CAPÍTULO 1
O ar noturno pesava sobre ele como chumbo, impregnado com o odor metálico de sangue quente e o fedor de cadáveres em decomposição. A lua, pálida e indiferente, iluminava fantasmagoricamente o campo dilacerado e nevado, revelando o resultado horrível do massacre impiedoso.
Os seus dedos entorpecidos enterraram-se na terra gelada enquanto ele se arrastava entre os corpos despedaçados. A sua roupa rasgava-se nas armas partidas, cada contacto trazendo uma dor lancinante. Um zumbido de aço surdo vibrava nos seus ouvidos, fundindo-se com as batidas do seu próprio coração.
Com esforço, ele ergueu o olhar. Através do véu de lágrimas e exaustão, discerniu duas figuras numa colina distante, dançando a dança mortal do destino.
Algo dentro dele partiu-se. Ele limpou os olhos com a manga suja e ensanguentada e sentou-se sobre os joelhos feridos. Ansiou por ver quem cairia. Moveu os lábios ressequidos e sem voz, saboreando a amargura dos seus próprios pensamentos.
Aquele de preto, todo salpicado de azul e com o cabelo ensopado, rugiu, rasgando a noite. O seu triunfo ecoou sobre o campo e a morte. Ele tinha desferido o seu golpe. Os seus olhos ardiam como chamas do inferno, fitando a cabeleira prateada desgrenhada do caído.
Num momento de fúria irresistível, a sua espada negra e elegante cortou o ar num arco, perseguida pelas gotas de sangue de que se banqueteava, e enterrou-se na carne, fendendo a armadura brilhante. Um jorro de sangue azul jorrou sobre a neve, antecipando o corpo. Um grito agonizante assustou os corvos e esmoreceu, fundindo-se com o uivo impiedoso do vento.
A figura sinistra de preto inclinou-se sobre o moribundo, irradiando um prazer sádico com o sofrimento da vítima. Permaneceu imóvel até que a luz violeta nos olhos do de cabelo prateado se desvaneceu, cedendo lugar ao vazio da morte.
O sombrio rugiu triunfantemente. Embainhou a espada, virando as costas ao campo de batalha. Passou por cima de uma pilha de corpos desmembrados e poças de sangue azul.
— Porquê? — sussurrou ele, rasgando os lábios colados. Um lamento de dor, desespero e angústia elevou-se quase impercetivelmente numa lufada no caos do campo de batalha.
Timothy Harris saltou da cama, acordado pelo pesadelo. Respirava com dificuldade, e a testa estava-lhe húmida de suor. Passou os dedos pelo cabelo molhado, tentando afugentar as imagens do sonho. Este pesadelo perseguia-o noite após noite, alternando com mais três que o atormentavam com uma constância implacável.
Aos poucos, o seu pulso acalmou e a respiração tornou-se mais regular. O sonho girava em torno de duas figuras sinistras a lutar numa paisagem desfocada e devastada. Havia algo que o perturbava profundamente, como se ecoasse na sua própria alma. Esforçava-se por captar os detalhes, por penetrar no seu verdadeiro significado, mas sempre que tentava olhar mais atentamente, o sonho escapulia, deixando-o com uma sensação de ansiedade insuperável.
Com um suspiro, Timothy saiu da cama e aproximou-se da janela, fitando o céu noturno. As estrelas cintilavam levemente através do abismo cósmico, inatingíveis para a consciência humana. Ele tentou encontrar consolo na beleza estelar eterna, mas desta vez a inquietação não o abandonava. Está a ficar mais forte a cada dia que passa, pensou ele. Se continuar assim, o meu coração pode não aguentar.
Inspirou profundamente, dominado por um pressentimento de algo horrível. As estrelas turvaram-se, o ar vibrou. Estremeceu, sentindo o desconhecido a envolvê-lo.
"Não, outra vez não!" Diante dos seus olhos, a paisagem familiar dissolveu-se, rasgada por uma faixa mais clara que se alargava, revelando uma panorâmica de uma cidade estranha. Arranha-céus elevavam-se até ao céu, brilhantes e futuristas, e máquinas voavam no céu sem nuvens. Timothy prendeu a respiração, maravilhado com a grandiosidade da vista. Aquela não era a sua cidade, era algo completamente diferente, como se arrancado de outra realidade.
Tocou no vidro, tentando compreender até onde se estendia a realidade. Será que o que via não era mais um sonho? O seu coração batia descontroladamente, e as palmas das mãos estavam suadas.
— Isto não pode ser real — murmurou com uma voz trémula. — Mas que raio...
Subitamente, uma das máquinas voadoras desviou-se do seu curso e dirigiu-se a ele a uma velocidade tremenda. O jovem assustou-se e recuou instintivamente. A máquina abrandou e aproximou-se suavemente, parando a apenas alguns centímetros da janela. Timothy prendeu a respiração, observando enquanto uma figura humana emergia do interior da máquina, banhada por uma luz azul brilhante. Ele semicerrou os olhos, tentando discernir os detalhes. A figura que apareceu estava vestida com uma espécie de fato espacial, lustroso e liso. O capacete abriu-se e os olhos de Timothy encontraram dois círculos azuis brilhantes, fixos diretamente nele.
O jovem ficou paralisado. Não conseguia desviar o olhar daqueles olhos que o trespassavam. Queria fugir, mas as pernas estavam como que enraizadas. Cerrou as pálpebras com força, inspirou profundamente várias vezes e abriu-as com a esperança de que tudo tivesse desaparecido. Infelizmente, não tinha. Engoliu em seco, lutando contra a sensação intrusiva de que o que estava a vivenciar não era apenas um produto da sua imaginação.
Uma batida na porta fê-lo sobressaltar. O seu coração disparou. Rapidamente, voltou para a cama e enfiou-se debaixo dos cobertores. A porta abriu-se e entrou no quarto Anna Harris, a mulher que o tinha adotado e criado como seu filho após a morte dos seus pais.
— Hora de ir para a escola, Tim — disse ela, sorrindo como sempre. — Anda, levanta-te. Sei que detestas chegar atrasado.
Timothy piscou os olhos, sonolento, numa tentativa de disfarçar a sua agitação.
— Estarei pronto num minuto — forçou-se a falar calmamente e sentou-se lentamente na cama.
Assim que a mãe saiu, Timothy voltou à janela. Olhou intensamente para a vista do exterior. Tudo estava como de costume — as casas, as ruas e o céu conhecidos, que clareava. Não havia qualquer vestígio da cidade futurista que se tinha revelado perante ele momentos antes. Apenas os contornos familiares do bairro.
O que se passa comigo, pelo amor de Deus? Timothy esfregou as têmporas, atordoado. As sensações do que tinha vivido ainda pairavam nele. Tinham-se gravado profundamente na sua consciência.
Abanou a cabeça, tentando afastar esses pensamentos. Tinha de se concentrar no dia que o esperava — escola, trabalhos de casa, amigos. Não podia distrair-se com sonhos e visões absurdas. Aquela era a realidade em que vivia.
Vestiu-se rapidamente, atirou a mochila às costas e saiu do quarto. Na cozinha, Anna já tinha a mesa posta — torradas, manteiga, queijo e um copo de leite quente com mel.
— Bom dia, Tim! — acenou ela para a cadeira e para o pequeno-almoço de cheiro apetitoso. — Anda, come, senão vais chegar atrasado.
Timothy sentou-se pesadamente, deixando a mochila ao lado da cadeira. Tentou comportar-se da forma mais natural possível e atacou avidamente a torrada. Anna sentou-se em frente dele, mas não começou a comer. O seu olhar parecia despi-lo.
— Está tudo bem, querido? Pareces-me atordoado.
Ele ergueu o olhar para ela. Queria partilhar as visões e os sonhos, mas decidiu que era melhor não a preocupar com algo que provavelmente era apenas fruto da sua imaginação e das hormonas em turbilhão.
— Está tudo bem, mãe. Estava a pensar na... escola. Sabes que eu detesto matemática.
Anna esticou o braço sobre a mesa e acariciou-lhe o cabelo. Presenteou-o com um dos seus sorrisos calorosos e começou a comer.
— Vais safar-te, querido. És um rapaz inteligente. Agora despacha-te, senão vais chegar atrasado.
Minutos depois, Timothy atravessava o pátio da escola conhecido. O seu olhar caiu por acaso numa rapariga desconhecida. Tinha mais ou menos a sua idade e estava de lado, afastada dos alunos que se juntavam. Era óbvio que era nova — observava atentamente tudo à sua volta e era impressionantemente bonita. O seu cabelo negro como o ébano, espesso, ondulava em torno do rosto delicado, e os olhos de cor verde jade percorriam meticulosamente os presentes no pátio. Timothy não conseguia desviar o olhar dela. Havia algo excecionalmente atraente na forma como ela se movia e observava. Achou irresistivelmente doce a ligeira inclinação da cabeça para o lado quando ela fitava alguém.
