava um povoado de nome sonoro: Canari. Essa era a primeira cidade no caminho após a Escada. Com seus quase sessenta mil habitantes, Canari era a terceira maior cidade de Briest e havia se tornado a capital administrativa não oficial.

O encontro foi planejado para não pressionar o Curandeiro, predispondo-o a uma conversa franca, sem o assustar com administradores e afins. Mas ele não aconteceu.

— Eu cometi um erro. Perdoe-me! — Mikael inclinou a cabeça. Tremia de tensão. Carregar o corpo o havia exaurido ao extremo, mas não foi isso que o derrubou, e sim o sentimento de culpa. Ele se considerava responsável pelo que acontecera. Durante todo o caminho, não conseguia tirar da cabeça a ideia de que foram suas revelações ao professor que levaram a esse desfecho.

— O que está feito, está feito. Não podemos voltar no tempo. Talvez o erro seja meu. — A bela jovem estava de pé ao lado do homem preocupado e observava os funcionários do serviço de saúde, chamados para ajudar, colocarem o corpo de Nolan Storr em uma maca e partirem rapidamente de volta para a cidade.

— Por favor, siga-me! — A jovem, vestida com um vestido azul-escuro que chegava aos tornozelos, justo ao corpo elegante, com um decote largo e profundo, acenou para Mikael. A dama não hesitou em montar o cavalo branco, cujas rédeas ela segurava. O movimento revelou longas fendas no vestido, de ambos os lados, que chegavam acima da metade das coxas. Suas belas pernas estavam cobertas por meias finas da mesma cor do vestido, tão finas e justas que destacavam cada músculo de sua anatomia impecável. Ela usava botas de couro macio com cadarços, que chegavam até os joelhos. Colocou os pés nos estribos com habilidade e esporeou o cavalo. Suas costas permaneceram eretas na sela, e seus cabelos negros luxuosos se espalharam até as costas do animal. Uma fina tiara de ouro com uma pequena pedra azul no centro destacava a severidade de seu olhar. Ela não se virou para olhar para Mikael. Era evidente que estava preocupada, até mesmo irritada.

Uma leve ruga apareceu em sua testa lisa quando Mikael surgiu carregando o corpo, e quando ele contou rapidamente o que acontecera, o brilho em seus olhos ganhou uma força quase mortal. Ela não disse nada. Então, simplesmente acenou com a mão e rapidamente chamou dois guardas que pareciam ter surgido do nada. Quando eles se curvaram e responderam às suas ordens com "Sim, Profetisa", o último vestígio de sangue desapareceu do rosto de Mikael. A vermelhidão causada pelo esforço de carregar Storr transformou-se, como por milagre, em uma palidez doentia, e as gotas de suor em sua testa quase congelaram.

Quando o chamaram para atribuir-lhe essa tarefa incomum de acompanhar um novato da Escada, disseram-lhe exatamente para onde levá-lo. Disseram-lhe o nome "Nolan Storr" e que o encontro seria com uma pessoa importante. Mikael não poderia imaginar que essa pessoa importante seria a própria Profetisa. Ele a vira anos atrás. Naquela época, seu corpo era o de uma mulher mais velha. Ele estivera presente em uma de suas palestras e ficara cativado por suas palavras. Ainda se lembrava do que ela dissera naquela noite ao redor da fogueira, cercada por ouvintes. Ela falava sobre política. Quase não a entendera. A palestra começara muito antes de sua chegada, mas ele lembrava de cada palavra.

"...Sem nos aprofundarmos muito ou usarmos palavras rebuscadas, direi apenas que a ciência política nos dá conhecimento sobre os assuntos do Estado. Por que é importante? Porque ela lida com o sistema político, que é o subsistema coordenador dos outros três subsistemas das sociedades. Esses são os subsistemas econômico, social e espiritual. Você vai dizer: 'Para que me serve isso?' e vai dar de ombros, convencido de que não vai se envolver com isso. Se você não se envolver com isso, então não vai participar da coordenação do subsistema produtivo, e os fluxos de dinheiro que circulam ali vão parar no bolso de outra pessoa, não no seu. Se você não participar da coordenação do subsistema social, as instituições sociais funcionam de forma a não proteger seus interesses, mas os interesses de outras pessoas. Certo? É por isso que outras pessoas correm, vêm da Igreja ou de outros reinos para coordenar seu subsistema social. Se você não participar da coordenação do subsistema espiritual, que já deixou para a Igreja e
ela se enraizou nele, então não há por que se surpreender quando valores morais que você não gosta começam a ser enfiados em seu rosto. E como proteger seus interesses? Entenda que o subsistema político regula o funcionamento e a interação dos outros subsistemas. Essa é a situação. E será assim enquanto a política estiver no pedestal. Quando, porém, ela for derrubada e a Igreja ascender, dominando a política e impondo a pseudopolítica de seus dogmas, então será outra coisa.