Reparou que ela olhava na sua direção várias vezes, mas pareceu-lhe que ela estava a olhar para outra pessoa. E quando captou o seu olhar, não conseguiu desprender os olhos dos dela. Estava cativado pela sua profundidade. Não sabia se estava a imaginar, mas pareceu-lhe que naquele momento detetou uma centelha de reconhecimento. Ela estava a avaliá-lo. Sentiu-se desconfortável, mas ao mesmo tempo ficou satisfeito por ter captado o seu interesse.
Quem será ela? Conheço-a de algum lado? Decididamente não. Timothy afastou o pensamento e olhou em redor.
"Ah, ali está ele." Apressou-se para junto de Lauren, que o esperava à entrada da escola.
— Meu, em que nuvem andas a flutuar? Porque é que andas a vaguear pelo pátio como uma mosca sem cabeça? — Lauren sorriu quando Timothy se aproximou. — Então, o que é que te preocupa?
Timothy lançou um olhar rápido para a rapariga, que continuava imóvel e a observar.
— Estás a ver aquela rapariga ali? — acenou na direção dela. — Nunca a vi antes na escola.
Lauren seguiu o olhar do amigo e detetou a desconhecida.
— Ah, percebo. Bravo, bravo. Bom gosto. Mas... não, não a conheço. — Franziu os olhos, malicioso. — Parece ser nova. Também te parece... interessante?
— Interessante? — repetiu Timothy, extasiado, sem tirar os olhos da rapariga. — Reparei que ela estava a olhar para mim.
Lauren sorriu de orelha a orelha e deu-lhe uma palmada nas costas.
— Porque é que não havia de olhar, Tim? Se uma rapariga bonita me olhasse, de certeza que ficava contente, não preocupado. — Lauren sorriu, malicioso. — Talvez devesses tentar apresentar-te. Vamos ver no que dá.
Timothy ponderou a sugestão do amigo. A ideia parecia-lhe tentadora. Havia algo tão atraente naquela desconhecida que o enlouquecia. Queria saber mais sobre ela.
Mas antes que pudesse reagir, a rapariga virou-se bruscamente e dirigiu-se para o edifício da escola, sem sequer piscar os olhos na sua direção. Timothy seguiu-a com o olhar enquanto ela desaparecia na multidão de alunos e suspirou.
Lauren deu-lhe uma cotovelada leve nas costelas.
— Bravo, campeão. Decidido, és. Isso não te posso negar. Mais uma oportunidade perdida.
Timothy franziu a testa, confuso com as expectativas exageradas de Lauren.
— Não sei. Há nela qualquer coisa... diferente.
— Bem, então tens de tentar. — Lauren acenou com a cabeça para a entrada da escola. — Ali está ela, a entrar. Mas desta vez não hesites. Fica atento a ela, meu.
Timothy acenou com a cabeça e seguiu Lauren para o interior do edifício da escola. Enquanto caminhava, não conseguia parar de pensar na desconhecida.
Quando entraram no edifício, Timothy examinou atentamente o corredor. Percebeu que estava à procura da rapariga de cabelo negro, mas tinha-a perdido no meio da multidão. Suspirou, desapontado, e continuou a seguir Lauren. O pressentimento da manhã, de que este dia seria diferente de todos os outros, não o tinha abandonado.
Enquanto caminhava pelo corredor conhecido, Timothy parou subitamente, a olhar fixamente para algo à sua frente. O seu coração acelerou, e a boca abriu-se em espanto. Estava numa selva. Ouvia gritos de pássaros, zumbidos de insetos. Até um mosquito o picou. Depois veio um grito de terror, quase humano. Ele ergueu a cabeça e viu um leopardo, segurando um macaco ainda a estremecer nas suas mandíbulas, a descer dos ramos de uma árvore próxima.
— Anda, estamos atrasados. Tim, meu, para onde é que te foste embora outra vez? — A imagem desvaneceu-se e diante dos seus olhos estendia-se o mesmo corredor e a fisionomia irritada de Lauren.
— Mas isto é o cúmulo. Uma rapariga e já não és o mesmo. Estamos atrasados.
— Sim, sim, já vou. Desculpa, lembrei-me da Anna. — Timothy tentou disfarçar o que tinha acontecido.
— Seja como for. Anda. — Lauren abriu a porta da sala de aula e os dois entraram.
A Senhora Dimitreșco, a professora, já estava em frente à cadeira, pronta para começar a aula. Fez-lhes sinal, impaciente, para ocuparem os seus lugares.
— Bom dia, alunos — cumprimentou, pousando as pastas que trazia sobre a secretária. — Tenho um anúncio especial para vocês. Homes, junta-se à nossa turma uma nova aluna. Por favor, sejam amáveis e deem as boas-vindas à Talia Grass.
Talia entrou na sala de aula, atraindo a atenção geral com a sua beleza exótica. O cabelo caía-lhe pelos ombros como veludo negro, e os olhos brilhavam como esmeraldas verdes da floresta. Observou lentamente os novos colegas, avaliando-os, e dirigiu-se ao lugar vazio mesmo à frente de Timothy. Nela não havia um traço da ansiedade típica dos recém-chegados — nem timidez, nem desconforto. Ela irradiava força, e todos o sentiram. Até as duas Sari não trocaram os seus habituais comentários descarados — a sua marca registada ao receber um novato.
O coração de Timothy deu um salto quando Talia se sentou no banco à sua frente. Não conseguia desviar o olhar dela, fascinado pela sua aura.
— Bem-vinda, Talia — a Senhora Dimitreșco sorriu-lhe, afavelmente, e acenou vagamente em direção à turma. — Espero que na nossa escola adquiras novos conhecimentos e atinjas sucesso.
Talia sorriu ligeiramente, sem proferir uma palavra. Timothy notou que cada movimento da recém-chegada era extremamente calculado, fluido e gracioso.
— Timothy — a professora voltou-se para ele, tirando-o do seu devaneio. — Tu vais ser o parceiro da Talia na aula de hoje. Vais ajudá-la a orientar-se e a sentir-se mais à vontade.
Timothy engoliu em seco, mas anuiu, sentindo as faces corarem.
— Sim, senhora — respondeu ele, depois virou-se para Talia, superando o seu embaraço. — Olá. Prazer em conhecer-te. Chamo-me Timothy.
Talia fitou-o com os olhos ligeiramente cerrados, antes de responder.
— Obrigada, Timothy — a voz era baixa e suave, e pareceu-lhe muito atraente. — É um prazer conhecer-te.
Timothy detetou um ligeiro sotaque, mas não conseguiu identificá-lo. Continuou a observá-la. Ela tirou um caderno e uma caneta, preparando-se para a aula. Movimentos vulgares, mas para Timothy cada um deles era uma expressão de graça invulgar e imbuída de uma elegância contida.
Meu Deus, o que se passa comigo? Estou a olhar para ela como um parvo., pensou Timothy, envergonhado. Com esforço, desviou o olhar para a professora.
A aula começou, e Timothy não conseguiu concentrar-se nas palavras da professora. A sua atenção regressava incessantemente a Talia.
Enquanto a professora explicava a nova matéria, Talia levantou a mão.
— Desculpe, senhora — ergueu-se ligeiramente no banco. — Já estou familiarizada com este conteúdo. Permitiria que eu faltasse à aula?
A Senhora Dimitreșco hesitou por um momento com a interrupção, mas rapidamente se recompôs e anuiu.
— Claro, Talia. Se já dominas esta matéria, deixo que trabalhes de forma autónoma. Se precisares de alguma coisa, diz-me.
Talia sentou-se novamente e pôs-se a escrever no seu caderno. Timothy observava-a, encantado com a forma como uma rebelde mecha de cabelo deslizava e tocava a folha do caderno. Questionou-se sobre o que estaria a rabiscar a rapariga e por que razão admitira estar adiantada na matéria. Não encontrava lógica naquela atitude. Como se tivesse sentido atraída pela sua atenção, Talia virou-se para encontrar o olhar de Timothy. O jovem desviou os olhos, perturbado, mas por um instante conseguiu vislumbrar um brilho indefinido nos olhos da rapariga. Ela inclinou ligeiramente a cabeça para o lado e voltou a escrever. Timothy sentiu as faces a arder. Não sabia porquê, mas a presença de Talia fazia-o sentir-se como se estivesse sobre alfinetes.