Quando é a política, as coisas acontecem suave e gradualmente, mas quando os dogmas da Igreja são empurrados para a frente, então as rédeas são assumidas pela Inquisição. Os chineses de Lá disseram que há uma unidade entre Confúcio e Kung Fu Tzu. Verdade, em outra ocasião, mas aplicável aqui também. Aqueles que estudam a história de Lá sabem do que estou falando.

E para não esquecermos nosso mestre das sombras da história, que disse que as pessoas são ingratas, inconstantes, hipócritas, traiçoeiras, preferem evitar perigos, são insaciáveis por ganhos. Eles vão virar as costas para você se acharem que podem escapar...

Soa familiar, não é? Qual é a lição? Eu diria que o amor tem uma influência limitada na política do mundo de hoje. Na política, você deve ser respeitado. Substituímos a palavra medo pela palavra respeito, mas saiba que eu gostaria de usar a palavra medo. Não é tão importante ser amado na política. O importante é ser respeitado. Então, chega por hoje."

Aquela mulher severa impressionara Mikael na época, mas agora o gelava. Ele seguiu-a obedientemente, dominado por sua culpa e pela aura de poder dela. Não havia mais nada que ele pudesse fazer. Ele não podia.

O frio da sala de reuniões não podia ser alterado pelo interior aquecido e pelas grandes janelas ensolaradas. Ele era alimentado também pelas expressões sombrias dos três presentes. Dois deles, a Profetisa e o Administrador Chefe de Briest, David Sol, estavam sentados em cadeiras estofadas com encostos altos, e o terceiro, em pé diante deles, respondia às suas perguntas. A cada resposta de Mikael, os rostos dos ouvintes ficavam cada vez mais sombrios.

— Estou entendendo corretamente? Você reconheceu no Sr. Storr seu psiquiatra supervisor de Lá, o professor Nikolai Vidov?

— Sim. O professor Vidov é meu psiquiatra supervisor em Lá. Estou inscrito em seu grupo. Um homem incrível. Conhecido...

— E você decidiu informá-lo sobre isso?

— Lamento por isso. Foi um impulso que não consegui ignorar. Não consegui responder à pergunta de como ele poderia estar Aqui. Até pensei que ele estivesse infiltrado entre os curandeiros. Disseram-me para acompanhar um novato. Pensei que Nolan Storr fosse uma criança. Mas ele era um homem de trinta e poucos anos e um curandeiro. Entende minha confusão. Descrevi a conversa. Errei ao perguntar sobre o nome dele em Lá.

— Descreva-me exatamente o que aconteceu depois que você lhe disse isso. — O olhar severo do homem de cabelos brancos o perfurou. Não havia compaixão, nenhum sinal de tato. O Administrador exigia respostas diretas.

— Ele simplesmente desmaiou. Sem som. Desmaiou. Vi seus olhos e ele caiu. — A memória era muito fresca para Mikael, e ele estremeceu novamente.

— Você acha que o professor não é autista. — O Administrador ajustou seu corpo seco na cadeira que de repente se tornou desconfortável.

— Estou completamente convencido de que meu psiquiatra não é autista. — Mikael levantou o olhar e enfrentou os olhos cristalinos do homem.

— Por quê...? — A pergunta foi interrompida por uma batida na porta. Um segundo depois, as duas folhas da porta se abriram, e o secretário do Administrador tentou anunciar:

— Kira abnat Nash Vasion min ahl Brie... — Ele não conseguiu terminar a apresentação da mulher que entrou rapidamente. Quase foi empurrado com rudeza. Kira ficou de frente para ele e o encarou com um olhar frio. O secretário apressou-se a fechar as portas atrás dela. Ela virou-se abruptamente para os três na sala e, com passos rápidos, dirigiu-se a eles.

— Você não foi convidada para esta reunião, Comandante. — O Administrador levantou-se de sua cadeira.

— Ex-comandante, Sol! — Cortou Kira. — E não preciso de convite para estar aqui. Você vai me explicar o que está acontecendo e por que Nolan está deitado no hospital do Senado?

Ela aproximou-se da mesa da Profetisa sem tirar os olhos do Administrador Sol. Ajoelhou-se demonstrativamente diante da mesa da Profetisa. Pegou a mão que lhe foi estendida e a levou à testa inclinada.

— Estou feliz em vê-la novamente, Profetisa. Você escolheu um invólucro surpreendente.

— Por que tanto cinismo, Kira? Você sabe que isso não é apenas um invólucro, e não fui eu quem o escolheu. Os serviços são responsáveis por isso. Nem todos têm sua liberdade e oportunidades.

Kira olhou para ela suavemente, mas Olana De Rur, a Profetisa de Briest, viu as chamas reprimidas em seus olhos.

— O que aconteceu com Lia abnat Nash foi um erro. — O Administrador interveio, mas depois que os olhares de ambas as mulheres quase o empurraram de volta para a cadeira, ele parou.

— O que aconteceu com Lia abnat Nash foi uma escolha dela, não minha. — Kira levantou-se sem tirar os olhos de Sol. — Seu dom era imenso, e é uma honra para mim carregar seu fardo, Administrador.

— Não nos reunimos para mexer nessa ferida. — A voz suave de Olana interrompeu a batalha verbal que se avizinhava. Ela já testemunhara as guerras verbais entre esses dois várias vezes e não queria presenciar mais uma. Não agora.

— Kira. Por favor, sente-se ao meu lado! — Ela apontou para a cadeira ao seu lado.

— Resumindo. — Continuou Olana. — O Arquivista Mikael foi designado para acompanhar o Curandeiro a um encontro preliminar comigo. — O Administrador mexeu-se novamente em sua cadeira. Esse "encontro preliminar" era claramente uma ultrapassagem de sua autoridade, e a revelação de Olana não o agradava. Ele era categórico em seu desejo de que o Curandeiro fosse levado ao Senado, onde ele e a Profetisa o interrogariam.

— Durante a transição, Mikael descobriu que o Curandeiro era seu psiquiatra supervisor em Lá e agiu precipitadamente, revelando sua identidade. O Curandeiro desmaiou e já faz várias horas que não recupera a consciência.

— Dificilmente é uma coincidência a quem você pediu para acompanhar Nolan. — Kira olhou para ela com avaliação.

— Claro que não. — O sorriso quebrou as feições da Profetisa, e Kira viu a velha Olana sob a máscara do rosto jovem. — Eu enviei Mikael de propósito.

— Por quê, se posso perguntar? — Sol virou-se levemente para os outros sentados ao seu lado.

— Porque eu esperava que ele fosse provocado.

— Explique.

— Foi-me dito o nome de Lá. — A Profetisa acenou para Kira, que concordou, também acenando. — O professor Vidov é uma estrela em sua guilda, e seus trabalhos relacionados a pesquisas sobre autistas são leituras interessantes. Há algum tempo, li grande parte deles e sabia que o professor supervisionava grupos de autistas adolescentes. Esse conhecimento foi confirmado por você, Kira, como paciente do professor.

Mikael, que todos haviam esquecido que estava presente, levantou a cabeça abruptamente, e seu olhar surpreso fixou-se em Kira.

— E você? Eu não sabia.

— Há muitas coisas que você não sabe, Mikael. — Kira sorriu calorosamente para ele. — Em Lá, sou mais velha que você e estou em um grupo diferente.

— Mas como todos sabem tudo sobre mim, e eu não sei nada?

— Não seja infantil, Slav. — A Profetisa olhou para ele severamente. — Esta é apenas sua primeira vida em Bória. Há muito para aprender sobre nossos segredos. E quanto ao conhecimento sobre você... bem, você mesmo descreveu tudo. Está no arquivo. Como arquivista da administração do precioso Administrador Sol, você deveria entender claramente do que estou falando.

A Profetisa referia-se ao fato de que todo recém-chegado a Briest descrevia detalhadamente tudo sobre sua personalidade em Lá, assim como seu passado em Bória. Tudo isso era mantido em um arquivo ao qual nem todos tinham acesso completo.

Uma nova batida na porta, desta vez mais forte, ecoou pela sala. As cabeças dos quatro voltaram-se para lá. As folhas da porta abriram-se, e o mesmo secretário anunciou:

— À sua disposição, e a seu pedido, o Curandeiro Nolan Storr.