A aula prosseguiu em silêncio, quebrado apenas pela voz da Senhora Dimitreșco. Timothy tentava concentrar-se nas explicações da matéria lecionada, mas os seus pensamentos regressavam incessantemente a Talia. Espiava-a, dissimuladamente, enquanto ela escrevia concentrada no seu caderno, indiferente ao ruído circundante. A sua presença calma e distante perturbava-o e, ao mesmo tempo, atraía-o como um íman.
Subitamente, Timothy sentiu o mundo à sua volta começar a dissolver-se. Os contornos dos objetos na sala de aula desfocaram-se e tornaram-se fluidos, como se olhasse através de um véu. Oh, por amor de Deus! Isto outra vez?, pensou, e, atordoado, olhou em redor. Viu as paredes da sala a desfazerem-se, revelando uma cena já familiar. Perante os seus olhos, desvendou-se novamente a gigantesca cidade, com os seus arranha-céus a elevar-se abruptamente. O céu tinha uma tonalidade antinatural, violácea, e nele pairaram máquinas voadoras que emitiam luzes azuis. Timothy piscou os olhos, confuso, incapaz de acreditar. Já vi isto antes.
Uma das aeronaves mergulhou e dirigiu-se diretamente para ele, aproximando-se a uma velocidade vertiginosa. Desta vez, Timothy não se assustou. Já tinha vivido aquilo. Concentrou-se, tentando memorizar os detalhes. A máquina aproximou-se tanto que ele conseguiu ver através da sua estrutura transparente. Lá dentro, estava uma criatura vestida com um fato espacial azul e branco brilhante. O aparelho voador virou bruscamente e afastou-se. Timothy piscou os olhos várias vezes, tentando perceber o que estava a acontecer. Respirou fundo.
Os contornos da sala de aula começaram a regressar ao seu lugar e a cidade esfumou-se. Timothy inspirou profundamente mais uma vez e expirou lentamente. A sua testa estava orvalhada de suor.
Olhou em redor, cautelosamente. Ninguém lhe prestava atenção, exceto a nova aluna. Talia tinha-se virado ligeiramente para ele, e os seus olhos semicerrados estudavam-no. Silenciosamente, os seus lábios formaram as palavras "Estás bem?". Timothy engoliu em seco, sentindo-se constrangido por ela o ter visto naquele momento de fraqueza. Anuiu-lhe e cravo o olhar no caderno aberto à sua frente. Desejou que a terra se abrisse e o engolisse.
A Senhora Dimitreșco continuou a aula.
Mas que raio se passa comigo? Porque estou a ver estas coisas estranhas? E porque diabos a Talia continua a olhar para mim dessa maneira tão peculiar? É como se soubesse o que se passa comigo. Ele olhou para ela, mas desta vez foi Talia quem baixou rapidamente os olhos para o caderno.
Mal a campainha anunciou o fim da aula, Talia ergueu-se de um salto e disparou na direção de Timothy.
— Posso trocar duas palavras contigo? — perguntou ela com uma voz baixa, mas segura.
O jovem engoliu em seco, dolorosamente, sentindo os nervos a tensarem-se como cordas de um violino.
— Sim, claro. — Tentou soar despreocupado. Para sua surpresa, ela agarrou-lhe o braço, forçando-o a levantar-se, e puxou-o para um lado, longe dos olhares curiosos dos colegas. Timothy seguiu-a em silêncio, atordoado com a proximidade repentina e com o facto de ela ter tomado a iniciativa. Finalmente, Talia parou bruscamente e virou-se para ele. Os corpos deles tocaram-se e Timothy estremeceu, sentindo uma faísca a saltar entre eles.
— Reparei que tiveste... experiências incomuns durante a aula. — Ela não se perturbou. Olhava-o nos olhos. — Vês coisas que os outros não veem, não é?
Timothy ficou de cabelos em pé, horrorizado com as palavras dela. Como era possível ela saber das visões que o atormentavam?
— Não faço ideia do que estás a falar. — Tentou negar, mas a voz traiu-o.
— Não me venhas com tangas. — O tom calmo dela queimou-o. — Vi o teu olhar. Estava tudo escrito ali. — Ela apontou para a sua têmpora. Lançou um olhar rápido por cima do ombro e, após certificar-se de que ninguém os observava, continuou: — Eu também consigo ver coisas que não são deste mundo. Tenho quase a certeza de que tu também o fazes.
Timothy ficou a olhar para ela, boquiaberto e pasmado. Não sabia o que dizer. Todo o seu ser gritava para ele fugir dali.
— Estás maluca!
— Oh, sou tudo menos maluca. — O sorriso dela era encantador e desarmante. Talvez fosse isso, ou talvez a confiança com que falava, que o fez abrir-se perante aquela rapariga desconhecida.
— Se sabes alguma coisa sobre isto, por favor, diz-me — sussurrou ele após uma breve pausa, lançando um olhar rápido ao redor. — Eu... eu não percebo o que se está a passar comigo.
Talia aproximou-se muito dele. Os seios dela tocaram no peito dele. Colocou a palma da mão no seu ombro e apertou, quando sentiu que ele estremecia.
— Vou tentar explicar-te. Mas não aqui, nem agora. Vem comigo depois da escola e revelo-te o que se passa contigo. — Soava confiante. Demasiado confiante e não parecia minimamente incomodada com o facto de quase o estar a abraçar.
— Tens a certeza de que não és louca?
Ela sorriu-lhe amplamente, revelando os seus lindos dentes brancos. Os olhos dele cravaram-se nos lábios dela, cobertos por um batom suave, azulado. Timothy engoliu em seco, pesadamente, confuso, até assustado com as suas próprias palavras. A adrenalina corria no seu corpo e fazia-o estremecer. Queria perguntar a Talia por mais detalhes, mas, ao mesmo tempo, receava descobrir coisas que não queria saber.
Ela não lhe respondeu. Diante do seu olhar, o cabelo lustroso dela rodopiou e, antes que ele conseguisse proferir uma palavra, Talia já se afastava a passo rápido pelo corredor, deixando-o sozinho com os seus tormentos. Timothy seguiu-a com o olhar.
O que diabo é que ela sabe sobre mim? E porque me está a oferecer revelar — seja lá o que for? As perguntas giravam na sua cabeça sem resposta.
Quase mecanicamente, seguiu pelo corredor, à procura de um pouco de ar puro. Saiu para o exterior e respirou fundo, tentando acalmar-se. Hesitava em aceitar a proposta da rapariga. Queria perceber o que ela sabia e, sobretudo, o que se passava com ele. Mas, por outro lado, segui-la parecia-lhe demasiado. Conhecemo-nos há cinco minutos. Imediatamente, imaginou o sorriso trocista do Lorenzo.
Quando soou o sinal do fim do intervalo, Timothy dirigiu-se de volta à sala de aula. Os seus olhos procuraram instintivamente Talia e encontraram-na já sentada no seu lugar. Timothy intercetou o olhar de Lorenzo, que o observava. Quando passou por ele, Lorenzo inclinou-se e agarrou-lhe o braço.
— Está tudo bem, pá?
— Sim, está tudo ótimo — Timothy anuiu, hesitante, fazendo a voz falhar.
Lorenzo olhou-o com cepticismo, mas não disse mais nada. Soltou-lhe o braço e Timothy sentou-se rapidamente no seu lugar. Agora, após a conversa com Talia, sentia-se ainda mais confuso e inseguro. Não queria, mas, gradualmente, a sua opinião sobre ela começou a inclinar-se para a definição: "Mais uma maluca". "Mas a maluca mais bonita que já vi. E pelos vistos, os dois cantam no mesmo coro." Quase se riu. Conseguiu conter-se, mas não disfarçou o sorriso. "O que é que ela esconderá? E porque se interessou de repente por mim?"
Depois das aulas, ele saiu disparado da sala de aula. Não queria falar com Talia novamente, não agora, não tão cedo após tudo o que acontecera mais cedo. Invadiu a casa de banho dos homens e trancou-se numa das cabinas. O coração batia-lhe a ponto de explodir. Cerrou os olhos, mas as imagens à sua frente continuavam a girar. E aconteceu de novo. Novamente o conhecido desfocar dos contornos e ele encontrou-se naquele mundo estranho e alienígena, com arranha-céus e máquinas voadoras. Sentia tudo à sua volta a pressioná-lo. Estava confuso e preocupado com o que se passava com ele.
Através do nevoeiro do que se desenrolava diante dos seus olhos, ouviu passos e alguém a tentar abrir a porta da cabina. Isso fez sobressaltá-lo e, para seu enorme alívio, a visão desvaneceu-se.