Na sala, entrou Nolan. Barbeado, penteado e vestido com a túnica cinza longa quase típica de todo curandeiro, com um capuz branco. Ele mantinha as mãos cruzadas diante do peito, completamente cobertas pelas mangas largas da túnica. Aproximou-se dos que o esperavam com passos suaves e firmes. Parou diante do grupo. Acenou para Mikael.

— Mikael. — Sua voz soou suave e segura. Seu olhar fixou-se em Kira.

— Respeitável Kira abnat Nash Vasion min ahl Briest. — Sua cabeça inclinou-se levemente em uma reverência. Olhou atentamente para a Profetisa. Seus olhos brilharam com aprovação, mas escureceram ao encontrar os do Administrador Sol.

— Não tenho a honra de conhecê-los, mas, a julgar pelo luxo ao nosso redor, vocês são as pessoas que governam este lugar. — Inclinou-se ainda mais.

Kira levantou-se e rapidamente aproximou-se do Curandeiro. Abraçou-o levemente e sussurrou-lhe quase imperceptivelmente.

— Nolan? — Recebeu um aceno igualmente discreto.

A garota afastou-se suavemente dele.

— Respeitável Curandeiro, permita-me apresentar. — Ela virou-se para os sentados. — O Administrador Chefe de Briest, David Sol. — O Administrador acenou quase imperceptivelmente e recebeu um aceno igualmente frio do Curandeiro.

— E a respeitável Olana De Rur, a Profetisa de Briest. — Olana sorriu calorosamente para o Curandeiro, que, em resposta, exibiu um de seus sorrisos mais bonitos. Ele estava visivelmente cativado pela beleza da mulher.

— Estou feliz que você tenha se recuperado completamente, Sr. Storr. — Olana acenou para Kira, que, entendendo a dica, afastou-se de Nolan. Sentou-se em sua cadeira.

— Obrigado pela preocupação, Profetisa, mas temo que minha recuperação não esteja completa.

— O que você quer dizer, Curandeiro? Eles não cuidaram adequadamente de sua condição? — O Administrador Sol olhou para ele com avaliação.

— Oh, é claro que recebi todos os cuidados possíveis em Bória, mas temo que, neste caso, o diagnóstico seja outro.

— Compartilhe. — Olana fechou os olhos levemente.

Nolan olhou demonstrativamente para Mikael, depois voltou seu olhar para Kira. Manteve-se em silêncio. Seus olhos interrogativos fitavam a garota. Olana percebeu seu olhar e rapidamente entendeu o que impedia o homem de falar.

— Mikael. — Ela começou com uma voz autoritária. — Obrigado pelos esforços que fez hoje. Sua contribuição não será esquecida. Você poderia voltar ao seu local de trabalho agora? Por favor, fique disponível nas próximas horas. Você será chamado, se necessário.

— Claro, respeitável. — Mikael suspirou aliviado. Por mais curioso que estivesse sobre a conversa que se seguiria, ele ficou feliz por ser liberado do fardo de estar presente. Rapidamente curvou-se para os presentes e deixou a sala quase correndo.

Depois que as portas se fecharam, Olana virou-se novamente com um sorriso para o Curandeiro.

— Agora você pode continuar livremente, Sr. Storr.

— Obrigado! — Ele curvou-se um pouco mais profundamente do que o protocolo exigia para a ocasião e continuou com um sorriso.

— Acho que vou desapontá-la, respeitável Profetisa, mas, neste caso, minha recuperação não está completa. O motivo pelo qual estou aqui, a razão pela qual me chamaram a Briest, é o respeitável professor Nikolai Vidov, e, por favor, não tente me contradizer.

— Não seja tão seguro, Sr. Storr.

— Acredito que sim, respeitável. — Nolan curvou-se novamente. — Minha humilde pessoa não atrairia sua atenção por nada.

— Entendo que, no momento, estamos falando com o Curandeiro Nolan Storr. — Sol estava perdendo a paciência.

— Sim, Administrador. Você está falando com o Curandeiro.

— E como podemos falar com o professor?

— Bem, essa é a questão, não é?

Nolan manteve seu olhar na Profetisa.

— O mecanismo para alternar a consciência dominante do corpo nos é conhecido. Nós o descobrimos e tivemos a oportunidade de treiná-lo.

— O mecanismo para alternar a consciência dominante... — O Administrador fez uma pergunta confusa, mas foi interrompido abruptamente por Olana, que virou-se impaciente para Nolan.