— Timothy? Estás aí? — Reconheceu a voz. Era a de Talia.
Sentiu o corpo enrijecer. Não sabia como reagir. Uma parte dele queria enfrentar a rapariga e exigir respostas, mas outra parte anseava por se esconder e fugir de tudo aquilo.
— Sei que estás aí dentro — continuou ela, desta vez com um tom mais firme. — Por favor, abre. Vá lá, não te portes como um miúdo.
Timothy engoliu em seco, dolorosamente, hesitando por um momento. Mas, após sentir a visão periférica a começar a distorcer os contornos e a imagem da cidade desconhecida a ganhar clareza diante dos seus olhos, decidiu que não fazia sentido esconder-se. Abriu a porta lentamente e, cambaleante, saiu da cabina. A sua visão clareou imediatamente. A visão desvaneceu-se, mal tinha aparecido. "Então é assim que funciona. O stress afasta-a." notou mentalmente.
Talia olhou-o calmamente, fazendo Timothy sentir as faces a arder de vergonha e preocupação.
— Olha, eu... — Não conseguiu acabar, interrompido quase com rudeza por ela.
— Por favor, conta-me exactamente o que vês. — Talia deu um passo em sua direção. — Quero ajudar.
Timothy hesitou, mas finalmente decidiu que não tinha nada a perder.
— Bem, eu... eu vejo coisas que não existem — começou, baixo e hesitante. — É como se viajasse para outro mundo, diferente do nosso. Na sala de aula, vi uma cidade enorme com arranha-céus e máquinas voadoras. E agora outra vez... — Calou-se, tentando suprimir a memória da visão.
— Entendo. — O olhar dela trespassava-o. — E é só isso? Nada mais? Sensações, necessidades, algo que tenhas vontade de fazer?
— Bem, há mais — admitiu ele, baixando o olhar. — Por vezes, quando estou stressado ou confuso, sinto que consigo... — Fez uma pausa, procurando as palavras certas. — É como se conseguisse... ouvir os pensamentos das pessoas à minha volta.
— Interessante. — Talia semicerrou os olhos, pensativa. — Isso raramente acontece nesta fase.
O jovem ergueu o olhar confuso abruptamente.
— O que queres dizer? O que é que eu tenho? Estou doente?
— Estás são — Talia aproximou-se dele e pegou-lhe na mão. — como um boi e não tens nada. Apenas és diferente. Não percebes?
Ela fez uma pausa, observando a sua reação, antes de continuar:
— Eu também possuo... digamos, capacidades semelhantes. Eu sou... — Calou-se por um momento, como se procurasse a palavra certa. Apertou-lhe a mão. — Eu sou lemuriana, Tim. Tal como tu. Estás a acordar. Parece-me que muito em breve vais ser exactamente como nós.
Timothy abriu muito os olhos, incapaz de dizer nada. Nem sequer conseguia compreender o que Talia lhe estava a dizer.
Lemuriana? Que diabo significa isso? Isto é algum tipo de diagnóstico ou pura loucura?
Antes que pudesse pedir alguma explicação, a porta da casa de banho abriu-se com estrondo e Lorenzo entrou apressadamente. Parou, confuso. O seu olhar percorreu Talia e Timothy.
— Tim? O quê? Era a Talia, não era? — Os seus olhos arregalaram-se, antes de um sorriso matreiro lhe iluminar o rosto. — Oh!
— Nada. — Timothy puxou a mão para longe de Talia rapidamente e deu meio passo atrás. — Estávamos só... a conversar.
Lorenzo olhou para eles lentamente, mas não disse mais nada. Timothy lançou um olhar perturbado a Talia, sentindo que ela o observava com aquela expressão misteriosa no rosto que, no momento, não gostou muito.
— Vamos embora, pá. — Lorenzo acenou com a cabeça na direção da saída. — Vamos chegar atrasados ao treino. Desculpa lá, Talia.
Timothy voltou o olhar por um segundo para Talia, sentindo a confusão e a preocupação a crescerem dentro dele.
— Falamos mais tarde — sussurrou ela, antes de se afastar.
Timothy anuiu ainda mais inseguro e seguiu Lorenzo. Sentia-se ainda mais perdido do que antes.
Quando Timothy chegou a casa, descobriu que as suas atividades noturnas habituais já não lhe traziam a costumeira serenidade. Mal entrou no quarto, sentiu uma mudança — o ar parecia vibrar. Tinha a sensação nítida de estar a ser observado. Encostou as costas à porta fechada e olhou em redor, freneticamente. No entanto, o aposento parecia exatamente como sempre: os seus objetos familiares estavam nos seus lugares, a cama estava feita e a janela dava para a rua silenciosa lá fora. Ele engoliu em seco, com dificuldade, e tentou dominar a respiração acelerada.
Calma, Tim, calma, pensou ele. Estás a imaginar coisas. Não cedas ao pânico.
Apesar disso, a sensação de uma presença não o abandonava.
Timothy aproximou-se cautelosamente da janela e espreitou para o exterior. Não viu nada de invulgar. Os candeeiros de rua projetavam o seu familiar brilho amarelado, e ao longe ecoava o ruído dolorosamente conhecido dos carros a passar. Ele suspirou e virou-se, preparando-se para se deitar. Mas, assim que o seu olhar se fixou na cama, ele recuou bruscamente. Sobre a colcha, como se tivesse sido desenhado por uma mão invisível, destacava-se um símbolo — uma figura geométrica complexa de linhas entrelaçadas. Timothy piscou os olhos várias vezes, incapaz de acreditar no que via.
Como raio é que isto veio aqui parar? Há bocado não estava.
Aproximou-se da cama com cuidado, o olhar fixo no símbolo que surgira inesperadamente. Estendeu a mão. Queria tocá-lo, mas no último instante recuou, dominado pelo horror. O símbolo parecia ganhar vida — as suas linhas brilhavam com uma luz pálida e pulsante, como se tivesse sentido a sua aproximação. Timothy afastou-se de um salto, o coração a disparar como um cavalo assustado.
Que raio se passa aqui?
Aquele símbolo, aquela emissão de luz — tudo aquilo era antinatural, francamente sobrenatural. Ele ficou imóvel, plantado no chão, a olhar fixamente para a cama. Sentia cada fibra do seu corpo tensa, pronta para reagir instantaneamente ao perigo. E foi então que detetou um movimento na periferia da sua visão. A sua visão clareou subitamente, o tremor na borda do seu campo visual desapareceu e ele estava novamente junto da janela.
Ufa! Foi uma alucinação.
Dominou rapidamente a agitação e inspirou profundamente. Já começava a habituar-se a estes saltos entre o real e o irreal. Foi à secretária, agarrou numa folha e num lápis e começou freneticamente a esboçar o símbolo que lentamente se desvanecia na sua consciência.
CAPÍTULO 2
O sábado. Normalmente, não há nada mais doce do que ele. Mas não este, não para Timothy. Atormentado pelas visões, após um dia inteiro a lutar contra elas, decidiu sair, apesar da chuva e do cair da noite.
Saltando poças como se fossem brasas ardentes, atravessou a rua, dirigindo-se à sua cafetaria favorita. Esperava que, ao mergulhar num ambiente ruidoso e familiar, a sua cabeça se clareasse das visões e memórias confusas que ameaçavam desfazer as fronteiras da realidade.
Quase se atirou pela porta do "Sob o Pinheiro Prateado". Estava ofegante e encharcado. O aroma quente de café acabado de moer e de sanduíches crocantes de bacon estimularam-lhe os sentidos e fizeram-no sorrir. O ruído abafado de conversas discretas e o tilintar melódico das chávenas guiaram-no pelo caminho da tranquilidade que tanto ansiara.
Os seus olhos ajustaram-se lentamente à penumbra, iluminada pela luz suave de lâmpadas baças e pelas chamas trémulas de velas nas mesas. Ignorou as gotas de chuva que escorriam por ele e caíam no chão reluzente. Avançou em direção às conhecidas mesas de madeira e aos confortáveis bancos corridos nos cantos.
Foi então que o seu olhar se fixou na figura familiar de Talia, sentada sozinha num canto. Ela olhava diretamente para ele. Ele engoliu em seco, sentindo os nervos a tensionarem-se como cordas. Hesitou por um instante e dirigiu-se à mesa dela.
Talia parecia estar à espera da sua aparição. Um ligeiro sorriso pairou no seu rosto quando ele se aproximou.
— Estou contente por teres vindo.