— Então?

— Não tenho certeza se você vai gostar do que vou dizer.

Kira apertou os braços da cadeira, sentindo o que o Curandeiro estava prestes a revelar.

— Depois que voltei à consciência. — Nolan começou. — Não encontro a presença do respeitável professor em meu corpo. Ele não está aqui.

O silêncio que se seguiu à revelação ameaçou ser ensurdecedor, se não fossem os passos suaves que vieram da esquerda do Curandeiro, atraindo a atenção de todos. Nolan virou-se, vendo os olhos de Kira se arregalarem por um momento. Lá, perto das janelas, entre duas cortinas, aparecera, despercebido até aquele momento, um homem vestido com uma túnica negra como o fundo de um poço e um capuz profundo. A figura aproximou-se lentamente da cadeira vazia ao lado do Administrador. A Profetisa e Sol não piscaram. Mesmo que estivessem surpresos com tal presença, não mostraram nada.

A sombra sentou-se na cadeira vazia e puxou o capuz. Sob ele, revelou-se o rosto de um homem sem características marcantes. Traços regulares, olhos castanhos suaves e cabelo castanho-claro cortado curto. O homem acenou para o Curandeiro.

— Perdoe a interrupção. Mas o que estou ouvindo me parece um déjà vu.

— Deixe-me apresentar. — Olana apontou para o recém-chegado. — Este é o terceiro membro do Triunvirato que governa Briest.

O recém-chegado acenou casualmente com a mão.

— Deixe isso, Olana. Apresentações não são necessárias. — Ele manteve o olhar em Nolan. — Diga-me, jovem, você sente um vazio?

— Como devo chamá-lo, senhor? — Nolan estava levemente perturbado. Era evidente que esse homem era da Ordem das Sombras, e sua presença em Briest era inesperada para ele. Pelo menos não tão abertamente. Ele foi apresentado como um dos três governantes deste lugar. Ele estava diante dos três governantes do mítico Briest. As três figuras mais misteriosas e desconhecidas do mundo de Bória.

— Nomes não importam, jovem curandeiro. Assim como rostos, se você me entende. — O sorriso da sombra tinha algo de venenoso. — Mas, se quiser, e apenas para sua conveniência, pode simplesmente me chamar de Sombreado.

— Você é o famoso Sombreado! O líder das Sombras?! — Nolan não conseguiu conter sua surpresa.

— O que significam títulos aqui, jovem? Você está, neste momento, em uma sala entre lendas vivas deste mundo. Você percebe? Voltemos à minha pergunta. Você sente um vazio dentro de si?

Nolan sacudiu a paralisia inicial que se seguiu à compreensão das palavras pronunciadas. Realmente, naquela sala, além dele e de Kira, todos os outros eram figuras lendárias. Embora o Sombreado não tivesse feito a distinção que ele fez e não excluíra Kira do grupo de lendas. No fim das contas, ele não sabia nada sobre Kira. Ela poderia ser qualquer coisa. Literalmente, apenas um dia antes, ele descobriu seu nome completo, e isso não foi por acaso. Ele viu a reação dos guerreiros nas escadas. Definitivamente, ela não era apenas uma garota comum de menos de vinte anos.

— Curandeiro Storr! — O suave tom de voz do Sombreado chamou sua atenção.

— Sim. Tão forte que dói. — Nolan confirmou. Tentando, com o mínimo de palavras, expressar o vazio dentro de si.

— Você tem uma lembrança? — Continuou o Sombreado.

— Sim.

— Explique. — Interveio Olana.

— Não sei como explicar, nem sei se é do meu interesse. — Ele ergueu uma sobrancelha significativamente.

— Fique tranquilo, Nolan. — Kira acenou, declarando seu apoio. — Nada de ruim vai acontecer com você aqui.

O Sombreado olhou para ela, sorrindo.

— Jovem, você recebeu garantias da própria Kira. Isso é um tesouro. Acredite em mim. Em Bória, contam-se nos dedos de uma mão as personalidades que ousariam enfrentá-la em um duelo direto, e duas delas estão aqui. — Ele virou-se para o Administrador Sol.

— Nada pessoal, David, mas seus métodos são diferentes e não menos eficazes.

— Você não me afeta, e sabe disso. — Nolan viu, pela primeira vez, um sorriso no rosto do Administrador Chefe.