Timothy olhou em redor, involuntariamente, e os seus ombros relaxaram ligeiramente ao ver os elementos familiares do interior — os móveis de madeira quentes, os quadros elegantes nas paredes. O aroma do café fresco encheu-lhe as narinas e, de algum modo, deu-lhe um gole de confiança.
Sentou-se na cadeira em frente dela.
— O que queres de mim?
A rapariga fitou-o com os seus penetrantes olhos verdes, antes de responder.
— Acusatório e direto? Está bem, vamos pôr as cartas na mesa.
Ela endireitou as costas, colocando as mãos em cima da mesa.
— Estás a passar por algo invulgar, não estás? Algo que não consegues explicar.
Timothy engoliu com dificuldade, sentindo a tensão a crescer dentro dele. Não tinha a certeza se podia confiar em Talia, mas, ao mesmo tempo, sentia que ela era a única que podia ajudá-lo a compreender o que se estava a passar consigo.
— Como sabes... sobre isto?
A sua voz soava cansada das atribulações que passara, e isso notava-se.
— Tenho olho clínico. E sou perspicaz. Vejo que há algo mais em ti, mais do que aquilo que tu próprio imaginas.
A empregada aproximou-se deles, trazendo duas chávenas de café.
— Dois espressos duplos, como é habitual.
Com um sorriso profissional estampado no rosto, colocou as chávenas à frente deles.
— Posso trazer-vos mais alguma coisa?
— Não, obrigada, Emma. Por agora é tudo.
Talia sorriu-lhe de forma igualmente forçada. A empregada Emma anuiu, sorriu também para Timothy e afastou-se de volta para o balcão, onde esperavam outros pedidos.
Timothy pegou na sua chávena, mas não bebeu; em vez disso, crava o olhar em Talia.
— O que queres dizer com esse "algo mais"?
Talia manteve o seu olhar fixo na chávena dele. Antes sentiu do que viu o ligeiro tremor da sua mão.
— Vou explicar. Sabe que te vai parecer estranho e impossível. Vais considerar-me... espera, como é que pensavas — "maluca", não era?
Ela riu-se quando ele estremeceu visivelmente e quase derramou o café.
— E, claro, vais negá-lo.
O rapaz engoliu em seco, sentindo os pêlos dos braços a eriçar-se. Ao mesmo tempo, a sua curiosidade aguçou-se. Talvez Talia tivesse as respostas que ele procurava, e além disso, "Quanto à maluca, como e de onde é que ela sabia?"
— Está bem. Estou a ouvir.
Tentou dar firmeza à sua voz.
Talia anuiu e, nos seus olhos, Timothy notou o aparecimento de um brilho vivo.
— Para começar, tu não és um ser humano. És... um lemuriano.
— Como é?
Quase saltou da cadeira.
— Senta-te e acalma-te. És um lemuriano.
Ela acenou com a mão, despreocupadamente.
— E o que é que isso supostamente significa?
Baixa e confiantemente, Talia explicou que, na verdade, ele não era um ser humano, mas sim um descendente de uma raça extraterrestre. Timothy ficou como se lhe tivesse caído o mundo em cima. Apertou a chávena na mão, os seus olhos permaneceram arregalados. Era demasiado incrível, demasiado irreal.
— O quê? Lemuriano? Estás a brincar, não estás?
Conseguiu pronunciar por fim, com uma voz anormalmente aguda e estridente.
Talia abanou a cabeça e continuou, calmamente.
— Compreendo como isso te soa. Pensei em como to dizer. E cheguei à conclusão de que não há uma maneira fácil. Por isso, vou direta ao assunto. Tu não és um ser humano. Nas tuas veias corre o sangue da minha raça.
Timothy bebeu um gole de café, tentando dominar a agitação. As suas mãos tremiam. Segurou a chávena com as duas mãos, sentindo o calor irradiado pelo espresso quente. O vapor subiu-lhe à frente do rosto, embaciando a sua visão dos olhos penetrantes de Talia.
— Não... não, isso não pode ser verdade. Eu sou... eu sou um humano da porcaria da Silverpine Hollow. Vou à escola, tive pais... Como posso ser um extraterrestre?
Talia esticou a mão e tocou na palma da mão de Timothy, tentando acalmá-lo.
— Tudo isso é verdade, é quase verdade. Cresceste como um ser humano porque nós escolhemos esse caminho. Nós criámo-lo e nas tuas veias corre o nosso sangue, o nosso poder. És uma das nossas criações e estás aqui com um propósito — um propósito importante.
Timothy abanou a cabeça, afastando-se do toque de Talia.
— Não, não posso acreditar nisso. Eu sou apenas... apenas o Timothy. Nada mais.
Talia suspirou.
— Como te disse — vais negá-lo. Sei que é confuso para ti. Vais ter de o assimilar e depois aceitá-lo. Estás longe de ser um rapaz comum. És um lemuriano e, como tal, tens dotes incríveis, de acordo com os padrões terrestres. Bem, ainda não os compreendes. É precisamente por isso que eu estou aqui. Para te ajudar a descobrir a tua verdadeira essência. Para te ajudar na transição.
Timothy abanou a cabeça, recusando-se a aceitar as palavras de Talia.
— Não, não posso acreditar nisso. Por favor, não... deixa-me em paz. Quero ir-me embora.
Ele levantou-se bruscamente da mesa. Quase derramou o café. Talia seguiu-o com um olhar triste enquanto ele se precipitava para a saída.
— Timothy, espera!
Chamou ela, mas ele já tinha desaparecido pela porta, deixando-a sozinha na cafetaria semi-deserta.
Timothy saiu disparado para a rua, mergulhando na noite fria e húmida. A chuva continuava a cair, mas ele mal a sentia. A sua cabeça fervilhava de pensamentos, tentando assimilar tudo o que Talia lhe tinha revelado.
Um lemuriano? Ele era Timothy Harris. Um humano de Silver Pine. Não havia maneira de ser alguma criatura alienígena. Isso simplesmente não podia ser verdade.
Apressou o passo pela rua, dominado por um desejo desesperado de fugir de tudo aquilo. Não queria acreditar em Talia, não podia. No entanto, uma voz interior sussurrava-lhe que ela estava a dizer a verdade. Ela estava tão convicta nas suas palavras, e aquelas suas visões e capacidades inexplicáveis... tudo apontava para algo maior.
Correu. Cada vez mais rápido e mais longe. Mas não podia fugir, não daquilo. Tudo o que era familiar desmoronava-se diante dos seus olhos. Já não tinha certeza de nada. Era alguém que nem sequer conhecia. Timothy sentiu uma onda de incerteza a invadi-lo.
Parou subitamente no meio da rua. O vento frio da noite chicoteava as gotas de chuva como agulhas de gelo contra o seu rosto. Escorriam em fios, ensopando o colo da sua camisa. Não sentia o frio. A música distante e as risadas dos bares soavam abafadas por baixo da pulsação que martelava nos seus ouvidos. O seu mundo inteiro tinha sido abalado, e a realidade tinha rachado irremediavelmente após uma única conversa.
Os seus pensamentos eram como um mar tempestuoso — giratórios, caóticos, inundando-o com ondas de confusão, incerteza e medo.
Recordou as estranhas visões que o tinham assombrado ultimamente — paisagens exóticas, criaturas desconhecidas, emoções intensas que não lhe pertenciam. Cerrou os olhos com força, tentando dominar o turbilhão na sua cabeça. Se Talia estivesse a dizer a verdade, isso significava que a sua vida até então tinha sido uma farsa. Que tudo o que conhecia era apenas uma fachada, escondendo a sua verdadeira essência.
Porque é que tinha vivido tanto tempo na ignorância, sem saber quem era realmente? O que é que lhe tinham escondido? E que "missão" o aguardava, da qual Talia falava? Ou seria ela uma impostora, que agora, aproveitando-se da sua vulnerabilidade, estava a brincar com ele?
Timothy abriu os olhos, fitando o céu escuro sobre si. A chuva parecia lavar as suas hesitações. Ele tinha de descobrir a verdade. Não podia simplesmente fugir, escondendo-se na rotina familiar. Como poderia ele fugir de si mesmo? Das memórias, dos sentimentos que o assaltavam — tudo isso apontava para algo que ele tinha de compreender.
Virou-se lentamente. O seu olhar fixou-se na porta distante, atrás da qual Talia ainda se encontrava. Começou a andar, quase a correr. Cada passo solidificava a sua determinação em saber. Tinha de ouvir Talia até ao fim. Tinha de descobrir quem era realmente. Porque, se ela estivesse a dizer a verdade, a sua vida nunca mais seria a mesma.