— Estou feliz em vê-lo novamente. Você me fez falta. — A sombra voltou-se para Kira.

Kira sorriu graciosamente para ele através dos dentes e rosnou levemente. Claramente, havia alguma piada entre eles.

— Eu ganhei essa aposta! — Olana fechou os olhos com força e apertou levemente os lábios. — Lembra, Sombreado?

Então, mudou sua expressão, pondo fim àquela pausa frívola. Olhou para o Sombreado com severidade.

— Não acho que seja a hora agora, certo?

— Você está certa, como sempre, respeitável. — O Sombreado virou-se para o Administrador. — Vou precisar de muitos de seus recursos para resolver este caso.

— Você os tem, é claro. — O Administrador demonstrou tanto calor e prontidão em suas palavras que Nolan ergueu as sobrancelhas. Ele entendia que havia algo mais do que uma simples disputa entre três governantes.

— Obrigado pelo apoio, Kira. — Ele começou e continuou após o aceno de concordância dela.

— Quando o professor e eu compartilhamos meu corpo, ambos extraímos conhecimento um do outro. Quando a consciência é suprimida e está em segundo plano, como decidimos chamar, ela tem a capacidade de acessar tudo o que o outro experimentou, aprendeu, pensou, sentiu... tudo. Entende? Algo como costurar memórias e habilidades. Até a motricidade, a memória muscular, as sensações. Tudo. — Ele suportou os olhares surpresos dos presentes.

— Quando você está em segundo plano, você tem a capacidade total de ver e sentir o que está acontecendo ao seu redor no momento. Você pode até se comunicar mentalmente com o outro. A conexão é bidirecional.

— Você está dizendo que tem o conhecimento do professor!

— Não tudo, é claro. Apenas o que consegui acessar. É verdade que a velocidade de assimilação é enorme, mas o volume de informações na cabeça de um homem de quase quarenta anos é infinito.

— Rapidamente percebemos que, se não prestássemos atenção, poderíamos perder a singularidade do Eu. Fundir e compilar o Eu de cada um de nós em uma nova personalidade, em uma nova maneira de pensar, agir e experiência geral. Apesar disso, duas consciências. Literalmente, sobrepor uma à outra.

Os quatro tinham expressões de pedra em seus rostos e não as mudaram por nada enquanto a conversa continuava. Apenas aquela surpresa inicial, que conseguiu penetrar suas máscaras, permaneceu na memória de Nolan. Depois disso, nada poderia revelar o que se passava em suas mentes. Todo o conhecimento e experiência do professor nessa área eram completamente inúteis.

Eles o interrogaram por um longo tempo. Sobre tudo. Pareceu-lhe interminável. Depois que a luz do sol nas janelas diminuiu, depois que desapareceu, e através das janelas de vidro podia-se ver claramente o céu salpicado de estrelas brilhantes, a Profetisa finalmente decidiu dar a Nolan uma pausa e liberá-lo.

Acompanhado por Kira, eles desceram a longa escada de pedra que levava ao primeiro andar do prédio de dois andares. Passaram por um amplo corredor que os levou por uma série de portas e, após algumas curvas, os deixou diante da porta dos aposentos designados para o Curandeiro.

Kira apertou a mão de Nolan. Caminhava em silêncio ao seu lado. Ambos estavam mentalmente exaustos, e qualquer conversa seria um esforço que nenhum dos dois poderia arcar.

Parado diante da porta, Nolan olhou para ela e sorriu levemente.

— O que vem a seguir, Kira?

— Descobriremos amanhã, Curandeiro.

— Ele vai voltar, não vai?

— Não sei, Nolan.

— Sinto falta dele.

— Eu também. — Ela sorriu.

— Boa noite, Kira.

— Boa noite para você também, Curandeiro.

Ela levantou-se na ponta dos pés e beijou Nolan na bochecha lisa. Ele olhou para ela, levemente surpreso.

— Você sabe que sou eu, Nolan. — Ele brincou, ou talvez não.

— Sim, é claro. — Ela sussurrou. — Se fosse ele, não seria apenas um beijo na bochecha.

Nolan, sorrindo, mas cansado, entrou no quarto e fechou a porta atrás de si. Encostou-se nela, respirando profundamente. Estava exausto pelas experiências do dia. Ele sentia falta de Nick. Mesmo no curto tempo em que estiveram conscientes juntos, ele se acostumara tanto com ele que o vazio que se formara agora o assustava.