Timothy entrou a correr novamente na cafetaria "Sob o Pinheiro Prateado". Sentia o coração a bater com força no peito. O seu olhar disparou em direção à mesa no canto, onde encontrou os olhos de Talia.
Atravessou rapidamente a sala e sentou-se em frente da rapariga que tinha abalado o seu mundo. Talia não desviava o olhar dos seus olhos.
— Desculpa.
Murmurou Timothy. As palavras saíam com dificuldade.
— Reagi de forma exagerada... Tudo o que me disseste é tão... incrível.
— Compreendo. Não esperava que fosse fácil.
Ela fez uma pausa, pesando as palavras seguintes.
— A verdade nem sempre é uma visita bem-vinda. E quando se trata de uma revelação e ouves que nas tuas veias corre o sangue de uma raça alienígena... as coisas tornam-se ainda mais...
Timothy cerrou os punhos em cima da mesa, tentando disfarçar o tremor das mãos.
— Digamos que é verdade. Conta-me mais sobre eles.
A sua voz tremia de emoção.
— Como são realmente os lemurianos? E porque é que insistes que sou um deles?
Talia inclinou-se ligeiramente para a frente. O seu rosto ficou sério e os seus olhos brilharam.
— Os lemurianos são uma raça antiga. Como deves suspeitar, estamos muito mais avançados do que a humanidade. Mais ainda, os meus antepassados criaram a vida na Terra, incluindo a raça humana.
Timothy engoliu em seco, tentando assimilar as suas palavras.
— Eu sou apenas um rapaz comum...
Talia esticou a mão e tocou na palma de Timothy, desta vez com mais confiança.
— E se o repetires mil vezes, mesmo assim não serás um rapaz comum, Timothy.
Timothy abanou a cabeça, recusando aceitar as suas palavras. Os seus ouvidos zumbiam, os seus lábios estavam secos. Mal conseguia respirar.
— Acalma-te. Compreendo como é difícil para ti aceitar a verdade. Vais desbloquear o que está depositado em ti. Não estás a ver agora memórias que não são tuas?
Ele anuiu rapidamente. Estava a tentar controlar-se.
— Mas são tuas, só que são de um outro passado. Ainda não te apercebeste disso.
Timothy sentiu algo dentro dele a rebelar-se, como se fosse provocado pela tensão extrema e pelas palavras de Talia. As memórias de que ela falava começavam a emergir à superfície — imagens de mundos alienígenas, memórias de um poder inexplicável que o dominava. Ele abanou a cabeça na tentativa de as afastar.
— Não, não posso ser um lemuriano.
— Quer queiras, quer não, és. Tens de o aceitar e seguir em frente.
Talia olhou-o com tristeza.
— E então vais mudar este mundo.
Timothy estava prestes a responder com aspereza, mas hesitou. Subitamente, percebeu como algo dentro dele estava a mudar. Sentiu uma cortina a descer da sua consciência e os seus sentidos a apurarem-se. Uma força indefinida crescia dentro dele. O ruído na sua cabeça intensificou-se. Um homem, sentado a duas mesas de distância, estava particularmente barulhento. Timothy virou-se. O seu olhar fixou-se no homem com um casaco absurdamente escuro de lã cinzenta, sobre uma camisa verde. Ouviu as palavras pronunciadas em voz alta, mas via que a sua boca não se mexia. Captou as suas emoções. "O que se passa, meu Deus? Acho que lhe estou a ouvir os pensamentos." Ele suspirou, confuso e stressado.
Talia não parava de o observar atentamente, como se tivesse previsto aquele momento.
— Ha! Mas isso... isso é impossível.
Murmurou Timothy, a voz a tremer.
— Eu consigo fazer coisas assim?
— Consegues, sem dúvida. És um lemuriano.
Nos olhos de Talia brilhavam chispas de alegria.
— Isso é apenas a manifestação inicial das tuas capacidades. E volto a dizer-te — estou aqui para te ajudar a compreendê-las e a dominá-las.
Timothy olhou para as suas mãos, como se as visse pela primeira vez. Sentia barreiras a caírem na sua cabeça e, sem saber porquê, a sua confiança a fortalecer-se. A força dentro dele crescia. Ela emergia à superfície da sua consciência e ele já não a podia negar. Pelo menos, não perante si mesmo. Era algo diferente de um rapaz comum. Era um lemuriano. Ainda confuso e de certa forma assustado, Timothy ergueu o olhar para Talia.
Talia acompanhou as emoções que Timothy sentia no processo de assimilação da nova informação, vendo cada músculo do seu rosto denunciar a luta que se travava no seu interior.
— O que te está a acontecer neste momento é um processo habitual para nós. Aceita-o como uma espécie de puberdade lemuriana.
O rapaz olhou para ela de olhos arregalados, engolindo em seco.
— E achas que eu devia estar preparado para isto? Perceber que a minha vida inteira foi uma grande mentira? Como é que esperas que eu aceite que sou uma criatura alienígena, e não um ser humano?
A sua mão tremia ligeiramente, quase em sincronia com a sua pálpebra esquerda. Percebendo o tique nervoso, Talia esticou a mão e tocou com a palma na mão trémula.
— Sei que é difícil, é difícil. Pode ser chocante. Mas esta é a realidade para ti.
— Porque é que me escolheram a mim para ser um de vós?
Timothy abanou a cabeça, afastando-se ligeiramente do seu toque.
Talia suspirou profundamente antes de responder.
— Tu não foste escolhido. — Ela sorriu enigmaticamente. — As coisas não funcionam assim. Foste criado. És parte do programa "kakavida" — um projeto no qual depositámos esperanças para o futuro. És uma das nossas criações, o primeiro dos novos lemurianos. Criado para ajudar a nossa raça a sobreviver. A elevar-se e a lutar contra os inimigos que ameaçam o mundo.
Timothy cerrou os dentes, lutando contra a complexa mistura de emoções que o invadia. Zangado por ter sido usado, assustado com as suas capacidades recém-descobertas, mas também fascinado pela ideia de ter um propósito especial.
— Queres dizer que sou... uma espécie de experiência de tubo de ensaio? Criado para servir os objetivos da vossa raça?
Perguntou ele com amargura.
Talia abanou a cabeça.
— Não. És categoricamente uma experiência. A tua criação segue as nossas tradições aqui no planeta Terra. É assim que evoluímos. Criamos uma geração, selecionando cuidadosamente os genes e, depois, o feto é gestado por uma mulher humana. Para que o futuro lemuriano conheça os humanos, tenha uma relação com eles.
— Então os meus pais...
— Eles deviam criar-te e educar-te até à tua maturidade.
— Estás a dizer-me que eles não foram os meus pais biológicos...
Começou Timothy, a voz soando quase assustada.
— Eles não são os meus verdadeiros pais?
Talia abanou a cabeça.
— Eles criaram-te. Amaram-te até ao momento da sua morte.
Timothy cerrou os dentes, lutando contra as emoções turbulentas.
— E a minha vida inteira foi uma enorme mentira? Tudo em que acreditei foi uma fraude?
Talia esticou a mão e tocou novamente na palma de Timothy, tentando acalmá-lo.
— Tu próprio sabes que os teus pais te amaram verdadeiramente. O que te deram — amor, cuidados, educação — é completamente real. A única coisa que não foi verdade foi a tua origem. Mas isso eles também não sabiam.
— Pelo menos eles não me mentiram.
— Não mentiram. Foste concebido in vitro. Fui eu pessoalmente que realizei a substituição e juro que eles não suspeitaram de nada.
— Tu!
— Exatamente.
Talia suspirou profundamente, compreendendo o quão dolorosa era esta experiência para Timothy. E o quão difícil era para ele compreendê-la.
— Quantos anos tens tu, para...
— Para nós, o tempo biológico é diferente. Temos uma tecnologia que nos permite regenerar os nossos corpos.
— Mas, mesmo assim, vais dizer-me?
— Não sei como responder à tua pergunta. Há muito que não conto isso. Só te digo que, quando cheguei pela primeira vez à órbita deste planeta, ainda não havia Lua.
— Mas isso!
Ele nem sequer conseguia imaginar.
— Durante todo este tempo, há longos períodos que passei em estase. Ultimamente, tenho tido de regenerar-me com bastante frequência.
— Sobre isso não vou perguntar.
— Tens de tentar ver as coisas de uma perspetiva diferente.
Timothy baixou novamente o olhar para as suas mãos, lutando contra os pensamentos e emoções turbulentas. Sentia-se traído, desiludido, mas também preenchido por uma força crescente que se elevava dentro dele. Não sabia o que pensar, como lidar com tudo aquilo. A única coisa de que tinha a certeza era que a sua vida nunca mais seria a mesma.
— Então... então eu sou um lemuriano? E o que é que isso significa exatamente? Como é que a minha vida vai mudar?
Talia sorriu, agora consideravelmente mais animada.
— Possuis, ou melhor, virás a possuir, capacidades como telepatia, telecinesia, regeneração... Embora nós, lemurianos, sejamos geneticamente semelhantes aos humanos, há, contudo, uma certa diferença.
— Se as tenho, não sei como controlá-las. Como é que eu lido com tudo isto? Como é que sou... um lemuriano?
Talia esticou a mão e tocou na palma de Timothy.
— Eu vou ensinar-te. Vou iniciar-te nas práticas da nossa raça. Vou preparar-te para os desafios que te esperam.
O rapaz olhou para ela, vendo um esforço sincero em ajudá-lo nos seus olhos.
— Porquê? Porque é que me estás a ajudar? Porque é que te importas comigo?
Perguntou ele, incapaz de esconder a surpresa.
— Porque precisas de apoio.
Respondeu Talia, apertando a sua mão encorajadoramente.
— Espero que te reveles a chave para o futuro. A esperança para o nosso povo, e para todos os seres sencientes deste planeta. E eu farei tudo o que estiver ao meu alcance para te preparar para o que aí vem.
Timothy calou-se por um momento, ponderando nas palavras de Talia. Uma parte dele ainda resistia, recusando-se a aceitar a verdade incomum sobre si mesmo. Mas, ao mesmo tempo, sentia uma ligação profunda a despertar dentro dele, como se algo tivesse encontrado o caminho para casa.
Com um suspiro suave, ele anuiu.
— Está bem. Vou tentar aceitar tudo isto. Mas...
Calou-se por um instante, encontrando o olhar penetrante de Talia.
— Não esperes que aconteça de imediato.
Talia sorriu, como se esperasse uma resposta daquelas.
— Não te preocupes. Sei que será um caminho interessante para ti. Estarei contigo em cada passo.
Ela apertou a sua mão em sinal de apoio, e nos seus olhos surgiu uma firmeza insuspeita. Timothy sentiu aquela calor a começar a espalhar-se por ele, como se a estivesse a aceitar como sua.
Sebastian Mornau saiu do gabinete que lhe tinham disponibilizado e atravessou a passo rápido o corredor da luxuosa residência do clã "Estelar". Os seus passos ecoaram pelo chão de mármore, denunciando a sua impaciência. O tempo trabalhava contra ele e tinha de agir de imediato para assegurar o apoio necessário para as próximas eleições.
Ao entrar na espaçosa sala de reuniões, Sebastian lançou um olhar rápido e avaliador. Acenou à anfitriã, Amara Viktorova — líder dos Estelares — e inclinou-se ligeiramente perante os representantes do clã Cereja, sentados em volta da maciça mesa de carvalho.
— Agradeço-te, Amara, por organizares este encontro. Estou ciente de que o tempo de todos é escasso, por isso estou grato por terem atendido ao meu chamamento.
Mornau observou os presentes com um olhar penetrante antes de prosseguir:
— Pedi esta reunião porque estamos perante o desafio de tomar decisões importantes.
Fez uma pausa, deixando as suas palavras ecoarem na sala.
— Como sabem, aproxima-se a eleição para um novo Presidente do Conselho. Este é um momento crucial para o futuro da comunidade vampírica. Acredito ser o candidato adequado e posso assumir este fardo.
Amara Viktorova recostou-se na cadeira, sem desviar os olhos do orador. Quando ele fez uma ligeira pausa, interveio:
— Sebastian, saúdo as tuas ambições e reconheço as tuas qualidades de líder. — Ela lançou um olhar aos representantes dos Cerejas. — Mas não podes, sozinho, erguer a tua candidatura. É preciso que alcances a necessária preponderância de forças no Conselho. Antes disso, seria inútil.
Mornau semicerrou os olhos, antecipando este desenvolvimento. Sabia que, embora os Estelares e os Cerejas fossem aliados próximos, os pequenos atritos territoriais entre eles não lhes permitiriam facilmente trabalhar em conjunto e apoiar a sua candidatura. Ambos os clãs iriam querer algo em troca.
— Tens toda a razão, minha cara Amara. — A sua voz era contida. — Para ter sucesso, preciso do vosso apoio. Por que não unimos os nossos esforços e apresentamos uma candidatura comum? Assim, poderíamos assegurar um futuro estável para o Conselho.
Amara fingiu ponderar a proposta, enquanto observava discretamente as expressões impassíveis dos representantes dos Cerejas. Ao notar um ligeiro aceno de cabeça de um deles, reagiu imediatamente:
— Soa razoável. Suponho que essa candidatura comum serás tu? Claro, teremos de discutir os pormenores. Iremos exigir posições-chave na nova liderança.
Mornau reprimiu um sorriso. Teria de fazer algumas concessões, mas o resultado final valeria a pena. Se conseguisse ganhar o apoio dos Estelares e dos Cerejas, as suas hipóteses de vitória disparariam.
— Naturalmente, discutiremos tudo. Coloquemos em cima da mesa as vossas exigências e alcancemos um acordo justo. — Ele fez um gesto com a mão em direção à mesa.
Os representantes dos Cerejas trocaram olhares antes de um deles falar:
— Como vamos afastar Cornoil da corrida à presidência?
Mornau acenou pensativamente. Cornoil era um adversário sério, com um apoio sólido de alguns clãs. Ele ainda não tinha declarado a sua candidatura, mas era claro como água que o faria.
— Cornoil e Bartoldo foram e serão os nossos adversários comuns. Eu encarrego-me de Cornoil. — Ele olhou para os presentes. — Mas, em troca, quero a vossa garantia de apoio total à minha candidatura.
Amara Viktorova sorriu.
— E tu, em contrapartida, apoiar-me-ás contra a insolência de Bartoldo e as investidas do seu clã na América do Sul?
— Tens a minha palavra. O clã Mornau trabalhará lado a lado com o clã Estelar nesse sentido.
— Ficamos então combinados. Os Estelares estarão atrás de ti, Sebastian. Juntos, alcançaremos a vitória.
Mornau retribuiu com um sorriso satisfeito. A união com os Estelares e os Cerejas seria crucial para a sua campanha. Agora, só faltava tratar de Cornoil.
Sebastian recostou-se na sua cadeira, sentindo que já tinha uma vantagem decisiva na iminente corrida à presidência do Conselho Vampírico.
— Excelente. — Ele acenou. — Temos uma base sólida para a nossa coligação. Agora preciso de tratar do afastamento de Cornoil.
Virando-se para Amara Viktorova, os seus olhos semicerraram-se.
— Tenho algumas ideias sobre como comprometer Cornoil perante os outros clãs. Entrarei em contacto com os meus contactos e tomarei as ações necessárias contra ele.
Amara acenou, visivelmente satisfeita com a proposta, apesar da falta de concretização. Não podia esperar mais de Sebastian.
— Contamos contigo, Sebastian. Cornoil é osso duro de roer e precisa de ser neutralizado se quiseres ter sucesso.
— Não se preocupem. — Mornau sorriu subtilmente. — Vou garantir que Cornoil seja retirado do jogo. A nossa coligação sairá vitoriosa.
Ele levantou-se e inclinou-se ligeiramente perante os Cerejas, respeitando a sua cultura japonesa. Ao sair, fez sinal a Amara para o seguir.
— Vamos discutir os pormenores do nosso plano. Quanto mais depressa agirmos, melhor.
Enquanto os dois percorriam o corredor, Mornau sentia uma onda de entusiasmo. Lidar com Amara seria fácil, e quanto aos Cerejas... eram para ele um livro aberto. Uma vez dado o seu consentimento, não voltariam atrás, e as condições que lhe iriam impor, ele esperava que não fossem muito diferentes do pedido de controlo sobre Sakhallinsk. Estava a um passo de concretizar os seus sonhos de poder supremo.
O crepúsculo envolvia a imponente Fortaleza das Sombras em Londres – um antigo refúgio do poderoso clã vampírico Macaster. Michael Corneille, o seu líder e candidato ao cargo de presidente do Conselho, percorria o gabinete com as mãos nas costas. O seu olhar deteve-se num bastão metálico elegante, num canto, cujo topo de cristal emitia uma suave luz azulada. Uma relíquia da há muito desaparecida civilização lemuriana, escondia segredos que Corneille apenas podia conjecturar.
A sua atenção voltou-se para o ecrã, onde o aguardava a figura imóvel de Talia Grass. A sua longa túnica azul-clara contrastava com o cabelo corvo e os olhos esmeralda, nas profundezas dos quais Corneille se perdia sempre.
— Sinto que os clãs do Oriente vão apoiar Mornau. Se não o travar a tempo, o meu trabalho está arruinado — murmurou ele.
Talia abanou a cabeça, a voz tranquilizadora:
— Mornau é um adversário perigoso, mas não o estarás a subestimar? É ambicioso, sim, mas não vil.
Corneille semicerrou os olhos:
— Não tenho medo de Mornau! Mas ele vai deitar a perder as hipóteses de uma aliança entre vampiros e lemurianos.
Fitando Talia, como que à procura de aprovação, prosseguiu com ardor:
— Se Mornau revogar a proibição de estudar a vossa tecnologia, vai lançar todos os recursos do Conselho na busca pelos vestígios das vossas bases. Será uma catástrofe. Tenho de o travar.
A porta abriu-se bruscamente e Ricardo Bartoldo, um aliado leal do clã Bartoldo, irrompeu na sala. A sua figura alta e expressão sombria anunciavam más notícias.
— Mornau deu o primeiro passo! Estabeleceu uma aliança formal com os Estelares e os Cinzentos. Já é quase impossível detê-lo.
Corneille cerrou os punhos, dominando a raiva. Virou-se para Talia:
— Esta aliança complica as coisas. Com o seu apoio, Mornau está a um passo da vitória. Estou derrotado!
— Não é verdade — Talia ponderou. — Ainda tens uma oportunidade de o deter, se agires com astúcia e sem confronto direto.
Bartoldo intrometeu-se, visivelmente furioso:
— E ficamos de braços cruzados?! Se Mornau conquistar o cargo, não lhe poderemos opor-nos depois. O meu clã será o primeiro a sofrer.
— Talia tem razão, Ricardo — Corneille levantou a mão, calmante. — Mornau não é do tipo que cede facilmente. Temos de ser mais astutos para o superar neste jogo.
Hesitou, antes de prosseguir, mais baixo:
— Esperemos que não chegue a tal, mas se tudo o resto falhar, poderão ser necessárias... medidas extremas.
Uma batida suave interrompeu-o. A sua secretária entrou, lançando um olhar rápido aos presentes.
— O que foi, Greta?
A rapariga hesitou:
— Senhor Corneille, Hakim al-Hajj do clã Áspide está aqui. Quer uma reunião urgente.
— Convide-o a entrar. O clã dos Áspides é sempre bem-vindo na nossa humilde casa. É um aliado leal.
Segundos depois, a figura imponente de al-Hajj parou no limiar. Acenou a Ricardo e fitou demoradamente a mulher desconhecida no ecrã. Só Corneille conhecia a sua verdadeira natureza. Para os outros, Talia era apenas uma estrategista de confiança do clã. Hakim inclinou-se ligeiramente.
— A caminho, ouvi falar da aliança entre Mornau e os clãs Estelares e Cinzentos. A situação está a tornar-se crítica.
Um pesado silêncio pairou na sala. Corneille foi o primeiro a quebrá-lo, a voz ponderada:
— Com esta aliança, Mornau ganha um poder tremendo. Só o travaremos se empregarmos todos os nossos recursos, e da forma correta. Vamos precisar dos teus contactos e da tua gente, Hakim.
Al-Hajj anuiu lentamente, os olhos azuis fixos no interlocutor:
— O clã Áspide apoiá-lo-á. Não é do nosso interesse que Mornau lidere o Conselho. Os nossos Anciãos consideram o risco demasiado elevado.
— Os vossos Anciãos, como sempre, demonstram uma sabedoria invejável — Corneille olhou para os presentes. Não sabia se podia confiar neles plenamente, mas não tinha escolha. — O clã Macaster, com o apoio de Áspide e Bartoldo, apresentará o seu próprio candidato para o cargo. Consideremos os nossos primeiros movimentos...
Corneille começou a expor o seu plano para comprometer Mornau e angariar aliados. Desenhava-se uma batalha feroz por cada voto no Conselho.
A meia-noite passou. No gabinete de Corneille, pairava um silêncio tenso. Algumas velas projetavam sombras trémulas no seu rosto exausto. Estava sentado, pensativo, atrás da maciça secretária de carvalho, com o copo de uísque intocado à sua frente. Ricardo e Hakim tinham partido, cada um com a sua parte do plano. Apenas Talia permanecia, observando em silêncio a partir do ecrã.
Corneille ergueu o olhar para o antigo bastão. Ele lembrava-lhe porque tinha embarcado neste caminho – a preservação do frágil equilíbrio e da paz.
— Talia — chamou ele a sua atenção. — Preciso de saber mais sobre Mornau. É possível que ele tenha descoberto indícios dos vossos conhecimentos e tecnologia?
Nos seus olhos verde-irreais brilhou algo, antes de responder com a sua voz fascinante:
— É possível, ainda que pouco provável. Mornau é obcecado pela história antiga e por artefactos. Acredita sinceramente que o nosso povo possuía fontes de energia e poder nunca vistas. O que, claro, é verdade. Se ele tiver acesso a algumas delas, as suas ambições vão às alturas. Não posso prever as consequências, mas certamente não serão boas. Por agora, porém, as bases estão bem protegidas e ele ainda não lá chegou.
Corneille semicerrou os olhos e percorreu o espaçoso gabinete.
— Então temos de detê-lo a todo o custo. Não podemos permitir que ele lidere o Conselho, especialmente se tiver acesso à tecnologia lemuriana. O risco é demasiado grande.
Talia abanou a cabeça, sem vestígio de preocupação:
— Mesmo que frustre os seus planos agora, Mornau é teimoso. Não desistirá facilmente. Duvido que isto ponha fim à sua sede de poder.
— Tens razão. Esperemos que as redes de espionagem de Bartoldo e al-Hajj sejam fundamentais.
— Com a ajuda deles, cobres a América do Sul, África, e através do teu clã – a Europa e parte da Ásia.
Ele bateu na secretária com o punho:
— Mesmo que seja necessário, provocarei um confronto direto com Mornau. Estou disposto a isso.
Talia trespassou-o com o olhar:
— Isso iria enfraquecer os vampiros. Não se deve chegar a um conflito com tantas vítimas. Ninguém beneficia com isso. Tens de ser forte. Uma ameaça muito maior aproxima-se. Apoiarei os teus esforços, custe o que custar, mas pensa com razão. Até na possibilidade de eu me encontrar com Sebastian Mornau.
Olhou para o bastão no canto:
— Esta é a mesma arma que nos salvou a vida naquele memorável encontro, há séculos. É um símbolo da determinação da nossa causa. Não nos esqueçamos do verdadeiro inimigo, Michael.
— Abriste-me os olhos naquela ocasião. — Corneille sorriu, recordando como se tinha lançado sobre Talia, ignorando a ameaça do guerreiro mecânico sobrevivente de milénios. Se não fosse ela, ele estaria morto. Anuiu com admiração para a sua aliada lemuriana. Em nome da justiça e do equilíbrio, estava disposto a não ceder perante Mornau.
Os primeiros raios da aurora filtravam-se pelas janelas góticas. A manhã chegava com a promessa de um novo começo – triunfo ou derrota.
As ruas de Londres brilhavam sob um manto de orvalho primaveril quando Ricardo Bartoldo saiu da Fortaleza das Sombras. A sua figura corpulenta estava envolta numa capa negra que esvoaçava atrás dele, enquanto caminhava com confiança para o seu carro.
Estava incumbido de uma tarefa vital – acionar a sua extensa rede de informadores e espiões para recolher informações sobre as ações de Sebastian Mornau. Esta era a sua oportunidade de travar a sua ascensão. Tinham de o comprometer perante os seus aliados Estelares e Cinzentos.
Entrou no carro e acenou ao motorista. O carro partiu em direção ao aeroporto.
— É hora de agir — rosnou Bartoldo ao telefone. — Não subestime o inimigo — ele é impiedoso e não recua perante nada.
Se Corneille perder, sozinho não conseguirei proteger o território do clã. Os apetites de Sebastian pela América do Sul são insaciáveis. Para não falar dos Estelares — há muito que anseiam pelo Chile. Que se lixe tudo! Bartoldo bateu no apoio de braço. Pensar naquela direção enfurecia-o. Já não me bastam os problemas com os cartéis de droga, agora ainda tenho esta retirada inesperada do Lorde Radu Vladislav. Supostamente estava velho e caduco, o velho rabugento. Ora, ele é assim há pelo menos dois mil anos. Agora, precisamente agora, é que lhe dá para se reformar!